Seleccione Edição
Login
COLUNA

Por que o Vale do Silício vai aprender francês

Paris está virando uma das fascinantes capitais mundiais de inovação e empreendedorismo

Por que o Vale do Silício vai aprender francês

Paris, ah, Paris. Quando a gente acha que a cidade já é o máximo, eis que ela nos mostra que pode ficar ainda melhor. Pergunte aos mais de 16 milhões de turistas que se rendem a ela anualmente - algo como quase o triplo de visitas que todo o Brasil recebe no período - o que os fascina na cidade-luz e suspire com menções sem-fim aos museus, vinhos, idioma, moda, patrimônio, gastronomia, startups... Startups? Pois é. Bem-vindos a uma das fascinantes capitais mundiais de inovação e empreendedorismo.

Preocupado com o consumo energético para abastecer a cidade que acolheu o Acordo Climático de 2015? Então delicie-se ao saber que a iluminação dos monumentos que ladeiam seus passeios noturnos é feita com base na bactéria responsável pela bioluminescência das lulas de grandes profundidades, inventada pela Glowee. Sofrendo com a perspectiva de ser esfolado pelo estacionamento da ferroviária ou do aeroporto, na volta daquela escapada que fará a outro país? Nada tema. A Travelercar se encarrega de receber e alugar seu carro durante sua ausência, de modo que não só você não colocará um tostão do bolso, como ainda terá um dinheirinho para cobrir a fatura das compras que fez na viagem. Morrendo de vontade de se alongar mas sem cacife para contratar um plano na academia? Dê uma olhadinha na Gymlib (que acabou de levantar 10 milhões de euros...) e compre uma diária para frequentar aquela academia ali do seu lado ou em qualquer canto da França. Fazendo as contas para voltar a Paris durante as Olimpíadas de 2024 mas achando que não dará para acompanhar as provas de natação no cais aos pés da Torre Eiffel? Pois prepare-se para sentir-se dentro da água, graças aos aplicativos de experiência de usuário que estão em desenvolvimento.

E muito, mas muito mais está por vir. Que o diga a Station F, maior campus de startups do mundo, inaugurada o ano passado em uma antiga estação ferroviária, por querer (e pagar) de um dos magnatas que fizeram fortuna no universo digital. Investimento privado? Sim, totalmente privado. Mas e o governo? Com vocês, Paris&Co, a agência de desenvolvimento e inovação de Paris, que do alto de suas duas décadas de existência vem dando um show na formação do ecossistema de startups e se apoia em uma rede de incubadoras temáticas, distribuídas pela região metropolitana de Paris (detalhe: a Comet é voltada especificamente a startups estrangeiras, inclusive de Terra Brasilis). As 341 startups aceleradas no ano passado (302 em 2017, 238 em 2015) faturaram nada menos que 145 milhões de euros e garantiram 3 mil empregos em período integral. Mais: 38 delas levantaram ao menos um milhão de euros de fundos privados. Foi o que ouvimos, de viva voz, de Loïc Dosseur, Diretor-Geral da Paris&Co, que se apresentou pela primeira vez no Brasil, no Farol Santander, com curadoria da Garimpo de Soluções.

O como fazer tudo isso é um dos grandes macetes. Desde 2012, a prefeitura desse governo legitimamente socialista criou o Club Open Innovation, um coletivo de 60 grandes empresas que defendem a inovação com unhas e dentes. Movidas pela vontade (e necessidade) de se conectar com a inovação de ponta, elas organizam uma série de atividades – dos tradicionais hackatons e encontros com startups a um programa de adoção de mentores privados a expedições por Paris, para descobrir e visitar locais de inovação especialmente inspiradores.

Mas uma das plataformas mais estonteantes e encantadoras de Paris&Co, sonho de consumo de qualquer economista e urbanista, como esta que vos escreve, é o Urban Lab, que converte a cidade em um laboratório vivo de experimentações (hoje por hoje, já foram mais de 200), respondendo aos grandes desafios da cidade. Paris precisa continuar à frente do turismo internacional, apesar da concorrência de Barcelona, Berlim e dos novos destinos? Eis que surge o Welcome City Lab, conjunto de startups voltadas à competitividade do turismo. Bem-estar, naturação, mobilidade, qualidade do ar, mobiliário urbano inteligente? Cada tema suscita chamadas específicas para startups, parcerias com o setor privado e oferece, de lambuja, nada menos que a cidade como laboratório de provas a céu aberto, em um processo de coinovação. Nessa linha, a mais recente estripulia do laboratório é trabalhar dois Bairros de Inovação Urbana, começando pela ZAC Rive Gauche, uma zona de operação urbana consorciada que abrange 120 hectares de Paris. Um caso inspirador, megaenvolvente e que, por inclusão, arrojo, impacto urbano e dinamização econômica dará ainda mais brilho à tão inspiradora cidade-luz.

Ana Carla Fonseca é sócia-fundadora da Garimpo de Soluções.