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Não é o primeiro craque que o Barça perde: assim o Real ‘roubou’ Di Stéfano

Documentos encontrados no clube River Plate confirmam que Barcelona tinha comprado o lendário atacante

Alfredo Di Stéfano
Documento datado de 7 de agosto de 1953

Em um escritório do Estádio Monumental, o administrador do estádio do River Plate encontrou no começo deste ano centenas de arquivos corroídos por ácaros. Eram pastas e arquivos esquecidos em gavetas abandonadas e que revelam informações administrativas da vida do clube que mais campeonatos argentinos conquistou. Algumas das questões esquecidas no tempo eram insignificantes. Outras, não. Quando dois diretores do Museu River, Rodrigo Daskal e Patricio Nogueira, começaram a classificar os documentos recuperados, encontraram uma pasta que, na época, teria esclarecido parte da ainda confusa transferência que mudou a história do futebol mundial: a chegada do lendário atacante Alfredo Di Stéfano ao Real Madrid. Os papéis já amarelados, com timbre do Club Atlético River Plate, possuem um título impossível: “Transferência do jogador Alfredo Di Stéfano ao clube de futebol Barcelona”.

São mais de 30 páginas de documentos oficiais, telegramas, notas e recibos entre os quatro clubes (River, Barcelona, Real Madrid e Millonarios da Colômbia) que participaram de uma operação tão complexa que ainda exala uma aura de mistério. Os arquivos encontrados no River estão datados entre maio e setembro de 1953, por isso ficaram escondidos por 64 anos, e constatam como o Barcelona tentou comprar o atacante argentino, e até o comprou, mas em vão: no final daquele mês de setembro de 1953, Di Stéfano estrearia oficialmente na Espanha, não com a camisa do Barça, mas com a do Real Madrid, uma equipe à qual levaria a grandeza que ainda não tinha (o clube presidido por Santiago Bernabéu ganhara o último campeonato 20 anos antes, em 1933).

A pasta resgatada por funcionários do River abre com um documento timbrado de Barcelona que em 2 de maio de 1953 concede “amplos poderes” a Domingo Valls Taberner para representar o clube catalão, no que foi o início das negociações por um atacante que tinha brilhado no River entre 1947 e 1949 e no Millonarios de Bogotá daquele ano até 1952. Mas nada seria fácil: como a Liga da Colômbia tinha aceitado voltar a se filiar à FIFA (até então era um “torneio pirata”, não reconhecido pelo órgão máximo do futebol mundial), os jogadores estrangeiros que os clubes colombianos tinham comprado deviam regressar a suas equipes de origem no máximo até outubro de 1954. Ou seja, Di Stéfano poderia jogar outra temporada no Millonarios, mas no ano seguinte pertenceria de novo ao River.

O Real Madrid também estava interessado no atacante, mas o Barcelona saiu na frente e pediu uma cotação para o clube argentino. Os documentos encontrados mais de seis décadas depois detalham que o River avaliou Di Stéfano em 19 de maio de 1953 em 2,5 milhões de pesos, a moeda da Argentina na época (equivalente a 1,5 milhão de reais em valores atuais). Na semana seguinte, o Barcelona enviou uma contraproposta de 1,8 milhão de pesos, até que finalmente no mês seguinte, em 25 de junho, River e Barcelona concordaram com a transferência em dois milhões de pesos, sendo a metade paga em dinheiro, antes de 10 de agosto, e a outra metade em três parcelas até o final de 1954. Houve felicitações entre os clubes: “Estamos muito satisfeitos pelo acordo sobre o jogador Di Stéfano”, escreveu de Buenos Aires, em uma operação assinada pelos dois presidentes, Enrique Pardo, do River, e Enric Martí Carreto, do Barcelona, embora o quarto ponto afirmasse: “Todo o presente acordo está sujeito a que, antes de 26 de julho, o jogador Di Stéfano seja incorporado real, física, jurídica e efetivamente ao FC Barcelona, tendo resolvido qualquer dificuldades que possa surgir de sua atuação na Colômbia. Se não existirem essas condições, o acordo fica rescindido”.

Alfredo Di Stéfano
Di Stéfano, Santiago Bernabéu e Raymond Kopa Universal

E então apareceu o Real Madrid. O seguinte documento da pasta “Transferência de Di Stéfano ao Barcelona” não mostra mais o timbre do clube catalão, mas o de outra equipe que estava lutando pelo argentino e tinha optado por uma estratégia oposta: primeiro entrar em contato com Millonarios, o clube que tinha mais um ano de contrato com Di Stéfano, e só então com o River. Em uma carta datada de 24 de julho, assinada por Santiago Bernabéu de Yeste, o presidente do Real Madrid escreve aos dirigentes argentinos: “Temos o prazer de apresentar o portador desta, o senhor Raimundo Saporta Namías, tesoureiro deste Real Club. Agradecemos muito toda a assistência que possa levar seus esforços a um bom fim”.

O caso saiu do controle. Quatro dias depois, em 28 de maio, o River recebeu um telegrama de Bogotá no qual o Millonarios informa “ter chegado a um acordo total” com o Real Madrid para “ceder até outubro de 1954 a transferência do jogador Di Stéfano”. A equipe argentina responde que “estamos negociando com o Barcelona a transferência definitiva” do atacante, mas o River também, naquele 31 de julho, assinou um acordo com Saporta, o emissário do Real Madrid. “Se em 11 de agosto de 1953 o River não tiver recebido do Barcelona o montante fixado (com o clube catalão) em 25 de junho, se compromete a ceder o passe do jogador Alfredo di Stéfano ao Real Madrid”, estabelece o contrato, também no valor de dois milhões pesos. No entanto, antes da data limite, em 7 de agosto, uma nota promissória de 900 mil pesos em dinheiro confirma que o Barcelona pagou o passe. “Senhor dirigente do clube Barcelona, temos o prazer de nos dirigir ao senhor a fim de informar que o Conselho de Administração decidiu conceder o passe de Alfredo Di Stéfano para que, a partir de agora, possa atuar por essa prestigiosa entidade amiga”, comunicou o River.

O Real Madrid pressionou pela última vez o River com um telegrama: “Sem notícias oficiais dos senhores, e vencido o prazo, esperamos comuniquem telegraficamente entrada em vigor nosso contrato”, e depois disso o River respondeu a Santiago Bernabéu que já tinha recebido o dinheiro do Barcelona, assim estava caduco o contrato de 31 de julho assinado com o Real Madrid. Além disso, o clube argentino também informou a Millonarios e à AFA que tinha “concordado em conceder” o atacante ao Barcelona.

Alfredo Di Stéfano
Di Stéfano com a camiseta do River Plate Museo River Plate

Em meio a tantas idas e vindas, Di Stéfano, que já tinha 26 anos, estava em Barcelona desde 23 de maio esperando esse acordo. Tinha se declarado em rebeldia com o Millonarios, não voltava à Colômbia desde o Natal anterior e aceitou um convite para conhecer aquele que supostamente seria seu próximo clube.

Por que iria acabar jogando pelo Real Madrid, apesar do contrato assinado entre River e Barça, é outra história, uma que com o passar das décadas viraria polêmica. Alguns artigos de jornais publicados na Catalunha atribuem a uma suposta intervenção do governo franquista, uma versão radicalmente negada em Madri. Também um livro reconstrói com documentos da época, pistas ocultas da transferência (El Caso Di Stéfano, Toda la Verdad Sobre el Caso que Marcó una Época, Xavier Luque e Jordi Finestres, Península, 2006). Em todo caso, os telegramas que fecham o arquivo encontrado no River mostram que a situação tinha ficado confusa para o Barça. Em 7 de setembro, o clube catalão contou ao argentino sua preocupação por um recorte de jornal no qual o presidente do River declarava que não devolveria o dinheiro caso o Barcelona pedisse. Com quatro clubes na operação (o Real Madrid tinha comprado do Millonarios o ano de contrato de Di Stéfano que ainda estava em vigor), a FIFA interveio com uma (pelo menos pretendida ou anunciada) decisão salomônica e em 15 de setembro decidiu que Di Stéfano jogaria a temporada 1953/54 para o Real Madrid, a seguinte para o Barcelona e assim por diante até 1957 (uma decisão posteriormente rejeitada pelo Barcelona, que se sentiu prejudicado e em outubro daquele ano, 1953, venderia ao Real Madrid a parte que tinha comprado do clube argentino).

O River respondeu com generalidades ao Barcelona, tentando dar por terminado o assunto entre os dois clubes, em 23 de setembro, bem no dia em que Di Stéfano fez sua estreia com a camiseta do Real Madrid, o primeiro clube em que devia jogar segundo o acordo da FIFA, em um amistoso contra o Nancy da França. É muita coincidência: as mais 30 páginas do arquivo encontrado no River, “Transferência do jogador Alfredo Di Stéfano ao clube de futebol Barcelona”, terminam naquela data, 23 de setembro, o dia zero de Di Stéfano com o uniforme do Real Madrid. Desde então, e depois de 20 anos sem títulos (o Real Madrid não era campeão espanhol desde 1933), o argentino levaria o clube a ganhar oito campeonatos e cinco Copas da Europa entre 1954 e 1964, um marco que mudaria a história do futebol, apesar da existência de documentos empoeirados que mostrem o contrário: que o Barcelona comprou Di Stéfano.

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