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Pedro Malabia: “O futebol feminino é um valor agregado para um clube”

O diretor de futebol feminino do Campeonato Espanhol analisa os desafios da Liga Iberdrola

Malabia, responsável pelo futebol feminino na Liga Espanhola.
Malabia, responsável pelo futebol feminino na Liga Espanhola. EL PAÍS

“Entramos na sede da Liga em 2015 e saímos em 2025”, dizia Lola Romero, presidenta do Atlético de Madrid Féminas, quando, em outubro do ano passado, se criou uma associação de equipes femininas impulsionada pela Liga Espanhola. O projeto surgiu a partir da criação de um departamento de futebol feminino na Liga, que definiu como objetivo dar um impulso a um produto com pouca visibilidade e inexplorado. Para dirigir essa área foi designado Pedro Malabia, principal criador de um time no Colégio Alemão de Valência, com sua posterior transformação na equipe feminina do Valencia. Com 18 anos de experiência no futebol feminino, Malabia teve de “tirar leite de pedra”.

Pergunta. A Federação espanhola é dona do campeonato espanhol feminino. Como é a convivência entre as duas organizações?

Resposta. Em nenhum momento nós quisemos concorrer ou nos imiscuir no campeonato. A única coisa que queríamos fazer era acrescentar algo, e, nesse sentido, respeitamos totalmente a questão da propriedade da competição. A Liga tinha uma responsabilidade, já que 21 clubes tinham futebol feminino e havia interesse de outros em criá-lo também. Era um serviço que a Liga tinha de prestar aos seus associados. Além disso, acreditamos fortemente no potencial de seu desenvolvimento.

P. O desejo da LFP é organizar a Liga de futebol feminino?

R. Não. A legislação esportiva deixa isso muito claro. Trata-se de um torneio da Federação Espanhola de Futebol. O que nós queremos é contribuir para que eles se envolvam nas decisões sobre o futebol feminino.

P. Por que o Barcelona, o Athletic e a Real Sociedad não entraram para a associação?

R. Quando começamos, cada clube tinha sua própria agenda em relação a decisões internas. Não era algo que tivesse a ver com o futebol feminino. Além disso, são três clubes pioneiros. Participaram de reuniões, foram convidados. Acredito que se trata de uma questão política que logo será resolvida.

P. Depois de todos esses anos sob o guarda-chuva da Federação, vem a Liga e consegue um bom patrocínio com a Iberdrola.

R. Não é mérito da Liga. É resultado do fato de que o trabalho foi realmente bem feito. Só faltava alguém que lhe desse um empurrão, que apostasse nele de verdade, que o divulgasse, e acredito que tudo acabou confluindo para isso.

P. Há receitas pelos direitos de transmissão na TV na Liga Iberdrola (a liga espanhola de futebol feminino)?

R. Ninguém está disposto a pagar por esses direitos de imagem de um produto que ainda está sendo criado. Era muito importante, como parte da estratégia, obter visibilidade. Isso nos traz uma oportunidade para expor o produto.

P. Quantas jogadoras sem contrato havia antes?

R. O problema é que a informação que era disponível antes não estava clara. Muitos clubes não tinham nem sequer pessoal ou conhecimento suficiente para manter uma gestão profissional. Nós ajudamos os clubes a criarem essas estruturas. Eles precisam contratar assessoria contábil e financeira ou ter alguma pessoa que cuide dessa questão. No ano passado, a situação ainda era de que muitos não sabiam muito bem como construir um orçamento. Todas as jogadoras tinham contrato. Algumas tinham acordos de remuneração, ou cada clube fazia da melhor forma possível, mas entendemos que isso tinha um fim: qualquer pagamento que é feito a uma atleta precisa ter um contrato por trás.

P. Houve alguma resistência por parte dos clubes?

R. Alguns estavam assustados com que o se colocava adiante. Adaptaram-se perfeitamente e estão cumprindo tudo. Não há dívidas com a Fazenda nem com a Previdência Social, tampouco com as jogadoras. Nós começamos bem.

P. Quais são as condições para que uma jogadora se sinta uma profissional? O que falta?

R. Faltam muitas coisas. Não há uma varinha de condão que faça tudo mudar em apenas um ano. A palavra profissional é ambígua. Por profissional se pode entender que a pessoa tem um contrato de trabalho, mas ainda temos um longo percurso a percorrer até que as jogadoras possam dizer que se dedicam única e exclusivamente ao futebol. Esse é o objetivo. Além disso, para haver um ambiente e uma competição profissional em todos os níveis são necessários recursos de imagens, campos em boas condições, salários muito mais altos.

P. Qual é o salário médio no futebol feminino espanhol?

R. Eu não saberia dizer agora. Tenho alguns dados, mas não calculamos uma média. No Barcelona ou no Atlético de Madrid, elas recebem mensalmente entre 400 euros (1.400 reais) ou 500 euros (1750 reais) para treinar duas horas por dia. Daqui a alguns meses ou um ano poderemos falar melhor sobre isso. Um dos desafios que temos pela frente é a concretização de um acordo coletivo para o futebol feminino. Isso acabará acontecendo.

P. O futebol feminino é hoje um produto rentável?

R. Na Espanha, não. Mas isso não quer dizer que não se deve investir nele. Uma equipe em construção não é rentável para um clube, mas é absolutamente necessária por tudo aquilo que ela traz. O futebol feminino já é hoje um valor agregado muito importante para os clubes.

P. O Real Madrid terá uma equipe feminina?

R. Essa pergunta deveria ser feita para o Florentino Pérez [presidente do Real Madrid]. Não vamos forçar ninguém. Nosso trabalho é criar um ambiente suficientemente atraente para que todos possam participar.

P. Daqui a cinco anos isso ocorrerá?

R. Tenho certeza de que, conforme o projeto vai avançando, todos os clubes que não têm futebol feminino irão querer estar dentro.

P. O retorno à Espanha de jogadoras como Vicky Losada e Marta Corredera é um bom sinal?

R. A liga na Inglaterra acabou, e elas viram alguma coisa a mais na Espanha para fazer isso e não ir para a França ou para a Alemanha. Tomara que possamos ter as melhores jogadoras espanholas aqui, assim como as melhores estrangeiras também.

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