Trump ameaça China com mais tarifas e inflama duelo comercial

EUA cogitam subir de 50 bi para 200 bilhões total de importações tarifadas, e Pequim prepara contra-ataque, numa guerra que pode atingir outros países

Donald Trump, esta segunda-feira, na Casa Branca.
Donald Trump, esta segunda-feira, na Casa Branca.MICHAEL REYNOLDS (EFE)

Mais lenha na fogueira. Donald Trump divulgou na noite desta segunda-feira, dia 18, um comunicado em que ameaça impor uma nova rodada tarifária à China, desta vez com uma alíquota de 10% sobre produtos importados num valor de 200 bilhões de dólares (750 bilhões de reais) por ano, intensificando a escalada entre as duas maiores potências econômicas. Os EUA aprovaram na sexta-feira a taxação de 25% sobre cerca de mil produtos chineses cujas importações somam 50 bilhões de dólares. O Governo chinês respondeu na mesma moeda. Agora, Washington volta a golpear. Se o olho por olho não parar, a guerra sacudirá a economia global.

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A medida posta sobre a mesa por Trump nesta segunda tem um caráter puramente político, um revide na negociação, e isso fica claro pela forma como o próprio presidente dos EUA comunica-a. Pedi ao representante dos EUA para o Comércio que identifique produtos chineses num valor de 200 bilhões de dólares para [sofrerem] tarifas adicionais de 10%. Não sabe ainda quais artigos merecem essa nova taxa, nem menciona por que a alíquota foi fixada em 10%, e não 8% ou 15%, por exemplo, levando-se em conta que ainda não está decidido quais produtos serão afetados.

Mas a cifra é volumosa e deixa muito claro, isso sim, a que se deve: às represálias promovidas pelo Governo de XI Jinping. Na sexta-feira, depois da adoção das tarifas por parte de Washington, Pequim aprovou alíquotas de 25% para 659 tipos de produtos agrícolas norte-americanos – soja, milho, arroz, carne bovina e suína, entre muitos outros – nesse mesmo valor, 50 bilhões de dólares. A decisão atinge em cheio muitos bastiões eleitorais de Trump em áreas rurais.

Esta última ação da China indica claramente sua determinação em manter os EUA numa desvantagem permanente, criticou Trump em seu comunicado. Daí os 200 bilhões sobre a mesa. Depois de concluído este processo legal, estas tarifas entrarão em vigor se a China se recusar a modificar suas práticas e também se insistir em seguir adiante com as tarifas que anunciou, acrescentou.

Pequim reagiu rapidamente ao novo desafio de Trump. Se estas tarifas entrarem em vigor, a China contra-atacará com múltiplas medidas, tanto quantitativas como qualitativas, disse nesta terça-feira o Ministério de Comércio do país asiático. As autoridades deixam a porta aberta, portanto, não somente para a aprovação de tarifas sobre produtos norte-americanos como também para outras ações que prejudiquem os interesses dos Estados Unidos na China. Entre elas, segundo os analistas, está a possibilidade de manobrar para inclinar a favor da China a balança de serviços – atualmente são os Estados Unidos que registram superávit nesta categoria – com medidas que dificultem o turismo e a educação de cidadãos chineses nesse país, complicar as operações das empresas norte-americanas em seu território, jogar com o valor de sua divisa e modificar o ritmo de compras da dívida pública norte-americana.

Os Estados Unidos iniciaram uma guerra comercial e violaram as leis do mercado, e estão prejudicando os interesses não somente da China e dos Estados Unidos como também do resto do mundo, disse o ministério chinês em nota. O órgão qualificou o anúncio de Trump como uma prática de pressão extrema e chantagem que não corresponde ao consenso alcançado por ambas as partes em múltiplas ocasiões.

As várias reuniões entre os dois Governos para discutir questões comerciais não chegaram a resolver as queixas dos Estados Unidos, que buscam reverter o volumoso déficit comercial e acabar com o que os EUA consideram práticas desleais por parte de Pequim, como sua política industrial e as limitações de acesso ao seu imenso mercado. Embora inicialmente tenha sido obtido um vago consenso pelo qual Pequim se comprometia a aumentar suas compras de produtos norte-americanos, este compromisso se desvaneceu quando Trump voltou à carga com taxações que afetam produtos chineses de alta tecnologia, importados por um valor que chega a 50 bilhões de dólares por ano – essas tarifas entram em vigor em 6 de julho.

O nova-iorquino advertiu que não abaixará seu revólver, no que parece ser um duelo de faroeste. Se agora a China responder na mesma moeda, ou seja, com suas próprias novas taxas sobre outros produtos norte-americanos importados por um valor de 200 bilhões, Washington responderá com outros 200. O valor total de produtos norte-americanos importados pela China é de 130 bilhões de dólares, portanto qualquer resposta de magnitude similar por parte de Pequim significaria sobretaxar todas as mercadorias norte-americanas. Mesmo uma medida deste calibre não seria suficiente, daí a referência do ministério chinês à adoção de medidas qualitativas.

A Administração Trump quer reduzir o seu enorme déficit comercial com a China (de 376 bilhões de dólares) e acusa o regime de Xi Jinping de se apropriar de tecnologia norte-americana ao obrigar que multinacionais se associem a firmas locais para poder investir no país, entre outras más práticas. Mas em sua batalha contra o desequilíbrio comercial a Casa Branca também apontou a União Europeia e seus vizinhos do Canadá e México.

Nos primeiros compassos, a guerra comercial foi declarada cheia de som e fúria, mas vazia de significado, ou seja, com frases grosseiras de Trump e cifras econômicas reduzidas. As potências se intercambiaram tarifas sobre mercadorias importadas num valor de três bilhões de dólares por ano para cada lado (o aço e alumínio chineses para os EUA, e a carne de porco, certas frutas, vinho e tubos de aço para a China), algo ínfimo numa relação comercial que totalizou 630 bilhões de dólares no ano passado. Mas a etapa dos gestos terminou, as cifras atuais são a guerra total.

As Bolsas de valores asiáticas se ressentiram desta nova escalada de ameaças entre ambas as potências. A Bolsa de Tóquio cedeu 1,77%, e a de Seul 1,52%, enquanto Xangai sofria um estrondo de 3,8% a poucos minutos do fechamento, situando-se em seu valor mínimo nos últimos dois anos. A ZTE, empresa tecnológica chinesa que tem servido como moeda de troca nestas negociações comerciais, e cujo futuro está ligado ao seu resultado, viu seu papéis em Hong Kong desabarem 23,5%.