Hillary Clinton pede que se dê oportunidade para Trump liderar

Perdedora pede a Trump que seja o presidente de todos os americanos

Nos últimos dias, viajando com a candidata democrata a bordo de seu avião de campanha, escrevendo sua história perto da reta final das eleições, escrevi algo sobre Hillary Clinton que me foi lembrado agora por uma colega do EL PAÍS em Madri e que se tornou uma premonição não desejada. “Quando parece que algo lhe vai acontecer, quase por direito próprio, a realidade desarranja os planos de Clinton.”

Hillary Clinton se dirige a seus seguidores depois de perder a corrida para a Casa Branca.
Hillary Clinton se dirige a seus seguidores depois de perder a corrida para a Casa Branca. REUTERS

Nem sua campanha nem a própria candidata poderiam ter imaginado amanhecer na quarta-feira com um presidente Donald J. Trump. Nem em seus piores pesadelos tinham contemplado esse “desarranjo de planos” que foi um choque devastador de trens entre a realidade e o desejo.

A ex-secretária de Estado decidiu não comparecer na noite de terça-feira ao lugar que havia escolhido em Manhattan para celebrar o marco histórico da primeira mulher que conseguia romper o tristemente famoso teto de cristal ao alcançar a presidência do país mais poderoso do mundo.

Ninguém a repreendeu. Pelo menos não no lugar em que já a esperavam em vão seus dedicados seguidores. Não houve palavras feias, ninguém pôs em dúvida que a candidata não pudesse vir. Se as pernas de seus assistentes tremiam e eles não saíam de seu assombro, especulavam que muito provavelmente Hillary Clinton teve de ser atendida por médicos para controlar o choque inicial.

Clinton não deixou muito tempo passar para pedir desculpas a seus seguidores. Já tinha escrito o que seria seu discurso mais difícil. Mas quando faltavam minutos para que a antiga senadora entrasse na sala de um hotel de Nova York, o ambiente parecia o da espera de um funeral. Semblantes caídos, tristes. Abraços de conforto entre lágrimas. Olhares que se evitavam para frear as lágrimas.

Clinton subiu ao palco depois que lhe deu passagem o que teria sido seu vice-presidente em uma Administração Clinton. Tim Kaine estava visivelmente emocionado.

Contida, nesse papel de estadista que tão bem exibiu de ponta a ponta do mundo durante suas centenas de viagens como secretária de Estado, Clinton expôs com clareza o que deseja para os Estados Unidos nos próximos quatro anos.

A ex-secretária primeiro agradeceu a seus seguidores e depois lhes pediu desculpas: “Lamento que não tenhamos ganhado as eleições”. A partir daí, sua mensagem seguinte foi relatar que na noite anterior havia felicitado o presidente eleito, Donald Trump. “Eu me ofereci para trabalhar com ele por nosso país”, disse. “Espero que possa ser um presidente bem-sucedido para todos os americanos.”

A seus emocionados seguidores, Clinton disse: “Donald Trump é nosso presidente e lhe devemos uma mente aberta e a oportunidade de liderar”.

Tranquila, com o roteiro que havia preparado sob controle, Clinton disse saber o quão decepcionados se sentiam os que a escutavam. “Eu também me sinto assim”, afirmou. E a candidata democrata acrescentou: “Mas nossa responsabilidade como cidadãos é continuar fazendo nossa parte para construir uma América melhor, mais forte, mais justa. Sei que vocês farão isso.”

Clinton teve palavras cálidas para Trump, a quem pediu que seja um presidente inclusivo, porque o sonho americano é suficientemente grande para todos: para as mulheres, para os imigrantes, para o coletivo LGBT, para quem tiver deficiências, para todos. "O sonho americano é suficientemente grande para todos, para pessoas de todas as raças e todas as religiões”, defendeu Clinton.

No tom otimista com que quis enterrar sua campanha, a ex-senadora disse que “nossos melhores dias ainda estão por vir”. “Nunca duvidem de que vocês são valiosos, poderosos e merecem todas as oportunidades para perseguir os seus sonhos.”

Hillary, de 69 anos, com já muito poucas possibilidades de voltar a fazer uma nova aposta para a Casa Branca, disse que nada a faria sentir-se mais orgulhosa do que ser a líder de seus seguidores. “Sei que ainda não rompemos esse teto de cristal, mas um dia ele acabará caindo, e espero que antes do que acreditamos.”

Ela finalizou admitindo a decepção que sentia. “Sei o quanto vocês estão decepcionados porque também me sinto assim. Isto é doloroso e será durante muito tempo, mas nossa campanha nunca foi sobre uma única pessoa nem uma eleição, mas por uma América esperançosa e unificada. Ainda acredito na América e sempre o farei”, concluiu. Nem uma lágrima. Com o total controle de suas emoções e seus gestos, Hillary Clinton abandonou o lugar. Não iria acontecer de alguém atribuir suas lágrimas ao fato de ser mulher.

105 dias de um sonho frustrado

Silvia Ayuso

Custou a Tim Kaine não deixar escorrer essas lágrimas que se amontoavam em seus olhos. Esta quarta-feira chuvosa em Nova York refletia como nada mais o ambiente na campanha democrata, rostos entorpecidos e ainda atônitos. Diante deles, aquele que neste dia esperava ter comparecido como vice-presidente democrata eleito teve que apresentar a candidata derrotada à Casa Branca, Hillary Clinton. Não poderia ser. Os Estados Unidos não terão ainda sua primeira mulher presidenta e Kaine teve que voltar a aludir ao título com que Clinton ficará para a história, secretária de Estado, para marcar sua entrada. O sonho de fazer parte da equipe com uma Madam President, lembrou, durou para ele 105 dias, os transcorridos desde que se soube que este senador pela Virgínia, e apaixonado pelo espanhol e o hispânico, era companheiro de chapa de quem esperava romper o eterno teto de cristal que tanto resiste às mulheres. Afirmou que não lamenta nem um só desses momentos. “Lembraremos esses 105 dias o resto de nossos dias”, disse. E prometeu que o último capítulo ainda não foi escrito.

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