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500.000 lingotes de ouro escondidos sob o metrô de Manhattan

O EL PAÍS visita a caixa-forte onde o Fed guarda 250 bilhões de dólares em barras do metal precioso

Entrada do cofre do Federal Reserve de Nova York.
Entrada do cofre do Federal Reserve de Nova York.

O subsolo de Manhattan esconde grandes surpresas. Tão grandes quanto a maior reserva de ouro do mundo, a apenas duas ruas de Wall Street. Mais de meio milhão de lingotes amontoados em colunas de três metros de altura no porão do edifício do Federal Reserve (banco central norte-americano) de Nova York, a instituição que executa as operações de política monetária. Mas esse ouro não é todo do Fed; grande parte dele pertence a instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

“As pessoas acham que todo o ouro está em Fort Knox”, diz a pessoa que nos guia enquanto descemos o equivalente a cinco andares. “Mas aqui temos um quarto das reservas do mundo.” A gigantesca caixa-forte está 25 metros abaixo da Liberty Street – ou 15 metros se tomamos como referência o nível do mar. “Dependendo do dia”, calcula, enquanto libera alguns dados, “é um valor próximo de 250 bilhões de dólares (935 bilhões de reais). Meio milhão por barra.”

Todo esse ouro concentrado corresponde a um quinto da economia espanhola e supera as vendas globais realizadas pela Apple em um ano. A primeira porta que cruzamos ao sair do elevador poderia ser a de qualquer casa. Nesse momento, as mãos devem estar visíveis. É permitido fazer anotações, mas não desenhos num caderno. “Não posso controlar seu destino se você fizer isso”, adverte a funcionária, enquanto avança por um corredor.

Vemos a entrada da caixa-forte ao fundo. É cilíndrica e funciona como uma porta giratória. O marco é uma combinação de aço e concreto de 140 toneladas, com três metros de espessura. O cilindro central pesa 90 toneladas. Há dois grandes volantes de cada lado. Um faz girar o cilindro para alinhar a abertura com o marco. O outro o faz cair alguns milímetros para que o fechamento seja hermético. “Você pode sobreviver 72 horas no máximo”, indica, “mas nunca testamos isso.”

“Tudo é mecânico, tal como foi projetado em 1920”, explica. Para poder operar a caixa-forte e ter acesso à área onde estão as barras de ouro, são necessárias três equipes de segurança. Uma para cada combinação e a terceira com a chave de um pequeno cadeado. “Ele é mesmo engraçado”, admite, “mas é tão importante quanto os que têm as chaves.” No centro do espaço, há uma balança tão grande que uma pessoa poderia ficar de pé em cada prato.

Lingotes amontoados numa das câmaras da caixa-forte do Fed de Nova York
Lingotes amontoados numa das câmaras da caixa-forte do Fed de Nova York

Goldfinger, o vilão da saga 007, ficaria louco com tanto brilho. “Só houve uma tentativa de roubo”, brinca a funcionária. “Foi no terceiro episódio de Duro de Matar. Nesse momento, escutamos um forte barulho. “É o metrô”, afirma, “parece que passa perto, não?”. O guardião que vigia a entrada no terceiro porão explica que a rocha transmite muito bem as vibrações. “Se alguém tentasse construir um túnel a partir dali, saberíamos um mês antes que pudesse chegar”.

As linhas dos metrôs 2 e 3 passam ao lado, cerca de 10 metros acima do nível do cofre. O teto, de aço, tem dois metros e meio de espessura. Os lingotes de verdade se amontoam até não haver mais espaço. O normal é que fiquem espalhados, pois o peso pode acabar afundando o chão. Mas o leito de granito sobre o qual se erguem os arranha-céus de Manhattan permite aproveitar esse lugar ao máximo.

O peso total das barras é de 6.200 toneladas. Cada lingote é único e tem seu próprio registro, pois sua composição não é idêntica à dos demais. Cada um pesa cerca de 12 quilos, mas, por sua densidade, a sensação é duas vezes maior. O Fed não aceita um grau de pureza inferior a 99,5%. O repositório está dividido em 118 compartimentos, que exibem etiquetas amarelas com números. “São as referências das contas”, explica, enquanto aponta marcas no chão de alguns lingotes que caíram.

Lingotes de ouro no Federal Reserve de Nova York.
Lingotes de ouro no Federal Reserve de Nova York.

O primeiro deles, conta o guardião, data de 1914 – o ano do nascimento do Fed. Seu primeiro presidente foi Benjamin Strong. A obra do edifício teve início em 1921. Os pedreiros levaram dois anos para cavar o buraco que abrigaria a caixa-forte. A maior parte do ouro chegou coincidindo com a Segunda Guerra Mundial. O espaço foi sendo ocupado até que alcançou o ponto máximo em 1960. Tanto que foi preciso instalar uma caixa-forte auxiliar.

“O último [lingote] chegou ano passado”, diz, antes que Janet Yellen cedesse a presidência do banco central a Jerome Powell, no final de janeiro. A ideia de que haja tanto ouro concentrado num único lugar é facilitar as transferências entre os países, “passando-os de um compartimento a outro”. O custo da transferência de cada barra é 1,75 dólar (6,5 reais). “O Fed funciona como uma instituição privada, mas não tem fins de lucro”, explica. “Só ganha dinheiro para cumprir sua missão.”

Visto de fora, o edifício do Fed de Nova York parece uma fortaleza medieval. As grades que protegem suas janelas são enormes. Mas, apesar das medidas de segurança necessárias para a proteção de seu desconhecido tesouro, o banco central organiza visitas para educar o público sobre sua função na economia e na sociedade. É possível fazer reservas através de seu portal eletrônico, mas a pessoa tem que ter sorte para encontrar um horário disponível.

A funcionária do Fed reconhece que há múltiplas teorias circulando sobre os lingotes da caixa-forte. Algumas delas conspiratórias, como a manipulação dos preços no mercado. Mas afirma que não é possível utilizá-las para realizar operações nem empréstimos. Tampouco comenta sobre as contas dos clientes, por acordos rigorosos de confidencialidade. Além do ouro em Manhattan e Fort Knox, há reservas em Denver e West Point.

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