Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

No Paraguai, ninguém encontra o grande doleiro da corrupção no Brasil

País vizinho demorou 20 horas para solicitar a captura de Dario Messer depois de ter sido pedida pela Interpol

O presidente paraguaio, Horacio Cartes, em 2013.
O presidente paraguaio, Horacio Cartes, em 2013.

O rastro do brasileiro Dario Messer, o doleiro dos doleiros, direta ou indiretamente implicado na maioria dos grandes escândalos de corrupção do país nos últimos anos, parece ter se perdido no Paraguai. A polícia começou nesta sexta-feira a busca por Messer, que se instalou no país vizinho em 2014, depois da eclosão da Operação Lava Jato, e onde obteve a cidadania. Mas a busca ainda não deu resultado algum. Messer teve tempo suficiente para fugir, já que transcorreram muitas horas entre o anúncio de que a Justiça brasileira o procurava na manhã de quinta-feira em um novo desdobramento da Lava Jato, e que uma juíza paraguaia ordenasse sua prisão. Amigo pessoal do presidente paraguaio, Horacio Cartes, o doleiro é acusado de coordenar um esquema que movimentou 1,6 bilhão de dólares (cerca de 5,65 bilhões de reais) em 52 países.

O escritório da Interpol no Paraguai recebeu um pedido com “alerta vermelho” para capturar Dario Messer na quinta-feira ao meio-dia. Mas quase 20 horas depois a ordem ainda não havia sido efetivada devido a uma série de trâmites pelos quais teve de passar no Poder Judiciário antes de chegar à Polícia Nacional e à Diretoria de Migração. Às 14h30 de quinta-feira, o Ministério Público enviou o mandado de busca e captura de Messer à Corte Suprema de Justiça. “Recebemos a notificação do Ministério Público e realizamos um procedimento imediato”, disse Jim Zaracho, coordenador do Escritório de Assuntos Internacionais da Suprema Corte de Justiça, à rádio ABC Cardinal na sexta-feira. “Foi enviado imediatamente à corte de plantão.”

O ofício chegou às 17h50 à mesa de entrada do escritório de Atendimento Permanente, que deveria entregá-lo a um tribunal competente. Mas esse escritório havia fechado às 13h00. “Ainda não temos uma plataforma digital onde possamos fazer isso em tempo real, como estamos acostumados com as redes sociais”, lamentou Zaracho. Enquanto o pedido da Interpol ocupava as primeiras páginas da imprensa digital do Brasil e do Paraguai desde o início da manhã, assim como os programas de notícias de televisão e rádio, a juíza de plantão, Maria Griselda Caballero, que deveria receber o ofício para dar prosseguimento ao processo imediatamente, esperava em seu escritório, aparentemente sem tomar conhecimento da notícia que corria nos dois países.

A notificação só chegou ao escritório da juíza na sexta-feira às 7 horas (8h em Brasília). María Griselda Caballero diz que até então ninguém a havia avisado e que tampouco fora comunicada sobre a urgência do trâmite, como explicou à rádio ABC. O ofício tramitou normalmente e foi enviado para outro juiz, Miguel Tadeo Fernández, que comunicou a Polícia Nacional sobre a ordem de captura de Messer perto das 8 horas.

Segundo a polícia, Messer tem carteira de identidade paraguaia depois de ter completado seu processo de naturalização em 2014 e figura como residente no Paraná Country Club, na cidade de Hernandarias, na fronteira com o Brasil. Uma cidade-satélite de Ciudad del Este, que fica do outro lado do rio Paraná, diante da brasileira Foz do Iguaçu. Até agora, nem a Polícia nem o Ministério Público do Paraguai informaram se foram realizadas buscas e apreensões na casa de Messer, no exclusivo clube.

O senador do Partido Colorado, governista, Juan Carlos Galaverna, uma figura histórica ainda ativa na política paraguaia, disse que não acredita que esse assunto comprometa o presidente Horacio Cartes, que deixa o cargo em 15 de agosto, depois das eleições realizadas no mês passado, e tratava publicamente Dario Messer de “irmão”. Cartes já mantinha uma estreita amizade com o pai de Dario, Mordko, de nacionalidade polonesa. “Eles se tratavam como parentes, o presidente Cartes teve o apoio do pai de Dario. Mas no aspecto judicial não acredito que vá comprometê-lo. Que eu saiba não fizeram negócios juntos, embora no aspecto pessoal seja um golpe para o presidente”, disse Galaverna.

Horacio Cartes, um empresário bilionário que nunca tinha feito política, entrou no Partido Colorado como dirigente para ganhar as prévias que o levariam a ser candidato em 2013. Nas eleições que se seguiram ao impeachment de Fernando Lugo –que presidiu de 2008 a 2012 o primeiro Governo não Colorado do Paraguai em mais de 70 anos–, Cartes votou pela primeira vez e além disso conquistou a presidência.

Como Mordko e Dario Messer, o ainda presidente paraguaio esteve implicado em escândalos de lavagem de dinheiro. Antes mesmo de ser eleito, seu nome apareceu em arquivos vazados pela Wikileaks, em que a telegramas diplomáticos o colocavam como objeto de investigação por várias agências do Governo dos Estados Unidos por suposta lavagem de dinheiro. Seu nome também brilhou no vazamento de dados de clientes do HSBC da Suíça. Cartes abriu duas contas secretas como “agente de viagens” em março de 1989, sete dias depois da criação da empresa Cambios Amambay, atualmente Banco Amambay, entidade paraguaia citada em um documento confidencial da Embaixada dos EUA em Buenos Aires dirigido ao Departamento do Tesouro em Washington e também vazado pela Wikileaks. Esse documento assinala que o ex-titular da Secretaria Antidrogas do Paraguai, Hugo Ibarra, disse a um interlocutor norte-americano que “80% da lavagem de dinheiro no Paraguai é feita por meio dessa instituição bancária”.

De acordo com a investigação, Cartes, nascido em Assunção em 5 de julho de 1956, abriu as contas na Suíça dois meses antes de ser mandado para a prisão depois de ter sido acusado de participar de um suposto escândalo de evasão de divisas, devido ao qual passou cinco meses preso e teve cerca de 800 milhões de guaranis (cerca de 200.000 dólares de 1989) confiscados pela Justiça. O presidente paraguaio é o dono do Grupo Cartes, um conglomerado de cerca de 25 empresas dedicadas a negócios de fumo, bebidas alcoólicas, refrigerantes, gado e bancos, e agora também a veículos de comunicação. Durante a última década, foi investigado no Brasil, e também pela DEA norte-americana, por lavagem de dinheiro e contrabando de cigarros, e no Paraguai pelo surgimento de carregamentos de drogas em algumas de suas propriedades, mas, como destacam seus representantes, nunca foi processado.

MAIS INFORMAÇÕES