Crise no Espírito Santo

Governo do Espírito Santo aumenta a pressão e varia estratégia para por fim à greve da Polícia Militar

Comando utiliza helicóptero para tirar policiais de quartel na capital capixaba Gestão de Temer se alinha a Paulo Hartung para pressionar agentes a voltarem às ruas

Paralisação da Polícia Militar completa oito dias.
Paralisação da Polícia Militar completa oito dias. Tania Rego (EFE)

Para tentar encerrar a greve da Polícia Militar que já dura oito dias, o Governo do Espírito Santo decidiu utilizar novas estratégias para chamar os policiais de volta às ruas. O comando geral da PM convocou, na tarde desse sábado, os agentes para se apresentarem em locais públicos. Dessa forma, eles não precisariam passar pelos quartéis, onde um bloqueio é feito, na entrada dos batalhões, pelo movimento de mulheres e familaires dos agentes acampados em protesto por melhores salários pela categoria.

Cerca de 600 policiais atenderam ao chamado nos municípios de Vitória, Vila Velha, Cariacica, Serra e Cachoeiro, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Na capital capixaba, eles se apresentaram na Rodoviária e na praça oito, no centro da cidade. Os que estavam sem farda não puderam fazer policiamento ostensivo nas ruas. Mas várias viaturas e agentes foram vistos nas ruas fardados.

Alguns policiais militares voltaram às ruas nesse sábado em Vitória.
Alguns policiais militares voltaram às ruas nesse sábado em Vitória.Tania Rego (EFE)

No início da noite, a Polícia Militar adotou ainda outro método: utilizou helicópteros para retirar agentes que desejavam voltar a trabalhar. Cerca de 70 policiais saíram de aeronave do Quartel Central, na região central de Vitória, em uma operação semelhante a ação realizada no Rio de Janeiro neste sábado.

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Apesar do retorno de alguns policiais às ruas, o policiamento não foi totalmente reestabelecido e a paralisação da maioria dos PMs continua. O efetivo no Estado é de 10.000 policiais, mas apenas 2.000 saem de forma escalonada às ruas diariamente. A greve que se prolonga há mais de uma semana desencadeou um caos de violência no Espírito Santo. Vinte mortes foram registradas no Estado apenas entre sexta e a manhã deste sábado. Desde o início da paralisação, 137 pessoas foram assassinadas.

Sem uma perspectiva do fim do impasse, os governos estadual e federal endureceram o tom do discurso para tentar agilizar o fim da greve. Quatro ministros foram enviados pelo presidente Michel Temer ao Espírito Santo para discutir uma saída para a crise de segurança pública instaurada no Estado. Raul Jungmann (Defesa), Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), Antonio Imbassahy (Governo) e o interino José Levi Mello do Amaral Júnior (Justiça) chegaram a Vitória ainda pela manhã. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também esteve na capital capixaba, mas não falou com a imprensa. As visitas aconteceram um dia depois de um acordo feito pelo governo de Paulo Hartung e associações da Polícia Militar fracassar.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmou que a normalidade já está sendo estabelecida no Estado com a presença da Força Nacional e garantiu que as tropas ficarão “o tempo que for necessário” até a resolução do impasse. Ele pediu, no entanto, que os policiais voltassem para as ruas o mais rápido possível e fez um apelo para que as mulheres que protestam por eles não mantenham os maridos “numa direçao contraria a legalidade”.

A comitiva deixou claro que os militares que não regressarem aos trabalhos serão punidas e se iludem se pensam que sairão impunes. O ministro da secretaria do Governo, Antonio Imbassahy (PSDB), afirmou que a base de aliados do presidente Michel Temer não apoiará nenhum tipo de anistia aos “amotinados”. “Existe movimentações iludindo pessoas que estão em greve como se fosse assim, de acontecer uma greve e não vai ter nenhum tipo de penalização”, afirmou em coletiva de imprensa no Palácio Anchieta, sede do governo do Espírito Santo. Na sexta-feira, o governo capixaba tinha anunciado que já havia aberto o indiciamento de 703 policiais militares, número que ainda pode aumentar.

Preocupação com efeito dominó

A pressão do Governo Federal para acelerar o final da greve revela também a preocupação de que esse tipo de mobilização migre para outros Estados, como já aconteceu de forma tímida no Rio de Janeiro. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Sergio Etchegoyen, disse que a Abin está acompanhando a situação de todos os estados. “O GSI acompanha todo o cenário nacional através da Agência Brasileira de Inteligência. Ela tem monitorado, e nós não temos em nenhum outro estado a gravidade que se apresenta aqui no Espírito Santo”, afirmou.

Segundo o ministro da Defesa, o governo está acompanhando mais de perto também a situação do Rio, mas garantiu que o estado está sob controle. “Eu tive a informação de que 97% do efetivo está na rua. O Rio de Janeiro está sob controle. Nós temos prontidão para qualquer eventualidade no Rio de Janeiro”, disse.

O governador em exercício, César Colnago, lamentou que o acordo firmado entre representantes do Governo e associações de policiais, na sexta-feira, não tenha surtido efeito para acabar com a paralisação, mas garantiu que o executivo reabriu o diálogo.

Após reunião com representantes do Ministério Público do Estado, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgou uma nota avaliando a possibilidade de postular a federalização de crimes, como o de motim. Caso a medida seja aprovada, os crimes passariam a ser julgados pelo tribunal militar da União, com “tramitação mais rápida e penas que costumam ser mais severas”, segundo o ministro do Gabinete de Segurança Institucional.