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Top 10 do WhatsApp, bullying e trampolim das ‘famosinhas’ da rede

Vídeos que fazem ranking da atividade sexual de meninas são desafio para educadores nas escolas públicas

Maria Carolina estudando em casa.
Maria Carolina estudando em casa.

Maria Carolina* tem 14 anos e se considera uma boa aluna. Exibe um boletim com todas as notas acima da média. Ela deseja ser médica, veterinária ou modelo, ainda não se decidiu. A maioria dos seus amigos na escola são garotos com a média de idade parecida. Até aí tudo normal não fosse pelo fato de Maria Carolina ter nada menos do que 5 mil amigos no Facebook. A maioria, segundo ela, são homens e mais velhos. A marca faz da garota é uma das “famosinhas do Facebook”, uma nova categoria que se estabeleceu e agita a convivência nas escolas públicas, se tornando mais um desafio para pais e educadores ao lidar com a intensa vida dos adolescentes nas redes sociais.

Maria Carolina admite que adiciona pessoas que não conhece pessoalmente, uma conduta recriminada por sua mãe, Maria Lúcia. Parte de sua “fama” cresceu depois que, com 12 anos, ela apareceu em um vídeo Top 10 da sua escola. Os Top 10 são uma espécie de ranking em vídeo, cuja trilha sonora é geralmente um funk com versos sexualizados e pornográficos. Enquanto a música toca, aparecem fotos de meninas, e algumas vezes também de garotos - a grande maioria apontado como gays - normalmente retiradas de seus perfis em redes sociais. As legendas de contexto sexual mesclam a exaltação, hipersexualização ou acusação de promiscuidade e humilhação.

No primeiro [vídeo], eu não lembro muito, mas falaram que eu ‘arrastava as mina do Top 10’. E o segundo vídeo colocaram ‘Paga de santa, mas já comeram no shopping”, conta Maria Carolina. Márcia Fonseca*, 18 anos, também apareceu nos Top 10, mas é mais reticente e incômoda com o assunto. Nenhuma delas sabe indicar quem as incluiu no vídeo, mas ambas não suspeitam de meninos, mas de outras garotas com as quais tiveram problemas de convivência.

Maria Carolina recusa o título de "famosinha" e não se preocupou por ter aparecido no vídeo. “Eu sou uma moça de família e a pessoa que perdeu o tempo me difamando é um monstro de ser humano, eu estou com a minha consciência limpa”. Ela conta que teve apoio de sua família e de seu namorado. Já Márcia trancou a matrícula na faculdade de Pedagogia, na qual ingressou após sair da escola. Mas afirma que pretende voltar em breve. Ela recebeu o vídeo pelo WhatsApp, enviado por uma amiga, e diz não conhecer nenhuma das outras 9 meninas que figuram no ranking.

Segundo a pesquisadora do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade da USP, Belinda Mandelbaun, são esperadas diferentes percepções sobre o fenômeno. Ela diz que a reação com a aparição no vídeo “depende da menina, da sua configuração familiar e psicológica”. Ela se preocupa com abordagens conservadoras nas famílias que podem acabar punindo de novo quem aparece.

Há pelo menos dois anos o tema dos vídeos, que geralmente são divulgados através do WhatsApp, por grupos, ou enviados um a um, ronda os adolescentes. Os Top 10 se popularizam no fim de 2014.  De lá para cá, a prática se naturalizou e só tem crescido. Ao longo do ano, em algumas escolas surgem mais de um ranking. Também já existem seus correlatos: “as dez mais putas” da rua, bairro, cidade e festas. Os vídeos do tipo também estão no YouTube. No caso da maior plataforma de vídeos do mundo, os Top 10 são suspensos por conta dos direitos autorais das músicas utilizadas para acompanhar as imagens, mas quase nunca pela exposição de menores. A outra face do problema é o Top 10 ser usado como vingança entre meninas, uma espécie de moeda de troca virtual para resolver rivalidades e disputas. Há ainda outro aspecto, o da corrida por "likes", no qual ganha pontos a exposição e a autoexposição.

Em 2015, veículos de imprensa noticiaram esses rankings pois foi reportado que algumas garotas que entravam nas listas tentaram cometer suicídio. Entre as reportagens, estava uma feita pelo portal R7, que descrevia tentativas de suicídio e a atitude das famílias. Maria Carolina e Márcia Fonseca contam que receberam apoio de seus pais, mas nem sempre é assim. Há responsáveis pelas jovens que questionam sua conduta, já que "se ela apareceu, é porque aprontou", como afirmou ao EL PAÍS a mãe de uma adolescente de 12 anos que apareceu em um vídeo. A mulher pediu para não ser identificada e não permitiu que sua filha fosse entrevistada.

O tema nas  escolas

As escolas se mostram ainda pouco preparadas para lidar com a questão. Alguns professores com quem a reportagem conversou afirmam desconhecer a prática, enquanto outros, mesmo conhecendo o conteúdo difamatório e degradante dos vídeos, escolhem não se envolver.

No plano de gestão da Escola Estadual Simon Bolívar, em Diadema, uma das ações a ser implantada é “desenvolver projetos que envolvam ética, cidadania, sexualidade, violência, qualidade de vida, meio ambiente, manifestações culturais, artísticas e desportivas”. Ainda assim, o tema dos Top 10 causou controvérsia entre alunos e a direção.

Beatriz Lelis,  de 18 anos, conta que era uma das diretoras do grêmio na escola quando foi chamada para uma reunião com a diretora Nilza Sizuca Zerwas. A estudante sabia de maneira muito próxima da questão dos Top 10 - uma prima sua, de 12 anos, já havia aparecido em um desses vídeos. Segundo a aluna, durante a conversa, a diretora pediu para que ela falasse com as outras estudantes para que as meninas fossem vestidas de uma forma comportada para a escola. A diretora, diz a ex-gremista, afirmou que a culpa de as meninas aparecerem nos vídeos é da roupa que elas usam. Nilza Sizuca Zerwas nega ter dito isso.

A secretaria Estadual de Educação, diz que, após ser registrado o episódio dos Top 10 na escola, os pais foram chamados para uma reunião e a aluna identificada como a responsável pelo vídeo foi expulsa. Além disso, teria acontecido um debate sobre o posicionamento da mulher na sociedade. De novo, um choque de versões: os alunos alegam que o debate foi, na verdade, uma aula normal de filosofia.

Já Maria Carolina diz que na Escola Estadual Pedro Madóglio, onde ela estuda, também em Diadema, nenhum professor ou representante da escola jamais conversou com ela sobre o fenômeno do Top 10. Ela conta ainda que as meninas recebem suspensão se não vestidas adequadamente, mas nenhuma punição semelhante é dada a nenhum garoto.

A pesquisadora Mandelbaun, da USP, argumenta que o Estado deveria investir mais em políticas públicas de educação sexual para os adolescentes. “A escola deveria ser um espaço de reflexão para mudar essa mentalidade machista e patriarcal”, afirma. Para conter o fenômeno, ela diz, é hora de pensar em uma responsabilização legal das adolescentes e dos adolescentes que expõem colegas na Internet.

* O nome das entrevistas foi mudado, a pedido delas.

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