Viagem à Lua

O que acontece ao voltar da Lua? As excêntricas vidas dos poucos homens que lá pisaram

A estreia de ‘O Primeiro Homem’ volta a pôr o foco sobre esses heróis que, depois de sobreviverem à alunissagem, tiveram existências erráticas

Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin posam no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em 1969.
Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin posam no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em 1969.

O que acontece com alguém depois de pisar na Lua? Durante três anos e meio, entre as décadas de sessenta e setenta, 12 homens estiveram lá. O primeiro foi Neil Armstrong, em 21 de julho de 1969. Sua extraordinária experiência de vida é narrada em O Primeiro Homem, protagonizado por Ryan Gosling, que estreou nesta quinta-feira. Só quatro deles continuam vivos (Armstrong morreu em 2012).

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Uma das questões mais interessantes sobre estes homens transcende o biográfico para se tornar algo filosófico: depois de chegarem, literalmente, mais longe do que ninguém, depois de verem de longe o seu próprio planeta, e depois de serem vistos pelo mundo inteiro como heróis... o que aconteceu quando voltaram para casa, se sentaram no seu sofá e se perguntaram: “E agora?”.

A experiência desses 12 homens dá uma resposta, e não é muito alentadora. No livro Moondust, o jornalista Andrew Smith analisa e reflete sobre as estranhas e erráticas existências desses astronautas depois de voltarem para a Terra. Em suas páginas, sustenta que nenhum soube sustentar a fama e a condição de heróis. “Quando você compartilhou um instante com toda a humanidade, deve ser difícil saber de forma precisa onde acabam suas lembranças e onde começam a dos outros”, medita Davis no livro.

Neil Armstrong (Ohio, 1930-2012) é o mais famoso de todos porque foi o primeiro. Um homem introvertido, que, na verdade, quando chegou à Lua em 1969 já trazia nas costas uma experiência que o tinha marcado para sempre: a morte de sua filha Karen por um tumor cerebral com apenas dois anos, em 1962. Armstrong se deu conta muito cedo de que poderia se tornar um símbolo, uma espécie de monumento humano, e ele queria ser só um homem. Por isso concedeu pouquíssimas entrevistas sobre sua experiência e deixou de dar autógrafos em convenções espaciais. Seus mais próximos contam que chegava a ir embora de um restaurante se outros clientes o reconheciam. Em Lunáticos, Davis entrevistou quase todos os astronautas que chegaram à Lua, mas de Armstrong conseguiu apenas alguns breves e-mails. Armstrong se divorciou de sua esposa em 1994, após 38 anos de casamento. Em 2005, teve grande repercussão a batalha judicial que travou contra um barbeiro que havia vendido uma mecha do seu cabelo pelo equivalente a cerca de 11.400 reais.

Armstrong percebeu que poderia virar um símbolo, uma espécie de monumento humano, e ele queria ser um homem. Por isso se afastou de tudo

O caso de seu colega Buzz Aldrin (Nova Jersey, 1930) foi diferente: Aldrin, segundo muitos dos que o conhecem, nunca aceitou bem o fato de não sido o primeiro homem a pisar na Lua naquele dia histórico de 1969 (primeiro desceu Armstrong, e depois ele). Ser o segundo não foi suficiente. Em uma entrevista, esclareceu: “Sempre sou apresentado como o segundo homem a pisar na Lua... e isso é um pouco degradante. Deveriam me apresentar como um membro da primeira equipe humana a pisar na Lua”.

Aldrin vive na Flórida, em uma pequena cidade litorânea chamada, com muito senso de humor, Satellite Beach. Assim como Armstrong, também chegou à Lua após uma experiência traumática: menos de um ano antes da missão espacial Apollo 11, sua mãe se havia suicidado. Seu avô também se matou. Em 2009, confessou ao The New York Times: “Acredito que herdei a depressão de minha família materna”. Seus episódios depressivos e sua batalha com o álcool começaram pouco depois de voltar à Terra. Assim como Armstrong, também se divorciou da sua esposa depois de quase 20 anos de união. Mas ao contrário dele, Aldrin foi muito mais comunicativo com a imprensa e chegou a contar em detalhes suas lutas com a depressão e o álcool, num livro intitulado Magnificent Obsession.

Aldrin, que tomou a comunhão quando pisou na superfície lunar, sempre sentiu uma conexão religiosa com aquele momento da sua vida. “Não estou seguro de que um ateu possa entender minhas palavras quando descrevo o que vivi”, disse numa ocasião. “Sempre que tentei explicar com palavras me senti inútil.”

Buzz Aldrin foi o segundo homem a pisar na Lua. Seus episódios depressivos e sua luta contra o álcool começaram muito pouco depois de voltar à Terra

Mas, para falar de espiritualidade, ninguém melhor que James Irwin (Pensilvânia, 1939 – Colorado,1991). Irwin foi o oitavo homem a pisar na Lua, em 1971, com a missão Apollo 15. No ano seguinte, deixou a carreira espacial para se dedicar à sua fé. Afirmou então que na Lua havia sentido o poder e a presença de Deus com mais força que nunca. Fundou a congregação religiosa Altos Voos, com a qual promoveu missões como ir procurar os restos do Arca de Noé ao monte Ararat, na Turquia.

O astronauta Charles Duke fotografado em 1971.
O astronauta Charles Duke fotografado em 1971.

Charles Luke (Carolina do Norte, 1935) foi o décimo homem a pisar no satélite, na missão Apollo 16, e o mais jovem de todos, com 36 anos. Ao voltar, seu casamento estava fazendo água e, conforme contou em uma entrevista televisiva, encontrar Deus os salvou. Deixou a NASA para se mover entre o privado – criou uma empresa de distribuição de cerveja – e o divino – fundou seu próprio ministério pastoral, o Ministério Duke para Cristo.

Também Eugene Cernan (1934) viveu um despertar espiritual: “O mundo é muito lindo para ter sido criado por acidente. Tem que haver algo maior do que você e eu. E digo isso em um sentido espiritual, não religioso. Tem que haver um criador do universo acima das religiões que nós mesmos criamos para governar nossas vidas”, declarou depois da sua alunissagem.

Edgar Mitchell em 1972.
Edgar Mitchell em 1972.

Edgar Mitchell (Texas, 1930 – Flórida, 2016), sexto homem a pisar na Lua, também foi um iluminado, mas não religioso, e sim astrológico. Em sua biografia, Earthrise: My Adventures as an Apollo 14 Astronaut, escreveu que durante as horas que esteve sobre a Lua se deu conta de que todas as moléculas do seu corpo e da sua espaçonave foram fabricadas, afirmava, há muitíssimo tempo, “em alguma das estrelas antigas que brilhavam nos céus”. Como Irwin, Mitchell deixou a NASA em 1972 e fundou Instituto de Ciências Noéticas, que estuda a relação entre o poder da mente e o universo físico. Mitchell, de fato, acreditava na comunicação telepática e afirmava exercê-la. Também acreditava firmemente na existência de extraterrestres e chegou a declarar que a vida alienígena tinha visitado a Terra, mas que a NASA a havia ocultado, algo que desagradou seus ex-colegas. Também Mitchell se divorciou de sua esposa pouco depois de voltar da Lua, em 1972.

Mas se alguém fez dessa viagem algo transcendental e ao mesmo tempo fisicamente tangível foi Alan Bean (Texas, 1932-2018), o quarto homem a pisar na Lua, em 1969, na missão Apollo 12. Em 1981, decidiu deixar a NASA para exercer sua paixão: a pintura. Repetiu em dezenas e dezenas de telas a mesma cena, com certo ar impressionista: uma superfície brilhante e iluminada pelo sol, mas um céu escuro, muito escuro (na Lua não há atmosfera). Essa paisagem foi descrita por todos os que lá estiveram, mas é difícil de imaginar para quem não teve essa experiência. Isso está nos quadros de Bean, que morreu no começo deste ano, mas ainda tem obras à venda no seu site oficial. Algumas passam de 1,75 milhão de reais. O objetivo principal de suas pinturas, dizia, era “preservar esta grande aventura”, e sobretudo aquela sensação, “se a puder encontrar depois de 30 anos”.

Alan Bean, astronauta e depois pintor.
Alan Bean, astronauta e depois pintor.

Buzz Aldrin