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MÚSICA

Qual foi a primeira música de heavy metal da história?

Comemora-se 50 anos do que para muitos especialistas é a canção que inaugurou um dos principais gêneros do rock

Vamos entrar, devidamente munidos de munhequeiras cheias de pregos, em um dos debates musicais mais polêmicos de todos os tempos: qual é a primeira música de heavy metal da história? Muitos estudiosos se envolveram na refrega. Alguns com opiniões ousadas. Como os que apontam You Really Got Me, dos Kinks, no distante 1964. Esse fino compositor pop que é Ray Davis se irritava de vez em quando e compunha temas rudes de verdade como este. Mas, para ser justos, grande parte da agressividade da canção deve ser atribuída a seu irmão Dave. O guitarrista, que adorava fazer experiências com a tecnologia, plugou um par de amplificadores baratos, rasgou um alto-falante e conectou a guitarra. Dali saiu um som rascante e novo. Forte? Sim. Selvagem? Também. Heavy metal? Calma lá.

Vejamos o caso de Helter Skelter, o tema que os Beatles incluíram em seu White Album, de 1968. Isso já é outra coisa. Aqui há muito mais do que alguns acordes furiosos de guitarra. Aqui há violência da boa, sons melancólicos, uivos. Sombria? Sim. Feroz? Também. Heavy metal? É preciso avaliar seriamente. Uma coisa interessante a levar-se em conta nessa música: ao contrário da maioria das peças que veremos a seguir, Helter Skelter não tem uma raiz claramente blues. Os Beatles, sempre criando. E um ponto contrário a outorgar a Helter Skelter o prêmio de primeira canção heavy: esses coros (aaaaaah) tão Beatles e tão pouco metaleiros.

A primeira vez que se utilizou “heavy metal” foi em um romance do grande maldito da literatura William Borroughs. Foi em 1962 e o relato se chama ‘The soft machine’. Em que contexto? Para definir um garoto ucraniano chamado Willy como “heavy metal kid”

O que dizer dos casos de Cream e de Jimi Hendrix Experience? O trio de Eric Clapton lançou seu primeiro disco (Fresh Cream) em 1966; Hendrix o fez em 1967 (Are You Experienced?). Nos dois há distorção, rudeza, energia. Heavy metal? Na verdade estão mais perto do blues psicodélico.

Já escutaram a versão primordial de Street Fighting Man, dos Rolling Stones, editada em 1968? Isso sim soa perigoso. Você ouve os alaridos de Jagger e dá vontade de sair para a rua para queimar lixeiras. E essa letra: “Ei, então meu nome é Distúrbio/Vou gritar e berrar/Vou matar o rei, vou humilhar todos os seus súditos... Lutador de rua”. Certo, certo, tudo muito ameaçador, mas Street Fighting Man é heavy metal? Não exatamente.

Melhor dar uma parada no caminho para explicar o que é heavy metal? Humm, esse é o charco no qual muitos já pisaram e de onde quase todos saíram enlameados. Podemos olhar para trás para ver de onde vem o nome. A maioria concorda que a primeira vez que se usou o termo “heavy metal” foi em um romance do grande maldito William Burroughs. Foi em 1962 e o texto se chama The Soft Machine (traduzido com o mesmo título no Brasil). Em que contexto? Para definir um garoto ucraniano chamado Willy como “heavy metal kid”. Em um ecossistema musical e com toda a intenção do mundo, o primeiro a usar o termo foi o mítico crítico de rock Lester Bangs, que na revista Creem (maravilhosa) lançou mão dele para definir a música de bandas como Black Sabbath, MC5 e Deep Purple. Isso em 1970.

Antes, em 1968, foi usado pela primeira vez em uma música. Foi no clássico Born To Be Wild, dos canadenses (que desenvolveram sua carreira na Califórnia) Steppenwolf. Diz assim: “I like smoke e lightning/Heavy metal thunder/Racing with the Wind and the feeling that I’m under” (“Gosto de fumaça e relâmpagos, o trovão do heavy metal/Correndo com o Vento e sentindo que está tudo sob controle”). Assim explicou o compositor da música, o roqueiro canadense Mars Bonfire, de onde veio: “Ouvi Heavy Metal Thunder em minha aula de química quando estava no colégio”. Muito pouco romântico, sem dúvida.

Os três membros da Blue Cheer (Dickie Peterson, Leigh Stephens e Paul Whaley) no fim dos anos sessenta.
Os três membros da Blue Cheer (Dickie Peterson, Leigh Stephens e Paul Whaley) no fim dos anos sessenta. Foto: Getty

Mas continuamos sem saber qual foi a primeira música heavy. Vamos continuar a embasar. Podemos nos arriscar e apontar o primeiro grupo de heavy da história: Black Sabbath. É o que afirmam os especialistas. Como David Konow, que escreveu o fundamental Bang Your Head. The Rise and Fall of Heavy Metal. “Nunca antes a música soou tão obscura, distorcida e alta”, escreve Konow sobre o Black Sabbath. Outro estudioso do tema, John Harrel, afirma sobre o grupo: “Black Sabbath foi a primeira banda de heavy metal da história, um grupo que quebrava tudo quando chegava em sua cidade”.

Sem dúvida, Black Sabbath é de Birmingham, uma cidade de arraigada tradição industrial. Há uma frase sobre Birmingham: “É negra de dia e vermelha à noite”. Nos anos setenta a cidade foi o principal produtor de metal do Reino Unido. Dissemos metal? Além do Black Sabbath, são de Birmingham Judas Priest (deuses do heavy ainda na ativa) e uma banda fundamental para a formação do Led Zeppelin (que não se pode considerar heavy, mas quase), Band of Joy, o grupo do fim dos anos sessenta de Robert Plant e John Bonham, depois respectivamente vocalista e baterista do Zeppelin. O baterista do Black Sabbath disse certa vez: “Se você crescia em Aston [a região de Birmingham onde nasceu o grupo] tinha três opções: ‘Trabalhar em uma fábrica, montar uma banda ou ir para a cadeia”.

Já temos o primeiro grupo de heavy da história. No entanto, os historiadores do rock afirmam que foi outra banda que gravou a verdadeira primeira canção de heavy metal. Agora já podemos revelar o mistério. Falamos de um grupo bem desconhecido para os não iniciados, Blue Cheer. Assim o trio é apresentado pela revista inglesa Classic Rock: “Tinham um Hell’s Angel como empresário, foram desprezados pelas outras bandas da cena e tocaram tão alto que o pessoal fugia de seus shows com medo no corpo. Os integrantes do Blue Cheer tomavam ácido, se vestiam com calças justas, enchiam o palco de seus shows com intermináveis filas de amplificadores Marshall e demonstraram, de uma vez por todas, que quando falamos de rock, mais é sempre melhor”.

A música em questão do Blue Cheer que muitos apontam como a primeira do heavy metal é uma versão totalmente selvagem de Summertime Blues, de Eddie Cochran. Um som pesado, com uma guitarra incisiva, um baixo muito Lemmy Kilmister (do Motörhead) antes de Lemmy criar seu estilo e uma bateria que não para um segundo de atacar seu estômago. E essa imagem, com o cabelo na cara (impossível reconhecer seus rostos). Puro heavy metal em 1968, dois anos antes do primeiro álbum do Black Sabbath. Esse Summertime Blues integra o primeiro disco do Blue Cheer, Vincebus Eruptum, um rolo compressor sônico.

A versão inicial de ‘Summertime Blues’, composta por Eddie Cochran, é de 1958. Eis aqui Cochran interpretando o tema nos anos cinquenta.

Kurt Cobain era um grande seguidor do Blue Cheer. Muitos jovens grunge conheceram o Blue Cheer nos anos noventa graças a Cobain, que tocava usando camisetas do grupo. Que fim levaram esses pioneiros? O Blue Cheer trabalhou sem parar em seus primeiros tempos, com cinco discos em três anos. Logo vieram as brigas e a troca de membros. Apesar de continuarem lançando álbuns, desde meados dos anos setenta perderam popularidade. Nos anos noventa os dois líderes da banda, o baterista Paul Whaley e o baixista e cantor Dickie Peterson foram viver na Alemanha com suas companheiras, “fartos do estilo de vida americano”. Em seu quartel general europeu ressuscitaram o grupo várias vezes, quase sem poder de mobilização. Em 2009 Dickie Peterson faleceu de câncer no fígado.

Anos antes de morrer, Peterson deu uma entrevista a Classic Rock. “A cena do rock da época nos rejeitou. Lembro que Mike Bloomfield me disse: ‘Não dá pra fazer fazer isso, não dá pra tocar tão alto’. E disse a ele: ‘Imagina, Mike, você também pode fazer isso. Só tem que aumentar o volume até o dez’. Ele me odiou desde então. Sim, tivemos um pouco de arrogância, mas foi alimentada pelas pessoas que nos criticavam”. E acrescenta: “A gente só sabia que queria fazer muito barulho”. E foi o que fizeram...

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