EUA ativam as tarifas alfandegárias sobre a China e a batalha comercial começa

Mais de 800 produtos no valor de 133 bilhões de reais recebem novos impostos. Pequim contra-ataca com medidas parecidas. Trump mantém o confronto apesar das pressões dos setores empresariais

Trabalhadores em uma obra do distrito comercial de Pequim
Trabalhadores em uma obra do distrito comercial de PequimAndy Wong (AP)

Se a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China tem uma hora H, essa foi a meia-noite (1h de Brasília) desta sexta-feira, dia 6, em Washington. Uma série de impostos alfandegários sobre produtos chineses no valor de 34 bilhões de dólares (133 bilhões de reais) anuais entrou em vigor um minuto depois das 24h, transformando-se no primeiro bombardeio duro de uma disputa declarada há meses. A resposta chinesa foi imediata e na mesma intensidade.

As negociações mantidas entre as duas potências nos últimos meses fracassaram. As promessas de abertura do regime chinês não convenceram Washington, onde não é só a Administração do republicano Donald Trump que acusa Pequim de concorrência desleal como também os democratas, mesmo discordando da estratégia feita pelo magnata nova-iorquino para reduzir o déficit comercial com o gigante asiático e, mais, do fato de que coloca os países aliados no mesmo saco.

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A partir desta sexta-feira, os EUA aplicam novas taxas alfandegárias de 25% sobre uma lista de 818 produtos vindos da China (pertencentes à indústria aeroespacial, tecnologia da informação e comunicação, robótica, maquinário e automobilística, entre outros) no valor dos citados 34 bilhões de dólares em importações anuais, aproximadamente.

O lote afetado deixou de fora os artigos comprados pela famílias norte-americanas, como os celulares e os aparelhos eletrônicos, mas o impacto poderá ser sentido da mesma forma na economia norte-americana: muitas fábricas, como as de automóveis, recebem componentes de outras fábricas chinesas.

A China, que prometeu uma reação imediata, se absteve em um primeiro momento de anunciar que suas taxas alfandegárias efetivamente entravam em vigor, o que causou confusão sobre qual era exatamente a resposta de Pequim. Na falta de um comunicado oficial das autoridades as dúvidas a respeito aumentaram. Horas depois, a agência oficial Xinhua confirmou que os impostos foram ativados um minuto depois da decisão norte-americana, sendo os produtos afetados os mesmos que apareceram em uma lista anunciada em junho, ou seja, 545 categorias como a soja, a carne de porco, o aço, o uísque e os automóveis, entre outros. Um volume de mercadorias cujo valor de importação também chega a 34 bilhões de dólares com taxas adicionais de 25%. O Escritório Alfandegário afirmou ao EL PAÍS que os impostos “foram implementados imediatamente após o aumento das tarifas entrar em vigor nos Estados Unidos”.

O Ministério do Comércio chinês, em um comunicado, atacou duramente a administração norte-americana, acusando-a de “bullying” e de “colocar em risco a cadeia de valor global”. Também afirmou que os EUA “lançaram a maior guerra comercial da história econômica até então”.

“A parte chinesa prometeu não dar o primeiro tiro, mas para defender os interesses fundamentais do país e os de sua população, fomos forçados a contra-atacar”, diz o texto. As autoridades, além disso, anunciaram que o país irá à Organização Mundial do Comércio (OMC) para denunciar a ação norte-americana e que trabalhará com outras nações “para salvaguardar conjuntamente o livre comércio e o sistema multilateral”.

Após essa série de impostos, há uma lista adicional preparada em Washington para outros 284 produtos chineses (esses sim de consumo) no valor de 16 bilhões de dólares (63 bilhões de reais) que está sob consultas e que também será respondida pela China. Além disso, as duas potências trocaram ameaças de novas taxas alfandegárias no valor de até 400 bilhões de dólares (1,5 trilhão de reais).

Pequim prometeu ajuda às empresas que mais sofrerem o impacto dos impostos. Os mercados financeiros do país sentiram esses meses de ameaças comerciais com os Estados Unidos – o principal índice do país caiu 17% ao longo desse ano –, em um momento em que as autoridades também tentam reduzir os riscos derivados de um aumento súbito da dívida nos últimos anos. A moeda chinesa, o yuan, também foi vítima da incerteza e perdeu mais de 3% de seu valor em relação ao dólar no último mês.

Uma tensão parecida entre as duas maiores potências do mundo pode ter consequências globais, pela maneira como as economias estão conectadas. A disputa iniciada por Trump encontra muitas resistências em seu próprio país, pelo prejuízo que pode causar em muitos negócios de marcas emblemáticas como a Harley Davidson e a Jack Daniels e qualquer fabricante de componentes para o automóvel de Wisconsin.

A Câmara de Comércio dos EUA, o maior lobby do país, pediu ao Governo que reconsidere sua estratégia. Muitos Estados afetados, da Pensilvânia a Michigan passando pelo citado Wisconsin, são praças eleitorais que o levaram ao poder. Em um comunicado na mesma semana, o presidente da entidade, Thomas Donohue, disse que as tarifas alfandegárias já estavam começando a ser “um pedágio aos negócios, aos trabalhadores, aos fazendeiros e aos consumidores norte-americanos”, já que “os mercados internacionais se fecham aos produtos norte-americanos e esses ficam mais caros aqui”.

As atas da Reserva Federal (FED, o Banco Central dos EUA) correspondentes a sua reunião de junho, publicadas na quinta-feira, já refletem as primeiras reações negativas. Alguns negócios, como disseram na reunião, decidiram cancelar ou adiar planos de investimentos pela “incerteza” da política comercial.

Mas Trump luta essa batalha com o vento soprando a seu favor, com a economia acelerando no segundo trimestre do ano e um mercado de trabalho com números vertiginosos. O vigor dá coragem a seu discurso. O presidente dos EUA chegou a dizer que, em primeira instância, uma guerra comercial “pode causar um pouco de dano”, mas que a longo prazo significará uma vitória.

A postura não afeta somente a China. Washington também iniciou disputas contra a União Europeia e seus parceiros comerciais e vizinhos Canadá e México. No caso chinês, entretanto, a batalha vai além dos números do déficit comercial (mais de 300 bilhões de dólares – 1,18 trilhão de reais – a favor da China), o que está por trás é um corrida entre potências, econômica, militar e política. A tensão cresce em um momento em que há conversas para acertar a desnuclearização da Coreia do Norte, objetivo em que o entendimento entre os dois países é fundamental.

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