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Dois pinguins gays: os melhores pais

Os machos Sphen e Magic criam um filhote de maneira exemplar no aquário de Sydney

Jacinto Antón
Dois exemplares da espécie pinguim-rei
Dois exemplares da espécie pinguim-reiDEAGOTINI (Getty Images)

Um casal de pinguins machos, Sphen e Magic, unidos em uma sólida relação sexual e afetiva, deram um exemplo de paternidade responsável na colônia de cerca de 30 dessas aves no aquário de Sydney. Ao contrário dos outros casais, todos formados por macho e fêmea – que exibiram diferentes graus de negligência, mostrando-se incapazes de ter cria –, Sphen e Magic manifestaram uma capacidade, um zelo e uma abnegação admiráveis na hora de chocar um ovo e criar o filhote.

O pequeno pinguim, Sphengic (os nomes Sphen e Sphengic provêm do termo latino para a família dos pinguins, Spheniscidae), cujo sexo ainda se desconhece porque é difícil de determinar, é fruto de uma incubação de aluguel, por assim dizer. O ovo que os dois machos cuidaram com tanto sacrifício, sentando-se sobre ele em horários alternados durante 28 dias, tinha sido abandonado por outro casal, heterossexual e particularmente descuidado – que, convenhamos, não estava disposto para a tarefa. Os responsáveis pelo aquário deram o ovo órfão aos dois pinguins após observar o esmero que os animais haviam dedicado a um ovo falso. Deram-lhes esse primeiro ovo de mentirinha ao ver que as duas aves se uniam e construíam um ninho magnífico, mostrando grande empenho e entusiasmo. Todos concordaram que os pinguins machos mereciam um ovo de verdade e uma família – e não se decepcionaram.

Ambos os pais estiveram presentes no feliz momento da eclosão e mostraram sua emoção ao ver nascer o filhotinho, como costumam fazer os pinguins. Em A Pior Viagem do Mundo (Companhia das Letras), o explorador Apsley Cherry Garrard, que acompanhou o oficial britânico Robert Falcon Scott ao Polo Sul e precisou enfrentar temperaturas de 50 graus negativos para conseguir três ovos de pinguim-imperador no cabo Crozier, explica como essas aves cantavam para a tripulação e como os exploradores faziam o mesmo entoando o hino britânico, ao que os pinguins se lançavam à água. Se o recém-chegado Sphengic ficou surpreso ao se deparar com dois papais, não manifestou. E começou a tagarelar alegremente com eles. Atualmente, eles estão ensinando-o a nadar.

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Sphen e Magic, de seis e três anos respectivamente, da espécie pinguim-gentoo (Pygoscelis papua) – que se caracteriza pela mancha branca na parte superior da cabeça – e de personalidades bem diferentes, já eram um casal famoso na Austrália antes de virar papais. Sua relação muito estável, ao contrário da de outros casais heterossexuais – apesar dos mitos sobre a monogamia e a fidelidade dos pinguins –, coincidiu com a luta no país pela legalização do casamento gay.

Os pinguins costumam ter relações homossexuais (inclusive para sempre) e fazer ninhos. Mas, claro, o que os machos não costumam ter é um ovo, ainda que alguns animais tenham roubado um. Em 2014, Jumbs e Kermite, dois pinguins-de-humboldt machos do zoológico de Kent, viveram uma história parecida ao chocar um ovo abandonado e criar o filhote com devoção. Roy e Silo, dois pinguins-de-barbicha machos do zoo do Central Park em Nova York, fizeram o mesmo depois que os criadores se comoveram ao vê-los chocando uma pedra. Sua história se tornou muito popular e inclusive foi levada (não por eles, claro) ao teatro com o título talvez não muito inspirado de Birds of a Feather. Curiosamente, o filhote, Tango, uma fêmea, formou casal com outra pinguim quando cresceu.

Em todas as espécies de pinguins, como se vê, ocorrem comportamentos homossexuais (mais informações em Homosexual Mating Displays in Penguins, Ethology 116, 2010), algo que, assim como outras práticas observadas, escandalizou os cientistas que as estudaram. É famoso o caso do pesquisador George Murray Levick, oficial médico que acompanhava Scott em 1910, para quem os atos de “sexo não procriador” dessas aves (incluindo a necrofilia e o abuso de menores) incomodaram tanto que os escondeu em seus relatórios descrevendo-os em grego (!) e depois excluindo-os da publicação oficial.

Os cientistas afirmam que há comportamentos homossexuais em praticamente todas as espécies. E as que não têm é porque essencialmente não praticam sexo, como os ouriços do mar (não é piada). Ainda assim, pode causar surpresa o fato de que, nas relações sexuais entre girafas, nove de cada 10, segundo algumas fontes, acontecem entre machos.

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