Seleccione Edição
Login
REMO LARGO | PEDIATRA

Remo Largo: “Não fomos feitos para viver nesta sociedade massificada”

O pesquisador suíço apresenta em seu livro uma proposta para reconhecer nosso potencial e nossas limitações e nos adaptarmos ao entorno

O escritor Remo Largo
O escritor Remo Largo

Imaginem um mundo paralelo no qual Neymar se visse obrigado a triunfar como apresentador de telejornais, Jorge Paulo Lemann como levantador de pesos e Silvio Santos como bailarino. Provavelmente, esses três personagens de sucesso de nosso universo seriam três infelizes incapazes de cumprir com suas expectativas e as dos demais nesse mundo imaginário.

O pediatra suíço Remo H. Largo (Winterthur, 1943) recorda que o sucesso e a satisfação de cada um com a vida não pode ser medido com padrões universais. Dependem na realidade de uma boa adequação entre nossas capacidades e nosso entorno. E não se trata somente de escolher uma forma de vida de acordo com nossas tendências e habilidades. Também é preciso saber controlar a ambição para não cair no tédio por falta de estímulos ou se ver esmagado pelo estresse por se fixar em metas superiores aos talentos.

Largo, aplicando conhecimentos de mais de três décadas de estudo do desenvolvimento de crianças, como diretor do Departamento de Crescimento e Desenvolvimento do Hospital Infantil da Universidade de Zurique, acaba de publicar um livro, Individualidad Humana (na edição em espanhol, pela editora Debate) que expõe parte do que aprendeu sobre a educação das crianças, para as quais, considera, é preciso facilitar o acesso à mídia e a incentivos, de modo que desenvolvam suas próprias capacidades conforme suas inclinações.

Pergunta. Que necessidades tem uma criança que o entorno possa satisfazer?

Tenho a suspeita de que os adultos hoje em dia não são tão competentes do ponto de vista social

Resposta. Não é suficiente que a criança disponha dos pais. Existe um dito africano que diz que para criar uma criança é preciso de toda a aldeia. Na educação superestimamos a família e subvalorizamos a convivência na sociedade.

A comunidade é definida por um grupo de 100 ou 150 pessoas, um núcleo pequeno comunitário no qual todo mundo se conhece muito bem. Isto significa que nesse tipo de comunidade cada um contribui com sua força para fazer com que essa comunidade funcione e é aceito como é, com suas fraquezas. Nos últimos 200.000 anos, o ser humano sempre viveu nesse tipo de núcleo comunitário, e continua sendo o caso em muitas partes do mundo. Mas, com a revolução industrial, nos últimos 150 anos criamos uma sociedade de massas anônima e essa vida em comunidade se perdeu.

P. Mas para muitas pessoas, viver em um povoado de 200 habitantes pode se tornar muito hostil. Em muitas dessas comunidades as pessoas não são aceitas como são, em sua orientação sexual, por exemplo, e em muitos casos é mais difícil desenvolver talentos pessoais particulares.

R. Estou totalmente de acordo. Um povoado tal como existia outrora não era um paraíso, em absoluto. Havia muitos conflitos sociais e também se enquadravam as pessoas, que careciam de liberdade, por exemplo, se pensarmos na homossexualidade ou nas pessoas trans. Mas uma comunidade do futuro não tem por que ter necessariamente esse aspecto. Muitas das tarefas vão ser assumidas pelo Estado, e esse era um ponto de conflito nos povoados. Por exemplo: o sistema de saúde ou o sistema educacional serão desenvolvidos pelo Estado. Mas o que quero destacar é que dentro desse núcleo comunitário pequeno a pessoa não podia ser expulsa. Podia sentir-se infeliz, mas se sentia incluída, enquanto que na sociedade massificada a pessoa vive socialmente isolada. Um caso extremo é o das crianças e outro, o dos idosos.

P. Qual seriam os efeitos nas crianças da falta desse apoio?

R. Não pode existir um bom desenvolvimento, especialmente nos primeiros anos, se a criança não tem a possibilidade de se relacionar com outras crianças ou com outras pessoas, porque muito do que as crianças aprendem se dá por meio de outras crianças, que em certa medida são no mínimo tão importantes como os próprios pais. Tenho a suspeita de que os adultos hoje em dia não são tão competentes do ponto de vista social. Não posso demonstrar isso, mas se vemos como resolvem os conflitos chegamos a essa conclusão.

As mulheres e os homens são muito diferentes. Sempre foram diferentes, tiveram tarefas diferentes. Não se pode torná-los iguais

P. No livro argumenta que todos temos um potencial limitado e é importante estar consciente disso para não termos aspirações excessivas.

R. Quando se aprende um idioma se chega a um patamar em uma curva de aprendizagem. Em algum momento nos damos conta de que não podemos continuar avançando por mais que nos esforcemos. Esse é o indício.

No caso das crianças, o mecanismo é muito mais simples. Quando são sobrecarregadas, adotam uma atitude de negação ou se deprimem ou ficam doentes. As crianças querem aprender, todas, sem exceção. Até mesmo as crianças com deficiências, em seu próprio ritmo. As crianças querem aprender no seu ritmo e nossa tarefa consiste em lhes facilitar as experiências de que necessitam.

Se nos fixarmos nos jovens com 15 anos, na fase em que se encontram no que diz respeito à escrita ou à leitura, a sexta parte dos jovens de 15 anos está no nível de uma criança de 6 ou 7 anos, e todos seguiram os mesmos estudos. Apesar disso há uma diferença importante. Os dotes e talentos podem ser muito variados. Minha preocupação reside no que vai fazer essa sexta parte no mundo do trabalho.

P. Há diferenças entre homens e mulheres que devam ser consideradas?

R. As mulheres e os homens são muito diferentes. Sempre foram diferentes, tiveram tarefas diferentes. Não se pode torná-los iguais. Por exemplo, no comportamento de cuidado do outro, como tratamos as crianças, as pessoas idosas, os deficientes. Há grandes diferenças.

P. Sim, mas há pessoas que dizem que isto é uma construção cultural.

R. Dizer isso é uma boa estratégia bélica. Mas não é verdade. Pode ser medido no cuidado com os outros, por exemplo. As mulheres sempre se ocuparam das crianças pequenas. Em sua capacidade para fazer uma leitura das crianças e suas necessidades há uma enorme diferença em relação aos homens. É uma aptidão social. Por exemplo, a mímica, o contato visual, a voz, a modulação da voz. E as mulheres precisaram disso para poder cuidar das crianças. Também no caso das mulheres há diferenças. Há mulheres que não sentem a necessidade de cuidar de ninguém. Eu conheci três mães ao longo de um estudo longitudinal que realizamos que abandonaram os filhos da noite para o dia e não voltaram nunca mais. Há diferenças, também entre mulheres, e se observamos o que ocorre com os homens, também vemos que há os que têm essa competência social.

MAIS INFORMAÇÕES