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Por que não voltamos à Lua?

Há 43 anos os terráqueos não pisam no seu satélite, apesar dos projetos ambiciosos

Ideia era instalar ali colônias de homens e robôs e explorar seus recursos

Edwin F. Aldrin, durante seu passeio pela superfície da Lua, em 1969.
Edwin F. Aldrin, durante seu passeio pela superfície da Lua, em 1969.

Há ideias fantásticas para voltar à Lua. E não apenas para que um punhado de astronautas realizem algumas excursões curtas, mas para ir implantando autênticas bases permanentes, talvez colônias de homens e mulheres para desenvolver atividades científicas, de exploração dos recursos locais ou que funcionem como estação intermediária para a exploração de outros mundos, Marte sendo o primeiro, claro. Cada uma das potências espaciais levantou em algum momento a possibilidade de dar o salto de 384.000 quilômetros que separam a Terra de seu satélite natural. Sempre estão sendo feitos estudos mais ou menos detalhados de como seriam essas colônias: escavadas no subsolo, unindo módulos na superfície... Até foi lançada recentemente uma iniciativa para aproveitar a tecnologia de impressão 3D para construir uma base com materiais do próprio solo lunar, sem ter que levar tudo de casa.

O que não existe em marcha é um programa espacial lunar sólido, financiado, e seria preciso um gigantesco investimento com calendário para que os seres humanos voltassem a pisar na Lua dentro de um prazo razoável e, desta vez, para ficar. E sem dinheiro (mais tecnologia, ciência e vontade política) não há exploração do espaço nesta escala; a NASA sabe bem disso, ao conseguir combinar todos estes elementos imprescindíveis há meio século para colocar no solo lunar os astronautas do programa Apollo. Os últimos, Eugene Cernan e Harrison Schmitt, da Apollo 17, se despediram da superfície do satélite em 14 de dezembro de 1972.

“Uma das minhas ideias é ir à Lua, do lado escuro, e colocar ali robôs e seres humanos em uma estação permanente, e não levar tudo que é necessário daqui, mas usar material lunar, e construir lá, por exemplo, um grande telescópio”, disse recentemente o novo diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), o alemão Jan Woerner, que estreou no cargo em 1º de julho. Mas a iniciativa europeia não conta com um projeto devidamente financiado para tornar realidade missões tripuladas ao nosso vizinho do sistema solar, o único já pisado pelo homem além da Terra. E a NASA, olhando para Marte e para algum outro asteroide, acompanha essas iniciativas com o canto do olho, sem se comprometer. “Nunca disse que os Estados Unidos não vão voltar à superfície da Lua. O que digo é que, em um futuro previsível, dado o orçamento que tem a NASA, onde estamos e o que precisamos tecnologicamente para ir a Marte, não serão os EUA que liderarão uma expedição à superfície lunar”, disse o diretor da agência espacial dos EUA, Charles Bolden, há dois anos, e repetiu várias vezes. Claro, salientando que, se outra potência espacial decidir ir à Lua, “forneceremos nossa capacidade tecnológica com a única condição de que permitam enviar um astronauta nosso como parte da tripulação”.

Uma dúzia de astronautas no total, em seis missões Apollo, desceram ao solo lunar entre julho de 1969 e dezembro de 1972. A aventura científico-tecnológica, com forte substrato político, começou em maio de 1961, com a declaração histórica do presidente John F. Kennedy: “Acredito que esta nação deve se comprometer a conseguir o objetivo, antes de terminar esta década, de colocar um homem na Lua e trazê-lo de volta em segurança para a Terra”. E conseguiu, em julho de 1969, quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin chegaram ao Mar da Tranquilidade. Em plena guerra fria e com a dianteira que tinha tomado a União Soviética no espaço, ao colocar em órbita o primeiro satélite artificial da Terra (o Sputnik, 1957), lançar no espaço o primeiro animal (a cadela Laika, 1957), enviar a primeira sonda a atingir o solo lunar (1959) e obter, nesse mesmo ano, as primeiras fotos do lado oculto da lua, os Estados Unidos não podiam ficar para trás. Começou a corrida para a Lua e a URSS acabou perdendo. Mas os avatares e razões políticas não podem tirar nem um pouco do mérito científico e tecnológico colossal do programa Apollo.

Uma dúzia de astronautas ao todo, em seis missões Apolo, desceram ao chão lunar entre julho de 1969 e dezembro de 1972

No auge da Apollo, a NASA chegou a contar (1966) com 4,4% do orçamento federal dos EUA. O custo da Lua foi muito alto. E, tendo alcançado o objetivo, a esmagadora demonstração de poder tecnológico, o esforço foi abandonado. Em 1973, o orçamento da NASA tinha caído para 1,3% do federal e continuou em declínio. Em 2015, com 18 bilhões de dólares, a agência espacial norte-americana conta com cerca de 0,5% do orçamento federal, e os ambiciosos planos de enviar astronautas a Marte ou a um asteroide, sem esquecer a Lua, ainda estão à espera de financiamento para se tornar realidade.

Não é que a exploração lunar tenha sido abandonada desde 1972. Depois de algumas décadas de pouca atividade, nos anos noventa foi retomada com relativo ímpeto a exploração e a investigação da Lua com sondas espaciais automáticas, sem astronautas. Naves em órbita e módulos de aterrissagem foram enviados e, desta vez, não apenas norte-americanos e russos. Japão e Europa lançaram missões espaciais lunares e, mais recentemente, juntaram-se a esta aventura não tripulada, e com sucesso, Índia e China. Pequim tem grandes ambições espaciais, depois das conquistas com seus astronautas em órbita e o início da construção de uma estação espacial, declarou sua intenção de enviar seres humanos à Lua, com o objetivo de explorar os recursos naturais de lá.

Os robôs que, como adianta Woerner, vão colaborar com os seres humanos nas futuras colônias lunares, até agora têm exclusividade na investigação in situ. Muita ciência e exploração foi feita após as viagens da Apollo. Os astronautas trouxeram 380 quilos de amostras de grande interesse científico (mais 326 gramas que trouxeram os soviéticos com sondas robóticas), mas não foi um programa projetado principalmente para fazer ciência na Lua, sobretudo as primeiras viagens. No momento apenas uma pequena parte do satélite foi explorado. Já neste século, as sondas automáticas permitiram a criação de mapas de alta resolução de toda a superfície lunar e sua composição química, sua atmosfera tênue foi estudada, sua gravidade, e assim por diante.

O que parece claro é que os próximos projetos lunares tripulados, especialmente se pensarmos em bases permanentes, não serão de um único país ou uma única agência, mas de cooperação, já que o custo seria muito elevado. E para quê? Muitos dirão que a curiosidade humana, a vontade de exploração é, em si mesmo, o motor principal. Mas também podem existir recursos a serem explorados na Lua, como o hélio-3 que serviria como combustível para futuros reatores de fusão nuclear. Poderia ser obtido ali o oxigênio para ser usado como combustível de naves espaciais que permitiriam partir para a exploração de objetivos distantes no Sistema Solar, aproveitando a menor gravidade lunar, o que torna mais fácil e mais barata a decolagem em relação à partida de foguetes da Terra. A astronomia teria no lado oculto da Lua, um lugar privilegiado para instalar telescópios, com pouca atmosfera e protegidos da poluição eletromagnética artificial que é emitida da Terra.

Talvez sejam, no começo, apenas acampamentos lunares com um punhado de pessoas, que irão sendo ampliados, ganhando complexidade e aumentando as atividades para reduzir a dependência dos fornecimentos terrestres. Alguns estimam que em meados deste século já vai existir uma colônia permanente na Lua. Mas é preciso dar o primeiro passo.

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