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Cidades do Espírito Santo vivem clima de ‘estado de sítio’, paralisadas pelo medo da violência

Famílias de PMs impedem saída de carros dos batalhões de Vitória como pressão por reajuste

Caos no Espírito Santo
Soldados do exército revistam pessoas nesta segunda, em Vitória. EFE
Vitória (Espírito Santo)

“Nunca na vida vi Vitória desse jeito”, desabafa Rosenir Teixeira. O aposentado é um dos poucos a se aventurar pelas ruas da capital capixaba após a onda de violência dos últimos quatros dias no Estado do Espírito Santo, que registrou mais de 70 assassinatos e dezenas de arrombamentos. Quem caminha pelas principais avenidas de Vitória, em plena terça-feira, tem a sensação de se deslocar por uma cidade adormecida ou em pleno feriado. A maioria das lojas, supermercados e padarias está com as portas fechadas, e o movimento dos carros pelas ruas é tímido. Até a praia, em pleno verão, perdeu seu público. Mas o que pesa no ar é um sentimento de insegurança. Quem se assoma nas janelas do apartamento, ou caminha pela rua, carrega um olhar de preocupação, de quem está infringindo um toque de recolher forçado, em uma cidade sem policiamento.

Há mais de quatro dias, o Espírito Santo está sem o contingente de policiais militares nas ruas por conta de diversos protestos de grupos de mulheres e familiares dos policiais que bloqueiam as saídas dos batalhões de diversas cidades. O movimento reivindica reajuste salarial dos policiais —que não acontece há sete anos— e o pagamento de auxílio-alimentação, periculosidade, insalubridade e adicional noturno. Nenhum policial militar participa do protesto, já que são proibidos pelo Código Penal Militar de fazer greves ou paralisações, mas eles têm respeitado a decisão de não sair às ruas impostas pelas mulheres e manifestantes. Mesmo assim, o protesto foi considerado ilegal pela Justiça.

O protesto dos familiares dos PM divide a população. Enquanto se mantém em frente aos batalhões, ouvem buzinas de solidariedade de motoristas que passam por ali, mas também xingamentos de quem está vivendo dias de caos. Apesar de concordar com a necessidade do aumento dos salários dos policiais militares, alguns moradores são contra a paralisação dos PMs. "Na verdade, o que estamos vendo aqui é uma greve dos militares velada. Como eles não podem fazer greve, colocam a família para se instalarem aqui na frente do quartel. Estamos falando de segurança pública", afirma o taxista Fernando Antonio. Para ele, se os militares quisessem mesmo trabalhar não teriam problema em tirar "meia dúzia de mulheres" do portão do batalhão.

O aumento dos homicídios foi tanto que o Departamento Médico Legal de Vitória ficou superlotado

A empatia do taxista é limitada porque a falta de policiamento desencadeou um caos em sua cidade e fez com que a prefeitura de Vitória determinasse a suspensão do início do ano letivo na rede municipal de ensino, assim como o fechamento de todas as unidades de saúde. Escolas e faculdades particulares também interromperam suas atividades. A circulação dos ônibus chegou a ser interrompida no fim da tarde de segunda-feira, mas foi parcialmente retomada nesta terça-feira, segundo o sindicato dos Rodoviários (Sindirodoviários-ES). Só na segunda-feira, mais de 200 atendimentos foram feitos na Delegacia de Roubos e Furtos de Veículo. O aumento dos homicídios foi tanto que o Departamento Médico Legal (DML) de Vitória ficou superlotado. Na tarde de segunda havia 12 corpos nas geladeiras e 16 no chão.

Familiares de PMs barram entrada e saída de veículos em um dos batalhões de Vitória.
Familiares de PMs barram entrada e saída de veículos em um dos batalhões de Vitória.

Segundo o Sindicato de Policiais Civis do Espírito Santo, mais dez mortes violentas foram registradas na última noite, totalizando 75 homicídios desde sábado. A secretaria de segurança do Estado, entretanto, não confirma os números.

Para tentar conter a onda de violência, o Governo Federal enviou 200 agentes da Força Nacional de Segurança para a grande Vitória, após um pedido de ajuda do Governador em Exercício, César Colnago (PSDB) —o titular, Paulo Hartung, está internado em São Paulo. A chegada dos agentes, no início da noite de segunda-feira, foi comemorada pelos moradores. Muitos têm preferido ficar "presos" dentro de suas casas temendo a violência que tomou Vitória. A expectativa é de que mais 1.000 agentes cheguem, ainda nesta terça-feira, ao Estado, segundo o secretário de Segurança Pública capixaba, André Garcia, informou à Record TV. "Estamos garantindo a segurança para que a vida volte ao normal", disse.

"O mais estranho é a sensação de medo a todo momento", desabafa uma moradora da capital capixaba 

A presença da Força Nacional, no entanto, não foi capaz de inibir a violência instaurada na capital. Na noite de segunda-feira, por exemplo, uma loja de eletrodoméstico que a reportagem visitou nesta manhã, foi arrombada e saqueada por nove pessoas. Todos eles fugiram. Nos últimos dias, os moradores de Vitória têm perdido o sono de preocupação, trocando vídeos e mensagens com cenas filmadas por quem presenciou o caos. "No domingo, o WhatsApp começou a borbulhar de vídeos de violência, fotos, áudios, todo mundo falando para ninguém sair de casa. Ficamos com muito medo, começamos a escutar tiros", conta Lucia Vasconcellos, de 30 anos, que mora em Vitória. A consultora de marketing chegou a sair para trabalhar na segunda-feira, mas voltou para casa na hora do almoço. Desde então tem permanecido em casa e não tem planos de sair até que se sinta mais segura. "O mais estranho é a sensação de medo a todo momento. Qualquer barulho de moto você assusta, carro que passa você fica atento", conta.

"Queremos o básico, eles não podem ter o pior salário do Brasil", afirma a esposa de um policial militar 

A produtora Tatiana Martinelli, de 40 anos, também tem vivido dias de tensão dentro de casa em Vila Velha, na Grande Vitória. Ela veio de São Paulo visitar a mãe nesta semana e se surpreendeu ao encontrar a cidade em um cenário de caos. "Do aeroporto até Vila Velha vi ônibus apedrejados, pessoas com pedaços de madeira na mão nos pontos de ônibus e um carro vindo na contramão fugindo de um assalto", conta. A mãe de Tatiana, que é dona de uma fábrica de roupas, no bairro da Glória, teve que fechar o local e as quatro lojas que possui após a explosão de saqueamentos na cidade. Nesta terça-feira a família também optou por manter os locais fechados, seguindo a recomendação de entidades ligadas ao comércio.

Apesar dos transtornos, as mulheres que se encontram em frente aos batalhões defendem o movimento. Fernanda Teixeira, de 31 anos, mulher de um PM, garante que não são os policiais que estão de greve. “Somos nós que estamos lutando pelos direitos mínimos deles", diz junto a um grupo de mulheres no 4º Batalhão da PM de Vila Velha. Elas estão acampando no local desde sexta-feira e asseguram que só irão deixar o local quando houver um "realinhamento salarial" dos policiais. "Queremos o básico, eles não podem ter o pior salário do Brasil", explica. De acordo com a Associação de Cabos e Soldados da PM e Bombeiro Militar do Estado (ACS), o salário base de um policial no Espírito Santo é de 2.600 reais, enquanto a média nacional chega a 4.000 reais.

Para Fabio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, e que mora em Vila Velha, a situação por que passa seu Estado é um microcosmo do que acontece em outros pontos do país, como o Rio de Janeiro, onde há pressão de servidores por melhores condições. “O Governo não negocia, porque qualquer vitória dos PMs abrirá as portas para uma onda reivindicatória do funcionalismo público. A política de austeridade brasileira já tem, no ES, o seu laboratório de equívocos”, postou no Facebook.

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