‘Desventuras em Série’: onde finais felizes não existem

Neil Patrick Harris e Barry Sonnenfeld adaptam na Netflix as histórias juvenis de Lemony Snicket

Malina Weissman e Neil Patrick Harris.
Malina Weissman e Neil Patrick Harris.Joe Lederer / Netflix

Em Desventuras em Série – e o título já adverte, não é que nós quiséssemos ser agourentos – fala-se da triste história dos irmãos órfãos Baudelaire e seu horripilante tio Olaf, um conde de múltiplas caras (melhor dizendo, disfarces desastrosos) que quer se apoderar da fortuna familiar, até mesmo matando, se for preciso. A série se baseia nos livros assinados por Lemony Snicket, pseudônimo do escritor Daniel Handler (também produtor da série). A ficção adaptará os 13 livros de Snicket –publicados entre 1999 e 2006– durante três temporadas, sendo dois capítulos por livro.

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Os oito episódios da primeira parte foram gravados quase por completo em interiores nos novos e imponentes estúdios Ironwood, de Vancouver, Canadá, no primeiro semestre de 2016. Passear por seus sete cenários, o maior deles com 2.300 metros quadrados, e falar com os responsáveis é como ver confortavelmente os extras de uma edição de luxo de um DVD. Técnicos de efeitos especiais, maquiadores, diretores de arte, produtores e atores explicam seu trabalho. Cheira a madeira, pintura e serragem. Quando um espaço decorado já não vai voltar a ser usado, é destruído para dar lugar ao seguinte. No dia em que o EL PAÍS visita a filmagem, convidado pela Netflix, é possível caminhar pelo interior das casas de abrigo pelas quais terão de passar os Baudelaire, a parte de dentro de um barco, uma caixa forte de um banco e um moinho. O tráfego de trabalhadores que vão de um set a outro ou que passam pela oficina de adereços, pela de construção ou o de pintura é constante. Escutam-se serras, marteladas e máquinas.

Aparece para a entrevista Neil Patrick Harris (Albuquerque, EUA, 1973), o mulherengo Barney Stinson de How I Met Your Mother. Vai a caminho do trailer de maquiagem –hoje o conde Olaf terá de se disfarçar de Stefano, um suposto herpetólogo de barba comprida, óculos de fundo de garrafa e calvo­–, mas prefere parar primeiro para falar com os jornalistas. Usa uma boina que esconde uma cabeça totalmente careca. “Queria ser o máximo possível fiel ao material original. Não li os livros quando saíram e, não sei por quê, são incríveis. Eu busco o humor sardônico e ferino, e o que Daniel Handler escreveu é absolutamente hilariante e muito específico em seu estilo, quase tipo Edward Gorey”.

Olaf como o capitão Sham e o senhor Poe.
Olaf como o capitão Sham e o senhor Poe.

Quando Harris é lembrado sobre o filme de 2004 de Jim Carrey, o ator deixa claro que só foi vê-lo depois que começou a gravar a série. “Não queria que influenciasse o que eu queria conseguir, e ao mesmo tempo não queria sentir que tomava decisões só para ser diferente do que Carrey fez. A única coisa com a qual me preocupei foi que os disfarces de Olaf não se parecessem com os que foram escolhidos para o filme”, conta o ator. "Carrey tem seu próprio estilo de atuação, e eu trato de ser o mais respeitoso possível ao texto que Daniel escreveu.” Para obter seu próprio Olaf, um personagem tenebroso e às vezes ridículo, o intérprete revela suas inspirações: “Muito do [ator] Alan Rickman, com essa voz, bastante do Jack Nicholson no apogeu, um pouquinho de Willie Coyote e de forma geral de um serial killer”.

O tio Monty e Olaf disfarçado de Stefano em 'Desventuras em Série'.
O tio Monty e Olaf disfarçado de Stefano em 'Desventuras em Série'.

Depois do almoço, é hora de assistir à gravação de uma cena com Harris e as duas crianças protagonistas mais velhas, Malina Weissman (Violet) e Louis Hynes (Klaus). Como ocorre nesses casos, é um processo tedioso, com várias repetições até obter a melhor tomada possível, e de diferentes ângulos. A gravação serve para observar que todos os cenários têm seus detalhes minuciosamente recriados, como o criadouro de répteis do tio Monty, um pequeno palácio de vidro cheio de livros, gaiolas e objetos tribais do mundo inteiro. Como explica Dan Hermansen, um dos diretores de arte, cada livro, jornal ou desenho que aparece na tela é original, pois objetos reais não podem ser usados devido a questões de direitos. Como é habitual em produções desse tipo, grande parte dos móveis usados foi comprada via Internet ou em leilões.

Klaus, Violet e Olaf.
Klaus, Violet e Olaf.

Como se trata de uma série voltada para o público infanto-juvenil e para adultos que não querem crescer, pretendíamos concluir esta reportagem com algo feliz, mas é impossível. Leve em conta que um dos protagonistas é um assassino que tenta matar três crianças – muito inteligentes e engenhosas, isso lá é verdade. Assim Harris se justifica: “Rodei dois filmes dos Smurfs, que claramente eram para crianças, e então fiquei preocupado de que os pais fossem amaldiçoar meu nome depois de vê-los muitas vezes, porque o humor era destinado aos menores. Nesta série, o humor está destinado a gente mais velha. Como Conde Olaf, estou ativamente tentando matar crianças. Vamos ver como reagem a isso”. Mas talvez, angustiados leitores, se você tiver chegado até aqui, pelo menos se anime a acompanhar os pobres Baudelaire em suas desventuras.

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