Música relaxante e gols sussurrados: a rádio que narra River x Boca para torcedores cardíacos

Transmissões da Radio Colonia também incluem conselhos médicos para quem sofre do coração

River Plate x Boca Juniors final da Libertadores
Torcedor do Boca durante treino na Bombonera. Getty Images

Custa achar um argentino que não saiba onde estará neste 24 de novembro às 17h (18h em Brasília). Muitos contam as horas que faltam para se sentar diante de uma televisão e acompanhar a decisão da Libertadores entre Boca Juniors e River Plate. O nervosismo dos torcedores desses dois clubes arquirrivais vai crescendo e transbordará quando o árbitro uruguaio Andrés Cunha apitar o início do superclássico.

Não será um choque apto para cardíacos, mas uma emissora uruguaia se dispôs ajudar quem sofre do coração. A Radio Colonia narrará sem gritar os gols, com música relaxante de fundo e os conselhos de um médico para evitar que as pulsações disparem além do conveniente.

O espaço Relatos Relajados (“narrações relaxadas”) estreou no jogo de ida na final, no estádio La Bombonera. Haviam transcorrido apenas 34 minutos quando Ramón Ábila abriu o placar para o Boca e pôs em apuros os jornalistas esportivos Leonardo Uranga e Eduardo Caími. Em vez de se esgoelar gritando gooooooooooooool, como em qualquer transmissão radiofônica clássica, o narrador se limitou a dizer “gol do Boca, gooool do Boca e de Wanchope Ábila, do Gladiador” com a voz mais calma que conseguiu.

“Foi uma aventura total, sentia-me como um leão enjaulado”, admite Uranga ao EL PAÍS, recordando a partida que narrou junto com Caími. “Esse primeiro gol apareceu como um relâmpago e perdi a cabeça por um momento, mas acho que consegui recuperá-la para adequá-lo ao registro do que se pretendia”, diz.

Sem tempo para se recuperar, e enquanto os gritos dos torcedores do Boca Juniors ainda retumbavam na Bombonera e em milhares de casas, Lucas Pratto empatou para o River Plate, aos 35. “Gol do River, Gooool do River. Pratto, Pratto, Pratto empatou. Viu você que é do River, parecia que a tarde ia ficando nublada, mas o futebol dá a revanche de maneira imediata”, disse Caími aos ouvintes da Radio Colonia.

Na cabine, junto com os narradores, estava o cardiologista Gonzalo Díaz Babio. Quando a bola saía ou o árbitro marcava uma falta, o especialista da Sociedade Argentina de Cardiologia dava conselhos para tentar manter a calma. “Aproveite a meia-estação para sair e caminhar um pouco”, “tente evitar os excessos na comida e diminua o consumo de sal”, sugeria o doutor. Tomar água para se manter hidratado, não beber álcool e desfrutar do jogo num ambiente amigável foram outras das recomendações do médico.

“Queríamos colaborar para que as paixões tão inflamadas no país se acalmassem, se serenassem, sem que isso prejudique o desfrute e o prazer. Muita gente está encarando isso como um episódio muito difícil de tragar pelo inigualável da situação”, conta Díaz Babio.

O médico também respondeu dúvidas que chegavam pelas redes sociais da emissora. “Alguns perguntavam se antes de um jogo de futebol convinha fazer atividade física para relaxar, e a resposta foi afirmativa. Outra pergunta comum foi sobre a medicação, e aí a sugestão foi que não se pode dar essa indicação por telefone”, conta ao EL PAÍS.

Narração zen

A narração zen viralizou nas redes sociais, e as publicações relacionadas a ela acumulam milhares de visitas e comentários. Alguns elogiam a iniciativa, outros dizem que preferiam morrer de infarte a escutar um jogo narrado sem sobressaltos nem coros da torcida.

A música relaxante que substituiu o som ambiente buscava acalmar não só os ouvintes, mas também os responsáveis por narrá-la. “A primeira ideia era com o som original do campo, mas a emoção e os gritos dos torcedores nos levariam todos lá para cima”, diz Uranga.

O jogo deste sábado será ainda mais intenso. “Haverá um ganhador e um perdedor. É preciso enfatizar as virtudes do time que levantar a taça, mas também abraçar e massagear a alma, o orgulho e a honra dos torcedores da equipe derrotada”, antecipa o jornalista esportivo. O coração dos vencidos é o que fica com a pior parte. “Na Copa de 1998, depois do jogo Argentina x Inglaterra, que ganhamos, os eventos cardiovasculares aumentaram 30% na Inglaterra”, conta Díaz Babio.

Como apaixonados por futebol, eles gostariam que o festival de gols da ida se repetisse ou se superasse neste sábado. Como responsáveis por um programa destinado a cuidar da saúde dos torcedores, concordam numa coisa: tomara que o próximo campeão da América do Sul não seja decidido nos pênaltis.

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