Tribuna
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O que é uma garota e para que serve

Em nosso tempo de políticas ativas para a igualdade, há uma dupla verdade, porque a pornografia ensina que as mulheres estão aí para serem usadas e que o prazer deles é obtido mediante o sexo com humilhação, abuso e agressão

A questão da dupla verdade é uma posição filosófica que desde a Idade Média tentou tornar compatíveis duas verdades opostas: a das religiões e a da ciência. É atribuída ao filósofo muçulmano Averroes, e não deixa de ser a mesma à qual Galileu recorreu quando declarou diante do tribunal que era impossível que a terra se movesse (verdade religiosa) enquanto sussurrava "mas se move" (verdade científica). Nossa tradição laica há tempos resolveu o problema das duas verdades contrapostas. Nos colégios se aprende a lei da gravidade e a teoria da evolução. E os fiéis têm espaços para professar suas crenças em público mas, sejam elas quais forem, precisam passar nos exames de Física e Filosofia.

Isso vem ao caso porque parece que nossa sociedade convive hoje com duas verdades opostas em relação ao que é uma garota e o que se pode fazer com ela. Foi o que nos revelou a recente sentença do julgamento de La Manada, em que a Justiça determinou que não houve violência nem intimidação no abuso sexual de uma mulher por cinco homens em 2016. É como se no mundo oficial, que precisa passar publicamente nos exames, se mantivesse um discurso igualitário, mas em outros lugares se aprendesse outra verdade que perpassa tudo. Mas que ninguém quer tornar explícita. A nossa sociedade que enche a boca com a palavra igualdade. Todo o mundo declara que é um valor importante, muito importante. E, uma vez dito isso e depois de entoar com mais ou menos graça o mea culpa —não faço o suficiente pela igualdade—, parece que o acordo é: "Vamos viver que a vida é muito curta".

No mundo oficial se mantém um discurso igualitário, mas outra verdade invade tudo

Vamos brincar, que é muito educativo, e tome: uma caixa de maquiagem para a menina e a espada laser de Darth Vader para o garoto. E se você comenta alguma coisa, lá vem a resposta: "Ora, mulher, não seja antiquada". Como agora já há igualdade, e já a apoiamos, então podemos nos dedicar a cultivar o rosa e o azul. Ao grito de "hoje são educados igual", encontramos um mundo em que não há patinetes, nem estojos, nem bicicletas, nem carteiras. Há carteiras de meninas e carteiras de meninos. Até as réguas e as borrachas têm hoje princesas ou piratas. Nos tempos da igualdade formal e de políticas ativas de igualdade, a diferença vem marcada a ferro e fogo. E disso é preciso se encarregar o mundo da cultura, o mundo da criação, que não é nem mais nem menos aquele em que se forjam nossos sonhos e o sentido de nossa vida. E onde nada é igual para uma menina e para um menino. Com exceção da matemática e companhia. O currículo oficial sim, é o mesmo, mas o sentido da vida vai sendo forjado no currículo oculto.

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Também não parece suficiente que haja duas ontologias, o rosa e o azul. Em algum momento nossa sociedade tem de mostrar aos diferentes que além de tudo são desiguais. Que há um primeiro sexo e um segundo sexo. E recorremos a outro grande filósofo francês para lembrar por que e para que existem o poder e a dominação: "Fazer com que nossas vidas sejam fáceis e agradáveis, estas são as funções das mulheres em todo tempo e lugar, e para o que devem ser educadas as meninas desde a infância". Simplesmente genial, é Rousseau. Poucas vezes alguém expressou tão bem para o que se quer e se tem o poder.

É a partir daí que se mostra aos meninos que elas existem, no fundo, para "que suas vidas sejam fáceis e agradáveis". Neste mesmo jornal temos lido reportagens interessantes sobre o papel da pornografia na educação sexual dos adolescentes. Queremos propor aqui que ela também é fundamental no aprendizado da "dupla verdade" do que é uma garota e para que serve. Primeira verdade: uma garota é a que se senta ao meu lado, minha igual absoluta. Segunda verdade: é também o corpo, as partes do corpo, que me são oferecidas na infinita rede de portais de pornografia. Guarras.com, cerdas.com., muyzorras.com, babosas.com [que em português significam: porcas, vacas, nojentas e vagabundas]. Corpos aos quais eles têm direito a ter acesso para seu prazer. E é a própria sociedade quem as coloca aí, de bandeja, pelo teclado.

Os vídeos mais visitados mostram garotas sofrendo ou não gostando da relação sexual

O que a pornografia ensina? Por exemplo, que as meninas estão aí para serem usadas. Coloquem no buscador "pornô/estupros". E encarem a realidade de como nossos meninos aprendem esta outra verdade sobre o que é uma menina e o que se pode fazer com ela. De tudo: tudo que não lhes seria permitido fazer se não houvesse sexo no meio aqui é possível. Para começar, chamá-las de porcas, vacas, nojentas e vagabundas. Nesta sociedade sexualizada, pacata e vergonhosa, quase ninguém se atreve a criticar uma prática se há sexo no meio.

E elas, o que elas aprendem? Em primeiro lugar, um modelo físico e a obrigação de depilar suas partes sexuais. A pornografia atual, com protagonistas infantilizadas, ensina que os pelos púbicos são sujos, pouco higiênicos, feios. E viva o empoderamento. E para os que afirmam que a pornografia é ficção e não passa do terreno da fantasia, sugiro que se inteirem de como e quanto se depilam as jovens. O segundo, que servem para dar prazer, "para que as vidas de outros sejam fáceis e agradáveis". Estou dizendo algo desconhecido se falar que os vídeos com mais visitas são os que mostram as garotas sofrendo ou não gostando na "relação sexual"? E para eles, tudo bem. Outro tema no top ten do pornô pode ser resumido assim: "Elas inconscientes e eles muito ativos". Vejam vocês mesmos. Dos 10 resultados que saem ao buscar pornô/estupro em meu celular três são do tipo "garoto estupra mãe enquanto ela faz limpeza". Os de estupro da própria mãe e da irmã, para não dizer a meia-irmã, são também muito visitados. Temos os dados e a bibliografia.

Em 8 de março passado e no dia posterior à sentença de La Manada, nós, um contingente de milhões de pessoas, deixamos a seguinte uma mensagem: "só chegamos até aqui". Se queremos erradicar a desigualdade teremos de lutar contra suas causas. E o que se denomina pornografia é uma delas. Porque o que isso representa em sua maior parte não é o "ato sexual", mas a humilhação, o abuso e a agressão de mulheres jovens como fonte de prazer. E tudo bem acessível para meninas e meninos na idade do primeiro celular. Atualmente, quando já há igualdade.

Ana de Miguel Álvarez é professora titular de Filosofia Moral e Política da Universidad Rey Juan Carlos de Madri.

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