Eleições Estados Unidos

Hillary Clinton pede que se dê oportunidade para Trump liderar

Perdedora pede a Trump que seja o presidente de todos os americanos

Hillary Clinton se dirige a seus seguidores depois de perder a corrida para a Casa Branca.
Hillary Clinton se dirige a seus seguidores depois de perder a corrida para a Casa Branca.CARLOS BARRIA

Nem sua campanha nem a própria candidata poderiam ter imaginado amanhecer na quarta-feira com um presidente Donald J. Trump. Nem em seus piores pesadelos tinham contemplado esse “desarranjo de planos” que foi um choque devastador de trens entre a realidade e o desejo.

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A ex-secretária de Estado decidiu não comparecer na noite de terça-feira ao lugar que havia escolhido em Manhattan para celebrar o marco histórico da primeira mulher que conseguia romper o tristemente famoso teto de cristal ao alcançar a presidência do país mais poderoso do mundo.

Ninguém a repreendeu. Pelo menos não no lugar em que já a esperavam em vão seus dedicados seguidores. Não houve palavras feias, ninguém pôs em dúvida que a candidata não pudesse vir. Se as pernas de seus assistentes tremiam e eles não saíam de seu assombro, especulavam que muito provavelmente Hillary Clinton teve de ser atendida por médicos para controlar o choque inicial.

Clinton não deixou muito tempo passar para pedir desculpas a seus seguidores. Já tinha escrito o que seria seu discurso mais difícil. Mas quando faltavam minutos para que a antiga senadora entrasse na sala de um hotel de Nova York, o ambiente parecia o da espera de um funeral. Semblantes caídos, tristes. Abraços de conforto entre lágrimas. Olhares que se evitavam para frear as lágrimas.

Clinton subiu ao palco depois que lhe deu passagem o que teria sido seu vice-presidente em uma Administração Clinton. Tim Kaine estava visivelmente emocionado.

Contida, nesse papel de estadista que tão bem exibiu de ponta a ponta do mundo durante suas centenas de viagens como secretária de Estado, Clinton expôs com clareza o que deseja para os Estados Unidos nos próximos quatro anos.

A ex-secretária primeiro agradeceu a seus seguidores e depois lhes pediu desculpas: “Lamento que não tenhamos ganhado as eleições”. A partir daí, sua mensagem seguinte foi relatar que na noite anterior havia felicitado o presidente eleito, Donald Trump. “Eu me ofereci para trabalhar com ele por nosso país”, disse. “Espero que possa ser um presidente bem-sucedido para todos os americanos.”

A seus emocionados seguidores, Clinton disse: “Donald Trump é nosso presidente e lhe devemos uma mente aberta e a oportunidade de liderar”.

Tranquila, com o roteiro que havia preparado sob controle, Clinton disse saber o quão decepcionados se sentiam os que a escutavam. “Eu também me sinto assim”, afirmou. E a candidata democrata acrescentou: “Mas nossa responsabilidade como cidadãos é continuar fazendo nossa parte para construir uma América melhor, mais forte, mais justa. Sei que vocês farão isso.”

Clinton teve palavras cálidas para Trump, a quem pediu que seja um presidente inclusivo, porque o sonho americano é suficientemente grande para todos: para as mulheres, para os imigrantes, para o coletivo LGBT, para quem tiver deficiências, para todos. "O sonho americano é suficientemente grande para todos, para pessoas de todas as raças e todas as religiões”, defendeu Clinton.

No tom otimista com que quis enterrar sua campanha, a ex-senadora disse que “nossos melhores dias ainda estão por vir”. “Nunca duvidem de que vocês são valiosos, poderosos e merecem todas as oportunidades para perseguir os seus sonhos.”

Hillary, de 69 anos, com já muito poucas possibilidades de voltar a fazer uma nova aposta para a Casa Branca, disse que nada a faria sentir-se mais orgulhosa do que ser a líder de seus seguidores. “Sei que ainda não rompemos esse teto de cristal, mas um dia ele acabará caindo, e espero que antes do que acreditamos.”

Ela finalizou admitindo a decepção que sentia. “Sei o quanto vocês estão decepcionados porque também me sinto assim. Isto é doloroso e será durante muito tempo, mas nossa campanha nunca foi sobre uma única pessoa nem uma eleição, mas por uma América esperançosa e unificada. Ainda acredito na América e sempre o farei”, concluiu. Nem uma lágrima. Com o total controle de suas emoções e seus gestos, Hillary Clinton abandonou o lugar. Não iria acontecer de alguém atribuir suas lágrimas ao fato de ser mulher.

105 dias de um sonho frustrado

Silvia Ayuso

Custou a Tim Kaine não deixar escorrer essas lágrimas que se amontoavam em seus olhos. Esta quarta-feira chuvosa em Nova York refletia como nada mais o ambiente na campanha democrata, rostos entorpecidos e ainda atônitos. Diante deles, aquele que neste dia esperava ter comparecido como vice-presidente democrata eleito teve que apresentar a candidata derrotada à Casa Branca, Hillary Clinton. Não poderia ser. Os Estados Unidos não terão ainda sua primeira mulher presidenta e Kaine teve que voltar a aludir ao título com que Clinton ficará para a história, secretária de Estado, para marcar sua entrada. O sonho de fazer parte da equipe com uma Madam President, lembrou, durou para ele 105 dias, os transcorridos desde que se soube que este senador pela Virgínia, e apaixonado pelo espanhol e o hispânico, era companheiro de chapa de quem esperava romper o eterno teto de cristal que tanto resiste às mulheres. Afirmou que não lamenta nem um só desses momentos. "Lembraremos esses 105 dias o resto de nossos dias", disse. E prometeu que o último capítulo ainda não foi escrito.