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‘Wild Wild Country’ e outras três séries-documentário mais estranhas que a ficção

Compilação de produções televisivas que demonstram que a realidade supera (com folga) a ficção

Em março, a Netflix estreou, quase às escondidas, Wild Wild Country, uma série-documentário que permanece grudada à retina tempos depois de seu encerramento. Um produto cujo barulho aumenta graças ao confiável boca a boca que ameaça transformá-lo no documentário sensação do ano e em uma das experiências audiovisuais mais instigantes e magnéticas que 2018 pode ter.

Dirigida pelos irmãos Way (Chapman e Maclain), e produzida pelos também irmãos Duplass (Jay e Mark), seus seis capítulos revelam uma dessas histórias que dificilmente encaixariam dentro da ficção por mais que a frase “baseada em fatos reais” aparecesse após os créditos. O mais indicado em seu caso, como afirmou o próprio Mark Duplass em sua conta do Twitter, é se deixar levar pelo carrossel de fatos inverossímeis e alucinantes desinformado, sem spoilers. Só, e como tira-gosto para instigar sua visualização, reproduzir o que diz seu roteiro: Wild Wild Country conta a aventura de um guru da Índia (Bhagwan Shree Rajneesh) e seu grupo de ricos seguidores quando decidem se instalar em uma cidade construída como uma comunidade em uma região despovoada do Oregon. Uma mudança que terá a oposição dos aproximadamente cinquenta moradores locais irritados com os novos vizinhos seguidores do amor livre e dos rituais estranhos.

Ma Anand Sheela, no documentário 'Wild Wild Country'.
Ma Anand Sheela, no documentário 'Wild Wild Country'.

Wild Wild Country se insere nas séries-documentário, normalmente as inscritas no true crime, que, pelo insólito disparate que contam, colocam o espectador diante da circunstância de se forçar a acreditar nas imagens apesar do raciocínio se inclinar por desmentir o exposto, derivando em uma espécie de estupor generalizado, seguido de um êxtase enraivecido, o que coloquialmente se entende como “mexer com a cabeça”.

Mais fácil do que tentar expressar essa coceira mental a cada nova mexida, o ideal é se lançar a outros expoentes do “mais estranho que a ficção" relacionados às sensações que provoca a nova produção da Netflix.

The Jinx (HBO)

A aterradora história de Robert Durst se tornou o novo paradigma do que deveria ser o true crime modelo, e por sua vez, no desencadeador do boom pelo subgênero que ainda se vive. Andrew Jarecki, que já fez os olhos sangrarem com o devastador documentário Na Captura dos Friedmans, não só teve a habilidade de encontrar a história de um crime fascinante e recheado de perguntas incômodas sem esclarecimento, como colocou diante da câmera o gélido olhar de seu protagonista, um tétrico milionário nova-iorquino de família importante que escapou sem maiores problemas de dois crimes que o colocavam muito próximo aos locais do assassinato. O que diferenciou esse trabalho, entretanto, acima do papel de documentarista detetive de Jarecki, foi sua pavorosa virada final. Uma série-documentário que desencadeou, durante a filmagem e seu desenvolvimento (como um work in progress imprevisível), o destino de seu principal objeto de estudo. Nunca antes a HBO havia entregado uma prova incriminadora tão irrefutável.

Making a Murderer (Netflix)

Na esteira do sucesso da HBO com The Jinx, e fundamental para consolidar o true crime drama no podcast Serial, a Netflix se aproximou no final de 2015 da história de Steven Avery, um homem preso injustamente durante 18 anos por um crime que não cometeu. Laura Ricciardi e Moira Demos encontraram nesse caso seu Paradise Lost (outro incrível documentário sobre outro caso que engrossa o longo histórico de inocentes em prisões do país das estrelas e listras). Um minucioso trabalho narrado através de 10 episódios com obscuras e assombrosas curvas e voltas lancinantes em uma história que ainda não foi arquivada. Outro fenômeno televisivo que ultrapassou a tela, se instalou na opinião pública e chegou até mesmo ao Salão Oval de Obama.

Wormwood (Netflix)

Uma das amostras mais recentes de relatos peculiares foi fornecida pela plataforma de Reed Hastings sob a prestigiosa lente de um Papa na matéria. Errol Morris se responsabilizou por reconstruir a pista de Frank Olson, um cientista que participava de um programa secreto de armas biológicas da CIA (o Project MKUltra) até que pulou da janela de um arranha-céu de Nova York. Um drama-documentário, metade jornalismo de investigação com o filho da vítima no papel de detetive-jornalista, e a outra metade com vinhetas ficcionais que recriam os obscuros segredos ocultos à opinião pública, que volta a semear dúvidas no espectador, dessa vez não sobre a verossimilhança do que se narra, mas sobre essa versão oficial conveniente, especialmente se a CIA está envolvida no assunto.

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