O sexo lésbico das lagartas que não precisam de machos

Em algumas espécies de lagartixas cauda-de-chicote só há fêmeas. Elas se viram sozinhas

Uma lagartixa fila de chicote.
Uma lagartixa fila de chicote. (Pixabay)

Na mitologia grega as amazonas eram um povo ajustado e governado integralmente por mulheres guerreiras. Uma vez por ano, saíam de seus confins para se reproduzirem com a tribo vizinha. O macho, entendido como um semental, era prescindível depois de completado o acasalamento. Se nascesse uma menina era treinada na caça, nos trabalhos do campo ou na arte da guerra. Os meninos tinham menos sorte. Assim, geração após geração, o reino era povoado unicamente por mulheres. Talvez as amazonas nunca tenham existido, mas no mundo animal subjaz oculta sua lenda. Em certas espécies de lagartixas só há fêmeas. Não precisam de machos nem sequer para a reprodução.

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Entre o México e o sudoeste dos Estados Unidos, as lagartixas-de-cauda-de-chicote se arranjam sozinhas para ter descendência sem fertilização masculina. Trata-se de uma concepção virginal chamada partenogêneses. Embora seja pouco comum entre vertebrados, animais tão díspares como os dragões de Komodo e certos tubarões-martelo também podem reproduzir-se na ausência de machos. Algumas espécies de lagartixas-de-cauda-de-chicote, sendo todas fêmeas, não têm opção para procriar sua espécie. Curiosamente, prescindem da cópula, mas não do ritual de acasalamento. Dito de outro modo, praticam sexo lésbico. Uma delas, estimulada por um forte aumento de progesterona, assume posição de macho e monta na outra, ao mesmo tempo que a morde com determinação e sangue frio. Aparentemente, um ato sexual sem fins reprodutivos. Não obstante, estudos científicos demonstraram que as fêmeas montadas são mais férteis que as celibatárias. Parece que a castidade é pior opção e que fingir a cópula estimula a ovulação. Esse ato sexual vem por herança. São comportamentos reminiscentes de seus antecessores fornicadores.

As espécies de lagartixas em que há somente fêmeas se originam por hibridismo. Duas espécies diferentes de lagartixas-de-cauda-de-chicote se cruzam dando à luz uma terceira. Segundo a definição clássica os híbridos são estéreis, mas neste caso se desencadeia a partenogêneses: as fêmeas começam a se replicar. Partindo de uma só mãe, eclosão após eclosão, pode surgir uma horda de amazonas reptilianas. Uma estratégia que lhes permite aumentar em número e conquistar novos habitats. Por outro lado, os organismos geneticamente idênticos são mais vulneráveis: uma doença ou uma mudança ambiental podem acabar com todos eles. Mas essas pequenas lagartas têm um ás sob as escamas. Na formação dos óvulos, podem combinar cromossomos irmãos em vez de cromossomos homólogos. Este acasalamento incomum lhes proporciona diversidade genética, ou seja, não são estritamente clones. Em resumo, as fêmeas híbridas levam o melhor de cada par: variedade e autoreprodução. Além disso, chegado o momento, tampouco renegam o sexo oposto.

Às vezes, entre uma fêmea híbrida e um macho de outra espécie há química. Do romance mestiço, por sua vez, pode surgir outra espécie híbrida. As misturas de misturas têm dotações cromossômicas muito estranhas com três jogos completos de cromossomos, até mesmo quatro. Tal foi a surpresa desta descoberta que os doutores Peter Baumann e William B. Neaves quiseram imitar a natureza no laboratório. Em 2008, acasalaram um macho de Aspidoscelis inornata e uma fêmea de Aspidoscelis exsanguis. Da soma cromossômica do espermatozoide e do óvulo, um mais três, surgiu uma nova espécie, à qual chamaram de Aspidoscelis neavesi, com quatro jogos de cromossomos. Normalmente, as células sexuais têm a metade de cromossomos que o restante das células, mas as fêmeas híbridas pulam a norma e têm os mesmos. Daí as possíveis combinações.

Graças à duplicação cromossômica extra, as lagartixas híbridas podem recombinar cromossomos irmãos e ter no mínimo o mesmo jogo de cromossomos que seus progenitores sexuais. Por sua vez, destes, por serem espécies diferentes, herdam um repertório genético rico já no início da nova linhagem. Entre uma coisa e outra, a variedade de lagartas, em nenhum caso, está em jogo. As lagartixas-de-cauda-de-chicote exemplificam qual é o sexo frágil; as fêmeas têm o poder da perpetuação. Os machos não são necessários nem para a reprodução nem para o sexo nem para a diversidade genética. Seu matriarcado honra as amazonas, sacode as bases da sexualidade e desequilibra a definição de espécie.

Oscar Cusó (@oscarcuso) es biólogo, director y guionista de documentales de naturaleza, ciencia e historia. Ha trabajado en diferentes series y largometrajes para cadenas como la BBC, National Geographic o TVE.

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