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Entenda porque o Bitcoin se dividiu e agora vive seu momento de glória

Cotação da moeda virtual aumenta seguidas vezes puxada por avanços tecnológicos e especulação

Alta da moeda bitcoin
Caixa eletrônico que permite a compra de bitcoins, em Nova York. REUTERS / Cordon Press

Como por mágica, Alberto Gómez viu no dia primeiro de agosto seu investimento crescer subitamente. Os 30.000 euros (111.000 reais) que tinha na moeda virtual Bitcoin tiveram aumento de 10%. O repentino ganho do especialista de informática se deve a um racha na comunidade de desenvolvedores e usuários do dinheiro eletrônico mais famoso do mundo. No começo do mês, o universo bitcoin foi dividido em duas moedas a Bitcoin (BTC) convencional e o Bitcoin Cash (BCH), colocando um ponto final em uma crise que já durava dois anos.

Apesar das previsões dos mais pessimistas, a separação parece ter dado novas forças ao Bitcoin (o tradicional): em menos de três semanas, cada moeda passou de 2.700 dólares (8.490 reais) para valer mais de 4.300 (13.510 reais), segundo cotação do CoinMarketCap. Desde o começo do ano, seu valor mais do que quintuplicou. E seus defensores estão convencidos de que isso é só o começo.

A nova moeda Bitcoin Cash teve uma estreia tímida, mas já chegou a bater 730 dólares (2.285 reais) por unidade neste mês. No Brasil, no primeiro dia de negociação da nova moeda, na terça-feira passada (21), foram transacionados cerca de 3,5 milhões de reais pelo Mercado Bitcoin, por enquanto, única empresa a negociar a nova moeda no país.

O que mudou com a separação

Ambas as moedas mantém as característica do modelo de negócio original, sendo definidas como: dinheiro eletrônico negociado ponto-a-ponto (P2P, ou pessoa a pessoa), totalmente descentralizadas, sem banco central emissor e cujo lastro é a confiança de seus usuários. A diferença entre elas? A capacidade de transação.

Quando o Bitcoin foi criado, em 2008, foi determinado um limite do número de pagamento que a rede mundial pode processar, no máximo de três ou quatro pagamentos por segundo no mundo inteiro. Esse limite tem um motivo técnico: evitar o uso abusivo da rede e eventuais ataques por spam de pagamentos, o que poderia prejudicar as negociações. Há dois anos, a rede atingiu seu limite de transações. Na prática, isso significa que pagamentos simultâneos chegavam a demorar mais de 10 minutos para serem aprovados. Usuários e desenvolvedores, também conhecidos como mineradores, começaram a discutir globalmente sobre como aumentar a velocidade de pagamento. Isso levou a uma briga virtual entre grupos que propunham soluções distintas de como tornar a rede mais eficiente.

"O Bitcoin é um software open source, assim como o Android e o Linux, e qualquer um pode alterá-lo. Por isso, há programadores no mundo inteiro modificando a rede", afirma Rodrigo Batista, CEO da empresa Mercado Bitcoin. Segundo Batista, a comunidade ficou dividida em dois grandes grupos: um deles, liderado por usuários ocidentais, acreditava que deveria diminuir a quantidade de informação de cada transação, para que você pudesse fazer mais transações no espaço de 1 MB, que era o limite de processamento. No dia primeiro de agosto, este grupo modificou o software do Bitcoin para adaptá-la à nova configuração. "A partir de então, o número de negociações dobrou para 8 transações por segundo, abrindo a possibilidade de tornar a capacidade maior no longo prazo", afirma Batista.

O outro grupo, liderado pelos usuários chineses, acreditava que aumentar a capacidade de transação para 8 MB, o que significaria a possibilidade de fazer 32 transações por segundo – oito vezes mais rápido. Críticos a esse modelo afirmam que ele fere a proposta espírito inicial da moeda e que a busca desenfreada por aumentar o número de transações a qualquer custo pode levar a que empresas passem a controlar o processo, o que acabaria com seu caráter descentralizado. Essas mudanças no software levaram a criação do Bitcoin Cash.

Além da mudança no software, a revalorização da moeda virtual pode ser explicada pela avalanche de investidores que, atraídos pelas grandes rentabilidades, começam a se interessar pelo mundo das criptomoedas; especialmente levando em consideração que o número de bitcoins tem um teto – nunca pode existir mais de 21 milhões –, e a demanda não para de crescer. "Com a cisão, os usuários passaram a ter o mesmo saldo de Bitcoins nas duas moedas", diz Batista.

À margem desses fatores, existe a percepção de que moedas virtuais independentes de Estados e organizações financeiras vão ganhar cada vez mais importância. “Para mim é bem claro que o bitcoin veio para ficar. É somente questão de tempo que chegue a mais pessoas. Não acho que a curto prazo será muito usado, mas em áreas como o comércio internacional vai ganhando adeptos”, afirma Leif Ferreira, um jovem da área da informática que há três anos fundou o Bit2me, a maior gestora de bitcoins que existe hoje na Espanha.

"Fala-se muito na questão do lastro da moeda virtual, mas temos que lembrar que, desde o fim o padrão-ouro, um acordo global pelo qual cada moeda tinha seu valor correspondente em ouro,nenhuma outra moeda no mundo hoje tem lastro. O lastro é a confiança que você tem na economia do país. No caso do Bitcoin, que não é emitido por nenhum país, não tem dono e é mantido por todo mundo que a usa, o que dá valor a moeda a confiança que as pessoas tem nessa rede", afirma Batista.

Lento avanço do virtual para o real

Ao longo da rua Serrano em Madri um projeto foi iniciado há três anos, agora fracassado, de promover o comércio com bitcoins. Porque, apesar da impressionante escalada de 0 dólares em 2009 aos mais de 4.300 (13.510 reais) atuais, a moeda criada pelo programador – ou grupo de programadores – sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto não conseguiu entrar no dia a dia dos consumidores. Nessa rua, diante de um dos poucos caixas automáticos de bitcoins de Madri, o EL PAÍS encontrou Alberto Gómez, Jorge Ordovás e Pablo Burgueño, os criadores do NevTrace, um laboratório de blockchain, a tecnologia utilizada pelo bitcoin, cada vez mais solicitada pelas grandes empresas.

Ordovás, que também dirige uma pós-graduação sobre blockchain na Universidade Europeia de Madri, explica os motivos pelos quais a criação do bitcoin cash foi tão traumática para muitos membros da comunidade criada em 2008 sob os auspícios do criptoanarquismo. “O bitcoin nasce em plena crise com a ideia de mudar o modelo econômico e substituir as decisões dos humanos, imperfeitos por definição, pelas da criptografia, baseadas em modelos matemáticos. Mas após uma origem muito ideológica o bitcoin se transformou em um negócio”, esclarece o especialista.

Os criadores do NevTrace notam em seu dia a dia como cada vez mais empresas e órgãos se interessam pela tecnologia blockchain: da Europol, que procura soluções para os sequestradores que pedem o pagamento de resgate em bitcoins, à Comissão Europeia.

“Empresas como a Destinia, Zara, Prada e Agatha Ruiz de la Prada aceitam pagamentos em bitcoins. Suspeitamos que bem poucos são feitos, mas não se sabe ao certo quantos”, afirma Burgueño. Não é à toa que Governos de vários países já começam a se interessar por essa tecnologia para evitar a fraude também por essa via de pagamento. “É um setor em que quase ninguém está pagando o fisco e está ocorrendo uma brutal evasão de dinheiro”, afirma o especialista legal do NevTrace.

“As grandes empresas do Ibex-35 (principal índice da bolsa espanhola) usam criptomoedas criadas por elas mesmas para movimentar fundos entre diferentes sociedades do grupo”, acrescenta seu colega Gómez. Esses projetos permanecem ocultos por enquanto pelo desejo das empresas de não revelar seus planos estratégicos e pela percepção muito difundida de que o mundo do bitcoin está ligado a atividades escusas e, concretamente, à evasão de impostos.

Em 22 de maio de 2010, um usuário fez pela primeira vez uma transação de bitcoins como dinheiro. Ele se ofereceu para pagar duas pizzas com seu cartão de crédito a outro internauta em troca de 10.000 unidades dessa desconhecida moeda que havia nascido dois anos antes. Hoje, se tivesse mantido seu investimento por esses sete anos sem movimentá-lo, essas duas pizzas teriam lhe dado um lucro de 36,5 milhões de euros (135 milhões de reais).

O QUE É POSSÍVEL COMPRAR COM A CRIPTOMOEDA?

Jacobo Pedraza

O uso do bitcoin para transações comerciais cotidianas está longe de ser comum. Essa também não é sua razão de ser atual, transformado em um instrumento de investimento especulativo. Apesar de não existirem pagamentos com bitcoins no dia a dia, é possível comprar praticamente de tudo com a criptomoeda. Por exemplo, em sites como o Purse e o All4btc, através dos quais se acessa o catálogo da Amazon, Alibaba e Ebay, as maiores lojas virtuais do mundo. Também no site da Microsoft. E a maior plataforma de videogames, a Steam.

É possível também planejar as férias sem falar de reais. O portal de viagens Expedia foi em 2014 um dos grandes promotores da (até agora fracassada) tentativa de fazer do bitcoin uma forma de pagamento habitual. Hoje, continua aceitando pagamentos com a moeda virtual. A agência espanhola Destinia também permite o pagamento de voos, reservas de hotel e aluguel de carros por esse método.

É bem mais complicado encontrar lojas físicas que aceitem bitcoins. Um passeio pelo Coin Map mostra algumas opções em São Paulo  - de hostel até serviços de informática - que aceitam a moeda virtual como pagamento.   A iniciativa CalleBitcoin há três anos incentivou seu uso em lojas do Bairro de Salamanca de Madri. A maioria dos estabelecimentos, por volta de 50, foi se retirando após comprovar um impacto praticamente nulo nas vendas. Apesar disso, ainda é possível comprar roupas, comer e tomar drinques com dinheiro virtual na região da rua Serrano.

Mas talvez as compras mais comuns com bitcoins, um instrumento difícil de ser rastreado, são as que não se quer que venham a público: casas de apostas online, sites de encontro como o Badoo e o Sparklet e páginas de artigos sexuais.

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