O complexo de inferioridade da Argentina

A suposta superioridade moral, ou esportiva, que caracteriza o argentino, na seleção se transforma no contrário: nosso futebol está perto de chegar ao fundo do poço

Lionel Messi, com seus companheiros da seleção argentina, em um treino.
Lionel Messi, com seus companheiros da seleção argentina, em um treino.Victor R. Caivano (AP)

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Tudo o que temos vivido na Argentina em tantos anos de futebol, toda a nossa história, foi lentamente para o lixo. Não só pelo que uma equipe de futebol pode entregar, pois isso pode ser circunstancial. Temos bons jogadores, continuam surgindo craques e ainda permanece essa paixão pelo jogo, esse vínculo tão profundo com o futebol como um bem cultural. Mas o futebol entrou em um terreno de divagação. Os responsáveis por dirigi-lo são pessoas que não têm nenhum conhecimento sobre o que significa o jogo e como se joga. Há uma deterioração conceitual e uma degradação que induz a tomar decisões como a dos administradores da AFA, de organizar a partida contra o Peru na Bombonera. Como se a mudança de palco levasse a uma melhoria futebolística.

O campo, não o jogo, está no centro do debate. Os programas de televisão tratam dos temas periféricos, falam de superstição. E quando falam de futebol o fazem para debater sobre o sistema de jogo, como se o sistema tivesse vida própria e fosse algo integrado por qualquer jogador. Em vez de se analisar jogadores dentro de uma ordem, analisam-se sistemas, sem uma razão. Há uma deterioração que leva a uma confusão enorme porque os que tomam as decisões estratégicas agem com base em um mundo fictício no qual qualquer teoria parece válida, inclusive teorias sem lógica.

Não acredito que a crise do futebol argentino seja casual. No futebol a bola também entra por questões que estão ligadas à gestão. A origem deste drama responde a muitos anos de indiferença, negligência, maus-tratos e desorientação que levaram os dirigentes a pautar o rumo da busca do sucesso. Mas o sucesso também pode ser um inimigo, ou uma doença. Perseguindo o sucesso entra-se em uma cadeia de tomada de decisões que não tem nada a ver com a natureza do jogo. O futebol é um projeto, é um trabalho de longo prazo, é designar a pessoa idônea para desempenhar as funções dentro de uma organização. Grande parte do gérmen do fracasso tem sido colocar formadores que não estão afiançados pelo conhecimento.

A perseguição desesperada do sucesso impregnou as bases. Os jogadores se vão porque antes de sonhar em jogar na primeira divisão têm a expectativa de triunfar no exterior. Lutamos contra a falta de senso de pertencimento, contra a falta de uma identidade nos clubes. O vínculo entre o jogador e o torcedor se rompeu. Perderam-se os símbolos que davam identidade aos clubes porque tudo se faz em função do urgente. Tudo acaba na próxima partida. Agora é a partida contra o Peru. A equipe se prepara para ganhar desesperadamente. Não há paciência nem para estimular a equipe nem para apoiar um jogador por um período de tempo prudente. Na mídia há um clima de insatisfação permanente que penetrou na seleção.

A Argentina testou todos os esquemas. Os técnicos vêm tentando construir pondo os tijolos sobre o nada. Não há alicerces. O primeiro tijolo é Messi, e o restante está para ser revisto

A equipe está contaminada pela frustração do passado. Nessa obsessão pelo sucesso como único objetivo, não importa como nem quando nem onde, entrou-se em uma cadeia louca. Os jogadores chegaram à final das últimas três competições que disputaram, mas não as venceram e sentem a frustração de não terem podido cumprir essa promessa ao povo argentino. Sentem-se constantemente em dívida. A equipe não tem amparo para combater a adversidade. A adversidade é um inimigo invisível que se suporta um tempo, mas, à medida que os minutos passam, é um inimigo mais potente. E chega um momento em que ele vence.

A Argentina testou todos os esquemas táticos. Os treinadores tentaram construir pondo os tijolos sobre o nada. Não há alicerce. O primeiro tijolo é Messi, e o restante está para ser revisto. Há 10 anos não temos uma base de apoio que se assemelhe a uma estrutura para começar a construir. Há três meses veio Jorge Sampaoli e mudou tudo: os dois meio-campistas, os do fundo e a ideia futebolística.

Se há algo em que os argentinos em geral se apoiam é o orgulho. O amor próprio os conduziu a lugares impensáveis, apesar de tudo. Essa convicção de que somos superiores nos empurrou para a frente e agora está se voltando contra nós.

A suposta superioridade moral, ou esportiva, que caracteriza o argentino, na seleção de futebol se transforma em um complexo de inferioridade. Acreditamos que somos superiores. Que os outros não existem. Esse complexo de superioridade se inverte quando nos chocamos com uma realidade que não se encaixa em nossa visão. Muitos dirigentes, muitos jogadores e muitos torcedores fabricaram sua própria realidade. Quando os fatos, e não só os resultados, não coincidem com essa fantasia, se dá o transtorno.