“Muitos não votam nas eleições porque precisam trabalhar”

330 empresas como Ford Motor e Patagonia darão folga aos funcionários no dia das das eleições

Cada voto conta. Poderia ser a mensagem que os dois candidatos à Casa Branca repetem em cada comício, procurando mobilizar o eleitorado na reta final dessas eleições tão disputadas. Mas é assim que começa o e-mail enviado pela Ford Motor na quinta-feira passada, a cinco dias das eleições, a seus milhares de funcionários em todos os Estados Unidos. O 8 de novembro para eles será um feriado, pago, para incentivá-los a irem às urnas e exercer seu direito democrático.

Eleições Estados Unidos
Uma agência de emprego temporária em Williston, Dakota do Norte. AFP

O segundo maior fabricante de carros de Detroit é uma das 330 empresas que fecharão suas portas em uma iniciativa batizada de “Take off Election Day”, que em tradução livre quer dizer algo como “tire folga no dia das eleições”. A concorrente General Motors também aderiu. Além dessas, participam Western Union, Hearst Publishing, Patagonia, Spotify e o fabricante de colchões Casper.

Diferentemente de outros países, as eleições nos Estados Unidos são realizadas em um dia útil. Isso, dizem os defensores da iniciativa, é um obstáculo para que os assalariados com menos recursos compareçam às urnas. Também não existe uma legislação federal que obrigue as empresas a dar folga a seus funcionários, mesmo não remunerada. É algo que depende da regulamentação local onde opera a empresa.

“O voto deve ser inclusivo, fácil e acessível”, afirma a empresa de tecnologia Square, onde se espera que em um futuro não muito distante “o dia das eleições seja um feriado nacional”. É o que a marca de roupas Patagonia vai explicar aos clientes que procurarem suas lojas nesta terça-feira. Os que o fizerem pela Internet verão uma mensagem incentivando-os a votar.

Rose Marcario, a executiva que comanda a marca californiana, receia que a fúria política vista durante a campanha faça a participação registrar níveis muito baixos, em um momento em que se necessita precisamente de uma liderança forte para enfrentar desafios como o da mudança climática. “As empresas têm uma posição única para empoderar o cidadão”, explica.

Com 1.800 funcionários, a Patagonia tem sido muito ativa nas campanhas eleitorais na última década. Este ano realizará 60 eventos por todo o país para conscientizar os eleitores sobre como proteger o planeta. Josh Wexler é CEO da RevCascade. Uma empresa com menos de quinze funcionários. “Existe muita gente que não pode votar porque precisa trabalhar”, lamenta.

Eleições épicas

Há outras empresas, como a que desenvolve o aplicativo Evernote, que em vez de dar o dia inteiro de folga, cancelaram as reuniões da manhã para que os funcionários tenham tempo de votar ou fazer trabalhos voluntários. “Estas eleições são importantes e têm gerado muita discussão”, afirmam os promotores da campanha.

Howard Schultz, fundador das cafeterias Starbucks, foi um dos empresários mais assertivos nestas eleições. “Serão épicas”, prediz. O executivo não dá folga a seus funcionários, mas lhes enviou uma carta pedindo respeito, compaixão e dignidade em relação ao processo, em vista da fúria desatada. “A falta de modelos políticos não deve nos definir nem ditar como temos que nos tratar uns aos outros”.

O empresário se define como um democrata e há dois meses expressou seu apoio a Hillary Clinton. Apoiou Barack Obama em 2008 e 2012. Em nenhum momento Howard Schultz dita o voto de seus funcionários. Mas denuncia a divisão e o ceticismo que vêm alimentando o debate nacional.

O embate político é uma boa oportunidade para fazer promoções. A Starbucks oferece a seus clientes uma versão limitada das canecas da “Unidade”. Os serviços alternativos ao táxi Uber e Lift também vão oferecer carros na Flórida, Pensilvânia, Ohio, Carolina do Norte e Texas para mobilizar o voto dos hispânicos. “Nossa democracia se fortalece quando nossas vozes são ouvidas”, afirmam membros da organização Rock the Vote.

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