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Num universo cada vez mais catastrófico, a moda masculina propõe simplicidade

Numa fuga da extravagância, o setor aposta em se distanciar das piruetas criativas e incorporar os jeans e as camisetas, tentando se aproximar de uma nova clientela.

Daniel García López
Participante da Pitti Immagine, a feira de moda masculina mais importante da Europa.
Participante da Pitti Immagine, a feira de moda masculina mais importante da Europa.

Corria junho de 1997, e a revista The Face comemorava a última tendência com reverência quase filosófica: “Faz você se sentir fresco, limpo e saudável. É o uniforme das pessoas que não usam uniforme”. O oráculo britânico que ditava mensalmente o que estava na moda, o que não estava e o que voltaria a estar amanhã se referia ao cáqui. O cáqui, este tecido de algodão bege com que são feitas as calças chino, peças associadas à classe média e à meia-idade, exatamente o que não se costuma ver num desfile nem numa balada. Naquela época a indústria da moda estava saturada de tendências radicais e viu a luz na normalidade. “A maioria dos garotos querem ser considerados homens, mas se vestem como eternos estudantes”, argumentava a publicação. Para eles, Calvin Klein e Ralph Lauren lançaram linhas de difusão com as quais encher seus armários com básicos de marca. Não apenas chinos, mas também blusões, jeans e camisetas. Frescos, limpos e saudáveis. Como as pessoas de uma série familiar.

Na atual temporada, duas décadas depois, a normalidade volta ao primeiro plano da moda. A coleção de Balenciaga é um reflexo irônico sobre os arquétipos indumentários que podem conviver num grande edifício de escritórios: desde os ternos dos executivos até as jaquetas acolchoadas dos mensageiros, passando pelos moletons dos designers gráficos (para destacar a questão, a sala na qual houve a apresentação, em janeiro em Paris, era forrada de carpete cinza e mobiliada com anódinas cadeiras de escritório). Enquanto isso, Dries Van Noten assina uma sólida coleção de básicos superdimensionados. E Miuccia Prada insiste no estilo estudantil dos anos setenta e tira conclusões fascinantes pelo que têm de inocentes: sua aposta para a temporada é calça de veludo com suéter e camisa azul.

Mas olhadas de perto essas coleções não têm nada de normais. As roupas de Balenciaga são uma paródia do mais comum do mercado e têm ombros exagerados e o cavalo muito baixo. Seus moletons são extragrandes, e os suéteres com logo, embora pareçam parte do uniforme de uma empresa de manutenção, copiam o grafismo de Bernie Sanders e têm a parte traseira separada do elástico, de forma que as costas ganham um volume parecido com o de uma bomber. A roupa de Dries Van Noten é uma interessante versão, com os padrões revisados e sensibilidade punk, de algo que poderia ser encontrado num camelô. E o que Prada faz também parece de segunda mão, mas só à distância: os arremates de pele e as proporções ligeiramente alteradas de seus casacos de tecido integram o saber fazer da primeira divisão do luxo. Um luxo que, segundo declarou a estilista à revista Vogue, era uma resposta “à grandiloquência da moda. Quis ir ao extremo oposto. Fazer algo mais humano, mais simples, mais real”. Mais real, mas ao alcance de poucos.

A tendência pela roupa normal é parte de um movimento maior no mundo inteiro e tem um único responsável

Que a moda masculina tente fugir da extravagância não é novidade. Mas agora integra um movimento mais amplo, que transcende a passarela e que inclui a urgência do setor em se aproximar de uma clientela nova, que se parece pouco com as anteriores, e o auge da roupa das ruas. Por roupa das ruas se entende streetwear: uma constelação de empresas independentes nascidas entre aficionados do skate, em contato com a vanguarda da arte e da música, especializadas em camisetas e moletons que produzem em pequenas quantidades. A britânica Palace Skateboards e a norte-americana Supreme são dois bons exemplos das dimensões deste fenômeno. A primeira decidiu responder ao fanático desejo por seu produto reduzindo ainda mais seus canais de venda, e a segunda colaborou com a Louis Vuitton numa coleção de roupas e acessórios da qual, é claro, não sobrou nada.

Os básicos podem abrir as portas para esta desejada carteira de clientes jovens, mas a busca pela credibilidade das ruas sempre foi assunto espinhoso para o establishment. No final dos anos noventa, quando as grandes marcas copiaram o agressivo vestuário cultivado por certa juventude urbana —calças cargo, tênis futuristas e chamativos moletons— foram acusadas de impostura. Que a moda adotasse aquela estética era “o equivalente atual a Maria Antonieta fingindo ser camponesa”, disse o jornalista James Sherwood no The New York Times.

O estilista que se concentrou na roupa do dia a dia e mudou as regras do jogo, evitando a apropriação, foi o vanguardista austríaco Helmut Lang. Michael Kardamakis, proprietário da Endyma Garments, loja online especializada em roupa vintage do estilista, explica sua influência: “Pegou as roupas que todo mundo tem e as transformou em moda de primeira ordem. Seus jeans eram como os Levi’s 501, só que mais favorecedores, e os fabricava com acabamento nunca visto. Suas camisetas passavam por um processo que as fazia mais suaves, como se tivessem sido usadas durante anos. Sua alfaiataria era atemporal, mas continha subtextos, como um arnês escondido no interior”. O austríaco saiu de sua marca em 2005, mas sua influência está por toda parte. A empresa que leva seu nome acaba de desfilar em Nova York com um novo estilista, Shayne Oliver, e lançou uma série de reedições dos clássicos com os quais o fundador mudou a cara da moda há 20 anos.

Os básicos são simples mas também são um bálsamo

Alguns veem neste suposto gosto pela normalidade um bálsamo, algo controlável num mundo catastrófico e imprevisível. Dries Van Noten, por exemplo, descreveu sua coleção como “otimista”. Outros não veem mais que uma tendência cíclica, uma pirueta esnobe e uma oportunidade para vender moletons mais caros para um consumidor jovem ou inconsciente, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Também pode ser, simplesmente, que tudo isso seja a resposta do mundo a uma mudança em nossos costumes: se o relaxamento dos códigos indumentários transformou os básicos do fim de semana na nova roupa do dia a dia, faz sentido que nos ofereçam mais e melhor. O estilista irlandês Jonathan Anderson, famoso por não usar as controvertidas roupas que desenha, certificou a tendência em seu último desfile, o da próxima primavera do hemisfério Norte, cheio de camisetas, suéteres e jeans. “Esta é roupa que, sim, quero vestir”, disse nos bastidores. É até possível que estejamos diante de uma tendência de muito antes. Que, desde aquela revolução dos anos noventa, as coisas não tenham mudado tanto. Kardamakis corrobora esta opinião: “Por acaso os básicos deixaram de ser relevantes em algum momento?”.

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