Ícone carioca, o Hotel Nacional de Niemeyer ressuscita após 22 anos

Empreendimento reabre sus portas no bairro nobre de São Conrado, após uma laboriosa restauração, e pretende disputar o mercado hoteleiro de luxo ampliado com a Olimpíada

Mais informações

Fechado em 1995 e comprado novamente em 2009 por um grupo de investidores que pagou por ele 85 milhões de reais, o hotel acaba de reabrir suas portas sob a bandeira mais luxuosa do grupo espanhol Meliá. Nele, ainda não se hospedam estrelas do porte de Liza Minneli, Chet Baker, James Brown ou Tom Jobim, que tornaram o antigo Hotel Nacional um ícone, mas o objetivo é concorrer em luxo e clientela com os mais refinados hotéis do Rio, o Copacabana Palace e o Hotel Fasano. Por enquanto, Gisele Bündchen, sob a lente do fotógrafo Mario Testino, já prestigiou o local.

Com 413 quartos distribuídos em um gigantesco cilindro de 34 andares e uma única fachada de vidro, o hotel reabre com um desafio: recuperar o glamour perdido em um Brasil em recessão e em um mercado hoteleiro local que chegou à Olimpíada com mais de 50.000 vagas. A competência é voraz, badaladas redes hoteleiras recém instaladas na Barra de Tijuca, cenário principal dos Jogos, oferecem quartos a preços relativamente baixos e o mercado brasileiro está atropelando as expectativas dos empresários do setor. “No Réveillon a demanda nos hotéis do Rio foi menor da esperada, mas a gente tenta ver essa concorrência de uma maneira positiva. Rio está mais apto agora para receber um turismo de qualidade o que deve incentivar a cidade como destino. Os Jogos passaram uma imagem muito boa e isso ajuda em várias frentes no mercado internacional”, avalia o diretor do hotel, o italiano Cristian Bernardi. Abrindo aos poucos e com promoção especial, dormir uma noite no Grand Meliá Hotel Nacional custa 700 reais.

Das janelas do edifício é possível vislumbrar os vários Rios que convivem – às vezes harmonicamente, às vezes nem tanto – na cidade. Dependendo da orientação do quarto vê-se a praia de São Conrado e seus surfistas, a maré de esgoto cinza que nos dias de chuva toma o mar e suas correntes, a gigantesca favela da Rocinha, onde moram 30% dos funcionários do hotel, a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita, cartões turísticos do Rio, e a Mata Atlântica que cresce selvagem por onde ainda permite o concreto das casas e prédios da vizinhança. Com chuva ou calor, o hotel garante, sempre haverá alguém limpando essas janelas, prezado tesouro de um hotel de planta circular.

A restauração seguiu ao máximo os preceitos de Oscar Niemeyer, que sempre privilegiou as curvas e os espaços diáfanos nas suas obras. O lobby é uma sala de 3.000 metros quadrados sem uma coluna e onde, tirando livros e umas lâmpadas retangulares de chão, não se encontra uma singela linha reta. “Por ser um projeto tombado foi solicitado que fosse mantida a visão que Niemeyer teria tido. Por isso há uma preocupação muito grande para não obstruir a vista, pela liberdade de visão e pelas curvas”, explica a arquiteta responsável pela recuperação do interior do hotel, Debora Aguiar.

Numa de suas paredes curva do lobby repousa impecável um painel de 168 peças de concreto do artista argentino-baiano Carybé, que havia sido leiloado irregularmente em 2007 a preço de banana, 1.200 reais. A obra, de valor incalculável, segundo a assessoria de imprensa do hotel, foi recuperada pelos investidores entre a poeira de uma tecelagem em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. “Estava praticamente destruída”, lembra Aguiar. Teve melhor sorte a escultura da sereia de bronze de Alfredo Ceschiatti, mesmo autor da escultura A Justiça na fachada do prédio do STF, desenhado por Niemeyer. A peça também foi leiloada irregularmente por 25.000 reais e foi parar, bem conservada, numa casa em Botafogo. Recuperada por ordem judicial, hoje preside a piscina de braços em alto e olhando para o mar. Já a lâmpada de papel machê de Pedro Corrêa de Araújo, que imita caudas de cerejas entrelaçadas, nunca saiu do teto do hall, mas o tempo tinha feito estragos no material. "Foi um absurdo manter abandonado um patrimônio desses durante tanto tempo", lamenta a arquiteta.

A estrutura sem pilares do lobby sustenta ainda o jardim de mais de 2.000 metros quadrados desenhado na época pelo renomado paisagista Burle Max, idealizador também do Parque do Flamengo. Com forma de cauda de sereia e ainda em recuperação, o jardim conta com 30 espécies autóctones e um espelho de água obscuro que remete ao mangue. “A recuperação do Hotel Nacional é um grande marco da vitalidade da hotelaria carioca assim como uma das maiores obras de restauração da arquitetura moderna no mundo”, relata Washington Fajardo, ex -presidente do Instituto Rio Patrimônio que acompanhou a obra de perto pois o prédio é um bem tombado desde 1998.

O hotel, inaugurado em 1972, era um orgulho nacional. Seu antigo centro de convenções, hoje também em reconstrução e com planos de sustentar uma nova torre contemplada no projeto de Neimeyer, acolhia eventos de prestígio, de seminários de doutores a engenheiros. Seus quartos hospedavam políticos como o então presidente Fernando Collor de Mello, e seu teatro era cenário do Festival de Cinema do Rio e do Free Jazz Festival, que levaram aos seus vestíbulos figurões como Ray Charles ou Pedro Almodóvar.

Apenas seis anos depois da sua inauguração, o dono do hotel e fundador do Grupo Horsa morreu deixando um império órfão. O argentino José Tjurs, que tinha começado sua carreira no Rio como taxista na praça Mauá e era elogiado por seu talento empresarial, delegou seus empreendimentos no seu único filho, Leo Henrique Tjurs, de quem sempre apontaram-se suas carências como bom gestor. Já nos anos 90, o próprio empreendimento alertava no Jornal do Commercio das dificuldades. Um anuncio aos investidores elencava a “inflação elevada” no cenário nacional e “a divulgação pela imprensa do nível de poluição das águas do Rio e o baixo nível de segurança” como as causas de ter se reduzido “bastante” a taxa de ocupação no primeiro trimestre de 1990. Após uma longa agonia, o Grupo Horsa acabou falindo em 1993.

Duas décadas de esquecimento depois, os quartos voltaram a cheirar a novo e os funcionários, de eletricistas a garçons, cumprimentam os primeiros hóspedes com a mão no peito, à altura coração. O gesto, característico dos melhores hotéis da rede espanhola, enjoa alguns mas, assim como o velho hotel, tem um objetivo: ser difícil de esquecer.