Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Euro supera 1,20 dólar pela primeira vez desde janeiro de 2015

Depois da reunião de representantes de bancos centrais nos EUA, a moeda da comunidade revalorizou 2,5%

euro
Mario Draghi, presidente do BCE, na Alemanha, há uma semana. REUTERS

O euro segue sua tendência de alta e nesta terça-feira ultrapassou a barreira de 1,20 dólar, algo que não acontecia desde 2 de janeiro de 2015. Depois da reunião da semana passada em Jackson Hole (EUA) entre representantes dos centrais, na qual não se dirimiram as dúvidas sobre os próximos passos de Banco Central Europeu (BCE) e Federal Reserve (FED), o euro ficou ainda mais forte. Desde 18 de agosto, depois da reunião, revalorizou 2,5% (o câmbio então estava em 1,17 euros).

“A alta do euro está vinculada, sobretudo, à política monetária. A moeda da Comunidade está subindo todo o ano, apesar de o ritmo ter aumentado depois do encontro de Sintra (Portugal). Na época, Mario Draghi disse que a economia europeia ia muito melhor e isso foi interpretado como uma aviso da retirada de incentivos do BCE, o que disparou uma alta mais acentuada”, explica Natalia Aguirre, diretora do departamento de análise do Renta 4 Banco. No entanto, ainda se desconhece como será o fim da compra de ativos e, sobretudo, qual será o ritmo da retirada a partir de janeiro.

Esse movimento na política monetária do BCE é visto com cautela. Por quê? Quando mais se reduzir a compra de ativos, maior pode ser o movimento de valorização do euro. Para José Ramón Díez, diretor do Bankia Estudos, o movimento em médio prazo depende das decisões tomadas por Draghi quanto à política monetária. “As datas-chave são as reuniões do Banco Central Europeu de setembro e outubro para definir a retirada dos incentivos”, disse Díez, que acrescenta: “Espera-se uma retirada paulatina da compra de ativos a partir de janeiro. Não se sabe se será de 20 bilhões a menos no trimestre ou 10 bilhões a menos no mês, mas antes do fim de 2018 esse programa deve terminar”.

O máximo a que chegou o câmbio na terça-feira, dia 29 de agosto, entre a moeda europeia e a dos Estados Unidos foi de 1,20065, o valor mais alto desde 26 de dezembro de 2014. Isso representa uma revalorização de 15,4% no ano até agora. Sobre o futuro em curto e médio prazos, poucos se atrevem a opinar. O Bankia Estudios apontava que o objetivo no fim do ano era chegar em 1,20 dólares por euro, enquanto que para 2018 afirmam que chegará aos 1,25. “Esta seria uma zona de equilíbrio. Já acabou a tendência de alta do dólar, que começou em 2014”, que aproximou as duas moedas da paridade”, assegura Díez.

Assim, a política econômica dos dois lados do Atlântico influi sobre os movimentos da taxa de câmbio, apesar de ser necessário levar em conta outros fatores. “Aos bons números da economia europeia se une a incerteza política nos EUA. Em princípio, o FED deve voltar à normalidade da política econômica antes do BCE, mas a situação atual poder fazer com que o Federal Reserve seja mais cauteloso e atrase a alta da taxa ou a redução de seu balanço de ativos”, argumenta Aguirre. Apesar disso, seguem adiante nessa normalização, já que na Europa ainda se mantém a compra de ativos, algo que os analistas colocam em dúvida. “Em seu momento tinha justificativa, mas agora é preciso parar com isso. O BCE deve comunicar já, apesar de ser uma retirada moderada”, explica o diretor do Bankia Estudios.

Enquanto se decide a estratégia na UE, a revalorização do euro em relação ao dólar já tem seu impacto. A melhor notícia para a economia europeia é o menor custo representado pela importação de produtos de fora da União Europeia. Por exemplo, a alta representa uma economia para os países da UE na compra de petróleo, que usa o dólar como referência para fixar seu preço. Além disso, também dá mais credibilidade ao projeto europeu, que foi colocado em dúvida durante os processos eleitorais dos últimos anos.

Ao mesmo tempo, também tem um efeito negativo para as exportações europeias, que em 2015 alcançaram os 1,791 trilhões de euros, segundo a Eurostat. “Os produtos europeus se tornam mais caros no exterior. Além disso, faz com que as empresas com receita em dólar vejam reduzidos os valores de suas vendas”, disse a diretora do departamento de análises do Renta 4 Banco.

O câmbio com a libra, no máximo desde 2009

A força da moeda comunitária também se faz sentir no câmbio com a libra esterlina, que está em 0,9299 por euro, máximo desde 13 de outubro de 2009 (era trocado a 0,9329), se não se levar em conta as taxas de câmbio intradia: “Em outubro de 2016, houve níveis similares, em torno dos 0,93. No entanto, não se sabe ainda por que, mas houve um ajuste de 6% em minutos”, recorda Díez. Seja como for, em relação ao câmbio do momento da realização do Brexit (23 de junho de 2016), a valorização foi de 14,2%. Durante a terça-feira, chegou-se a trocar um euro por 0,9306 centavos de libra.

As razões da valorização do euro em relação à libra esterlina são diferentes. Neste caso, une-se o bom ritmo econômico da zona do euro com a desvalorização da moeda britânica. “A incerteza provocada pelo Brexit sempre se faz sentir mais no valor da libra”, afirma Aguirre. O que é corroborado pelo Bankia Estudios: “O fator fundamental é a negociação da saída da UE”.

Sobre as repercussões, o impacto da alta da libra é importante no caso espanhol, que se torna um destino turístico mais caro para os viajantes britânicos. Algo que pode ser um problema para a Espanha, já que o Reino Unido é o principal emissor de visitantes. Em 2016, dois de cada dez turistas internacionais que chegaram eram moradores das ilhas britânicas (23,5%).

MAIS INFORMAÇÕES