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O indecifrável enigma de Freddie Mercury

O filme 'Bohemian Rhapsody' repassa a vida do músico e expõe sua solidão, seus excessos e incertezas

Freddie Mercury, em um show no final dos anos 80
Freddie Mercury, em um show no final dos anos 80

Há algo enganador e difícil de capturar em Bohemian Rhapsody, a canção da banda britânica Queen composta por Freddie Mercury para o álbum A Night in the Opera (EMI, 1975). Milhões de pessoas sabem de cor as suas mudanças de tom e ritmo, seus extravagantes coros e falsetes e o contagiante riff da guitarra de Brian May. E, no entanto, qualquer um que tentar se exibir com ela em uma noite de álcool e karaokê inevitavelmente enfrentará o fracasso.

Algo parecido aconteceu com a maioria dos críticos de cinema em Londres depois de ver a estreia da cinebiografia de mesmo nome (no Brasil, o filme estreia no dia 1º de novembro). A categoria de lenda do Queen, e especialmente de Freddie Mercury, causou um duplo engano na espera ansiosa por um filme de filmagens turbulentas e que levou dez anos para ver a luz. As realizações musicais do grupo são indiscutíveis. A personalidade carismática de Mercury, com seu trágico final vítima da AIDS, também.

Os ingredientes eram perfeitos para uma história épica. A estreia deixou um gosto insosso e dispensável. "Se a intenção desse filme era que a gente saísse do cinema e começasse a repetir a incrível música desta banda (e é isso que este crítico fez), conseguiu. Mas se esperavam mais do que uma versão tingida de rosa do que poderia ter sido uma das biopics mais interessantes e comoventes de todos os tempos, tenham cuidado: eu gostei, mas isto não é vida real, está mais para fantasia”, escreveu o crítico James East no jornal The Sun, parafraseando em suas últimas palavras um dos trechos mais famosos da canção que dá título ao filme.

Freddie Mercury, em um show histórico nos anos 80 ampliar foto
Freddie Mercury, em um show histórico nos anos 80 Getty

Só se salva da sensação generalizada de mediocridade o ator de ascendência egípcia Rami Malek, que consegue personificar, se não o magnetismo de Freddie Mercury, pelo menos sua explosão no palco e sua imagem inigualável. Não acontece o mesmo com a voz. Foi necessário fazer arranjos no estúdio de gravação para transmitir uma intensidade similar.

O primeiro ator escolhido foi o comediante Sacha Baron Cohen – quem nunca pensou em sua incrível semelhança com Mercury? –, mas discordâncias com os componentes ainda vivos do Queen fizeram com que ele abandonasse o projeto. O mesmo aconteceu com Ben Wishaw, a segunda opção. Houve também mudança de diretor. E todas essas vicissitudes levam à conclusão de que o filme nunca acabou tendo uma ideia clara do que se queria contar.

Bohemian Rhapsody expõe a solidão, os excessos e as incertezas de Mercury. E seu noivado, primeiro, e amor platônico depois, com Mary Austin, interpretada pela atriz Lucy Bointon. A ênfase naquele amor, que era real e se manteve até o fim (Austin herdou a mansão e a fortuna do cantor), agitou as redes sociais: muitos quiseram ver uma tentativa de camuflar a homossexualidade de Mercury. O filme não esconde, no entanto, nenhuma de suas paixões, mas deixa uma sensação para a maioria dos críticos de objetivo não cumprido. Poderiam ter extraído algo mais daquele provocador que chegou a dizer: "Sou capaz de dormir com qualquer coisa, homem, mulher ou gato".

Mas se tratava mais de obter novas receitas de um sucesso que continua se prolongando por décadas. Um filme "perfeitamente adequado", escreveu o crítico da BBC. E perfeitamente dispensável, de acordo com o consenso dos demais especialistas.

Rami Malek: de garoto robô a estrela do 'rock'

Aos 37 anos, o currículo de Rami Malek não é tão extenso quanto meteórico. Nascido em Los Angeles (Califórnia) de pais egípcios, começou a carreira com um papel coadjuvante em séries como Gilmore Girls (que foi ao ar nos EUA de 2000 a 2007) e Medium (2005 a 2009), e curiosamente o seu primeiro personagem no cinema foi como faraó em Noite no Museu (2006). Sua grande chance veio em 2015, quando ganhou o papel principal da série célebre Mr. Robot, na qual interpreta um hacker, personagem que lhe rendeu um Emmy e cuja quarta e última temporada estreia em 2019. A sua transformação no grande Mercury é um momento crucial em sua carreira. Um personagem com o qual se identifica, como explicou em uma entrevista à revista ICON: "Sei que nossas famílias eram diferentes, mas como filho de família de imigrantes posso entender um jovem nascido em Zanzibar [Mercury], criado desde os dois anos em internatos em Mumbai e forçado a emigrar para Londres [na verdade, Mercury se muda para Londres aos oito anos]. Sei o que é falar uma língua diferente e comer outra comida dentro de casa. Eu sei o que significa ser diferente ".

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