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COLUNA

A questão de Jerusalém

A impulsividade da decisão anunciada na semana passada demonstra uma manobra política de gravíssimas consequências

Jerusalém depois do anúncio da mudança na embaixada dos EUA.
Jerusalém depois do anúncio da mudança na embaixada dos EUA. EFE

É muito arriscado escrever sobre situações que estão em andamento. Mas Jerusalém é, na verdade, um tema atemporal. A cidade é o berço das três mais importantes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Passou ao longo dos séculos por diferentes soberanias, cada qual reivindicando sua primazia. No pós-guerra, após o domínio britânico, a criação do Estado de Israel pela ONU trouxe conturbações ainda vigentes setenta anos depois. Nestes últimos dias, o reconhecimento pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel e a prometida mudança da Embaixada representa um golpe muito duro – talvez irreversível – às possibilidades de criação de um Estado Palestino, o que prolongará indefinidamente o conflito na região.

Em 1947, os Estados árabes começaram a arregimentar forças para incluir na agenda da Assembleia Geral da ONU item destinado a discutir e proclamar a independência da Palestina. O tema estacionou após longo debate entre os membros e a representação sionista (não governamental), apoiada pelos Estados Unidos. A União Soviética, meses depois do início da discussão, acabou apoiando a partição da Palestina.

O tema foi finalmente confiado a um Comitê Especial sobre a Palestina encarregado de fazer sugestões à Assembleia Geral. As lideranças árabes alegaram que até o surgimento do movimento sionista, ambas as partes conviviam em paz. Entre vários argumentos, acentuava-se o fato de que os árabes palestinos não eram culpados, nem deveriam ser punidos pelos crimes cometidos pela Alemanha nazista e pagar sozinhos o preço do acolhimento dos refugiados judeus.

Após incontáveis controvérsias, o Comitê sugeriu, em setembro de 1947, que a Palestina fosse dividida entre um Estado árabe e um Estado judeu, e que Jerusalém deveria ser uma entidade independente, uma cidade universal, sob a tutela da ONU.

O tema passou então às mãos da Segunda Assembleia Geral da ONU que, por sua vez, instituiu um Comitê Ad Hoc sobre a Palestina ao qual foi confiada a busca pela solução do problema. As divisões continuaram: os árabes insistiram em sua oposição aos sionistas e argumentaram que estes receberiam a melhor parte da Palestina, alegando que não seria justo atribuir autodeterminação a quinhentos mil judeus e recusá-la a outros quinhentos mil árabes dentro do proposto Estado judeu.

A partição, contudo, dada a extrema mobilização de comunidades judaicas junto aos então poucos membros da ONU, foi ganhando terreno, inclusive com o apoio da União Soviética. O Presidente Harry Truman mobilizou-se pessoalmente.

O Ministro Oswaldo Aranha, então Presidente da Assembleia Geral, contribuiu com manobras processuais para ampliar o apoio à partição. A decisão foi finalmente tomada, após uma segunda manobra processual proposta pela França. A chamada Resolução de Partição passou por 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções.

Em seu livro The Arab-Israeli Dilemma, aparecido em 1968, o Professor Fred J. Khouri narra minuciosamente a confrontação derivada da partição da Palestina e da criação do Estado de Israel. Foi-me extremamente útil no período de 1971 a 1974, em que servi na Missão junto à ONU. O Brasil oscilava entre a ambiguidade e o apoio a Israel. Passamos então a uma política de “equidistância” que logo seria posta abaixo pela crise do petróleo de 1973, em virtude da qual o Brasil, completamente dependente do petróleo árabe, bandeou-se para o lado palestino.

Assim começou a fase crítica de um problema que se arrasta há séculos e que se transformou no que hoje denominamos o conflito árabe-israelense com todas as suas conotações ideológicas e suas ramificações.

Um livro seria pequeno para narrar com detalhes as guerras que se seguiram, as expectativas que se criaram e se desfizeram ao longo das décadas seguintes. Hoje, Israel tornou-se uma potência nuclear (não admitida) e um país rico, cuja capital passou a ser Jerusalém, declarada unilateralmente em 1980 como “capital eterna e indivisível” do país.

Algumas vezes foi-me perguntado por que não insistir num papel mediador para o Brasil, já que no nosso país as comunidades árabe e judaica convivem harmoniosamente. Respondo sempre: convivem bem aqui, afastadas que estão da realidade da questão. O problema é lá, no território onde a tradição milenar de antagonismos é assoberbante.

Os homens se dispõem a morrer em luta por duas questões principais: pátria e religião. Entre Israel e a Palestina – e por extensão os demais países árabes – as duas questões se misturam perigosamente.

A grande indagação para o futuro será a de saber se efetivamente os EUA implementarão a promessa de Trump de reconhecer definitivamente Jerusalém como a capital de Israel e de transferir para lá a Embaixada dos Estados Unidos. Uma decisão ousada que outros presidentes americanos chegaram a pensar em tomar, mas na verdade jamais o fizeram.

Dificilmente pode-se acusar os antecessores de Trump de indiferença, irresponsabilidade ou pusilanimidade. A reticência em adotar a medida anunciada pelo atual presidente baseia-se certamente numa cuidadosa reflexão sobre as inevitáveis consequências do ato – sua repercussão sobre a paz na região e sobre a perspectiva de um futuro acordo entre as partes. A impulsividade e o principismo da decisão anunciada na semana passada demonstram, a meu ver, mais uma manobra política de gravíssimas consequências do que um suposto reconhecimento de uma justa reivindicação. A primeira responsabilidade das grandes potências, diante da situação explosiva que ultrapassa de longe as fronteiras palestino-israelenses, envolvendo todos os países árabes e incentivando fanatismos de todos os lados, é de buscar uma difícil - é verdade - solução pacífica à questão do Oriente Médio.

Vislumbrar tal solução pode ser utópico, mas o gesto desavisado – sem entrar no mérito da questão - do Presidente Trump só contribui para adicionar lenha à fogueira e tornar ainda mais inviável qualquer projeto de paz e boa vizinhança.

Montesquieu certa vez escreveu, referindo-se às guerras de religião, uma frase que me parece adequar-se bem à situação que estamos vivendo: “As guerras de religião não são causadas pelo fato de existir mais de uma religião, mas pelo espírito de intolerância… cuja disseminação só pode ser considerada como o eclipse total da razão humana.”

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