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Pancadas na liberdade

Impedir com violência o exercício da livre expressão na Universidade é uma grave ameaça à democracia

Vários encapuzados esmurram a porta onde deveria acontecer uma cerimônia na Universidade Autônoma.
Vários encapuzados esmurram a porta onde deveria acontecer uma cerimônia na Universidade Autônoma. EL PAÍS

O lamentável episódio que aconteceu na terça-feira na Universidade Autônoma de Madri, onde encapuzados impediram violentamente a realização de uma cerimônia acadêmica organizada conjuntamente por este jornal e a Universidade, é um sério aviso sobre a deterioração das condições do debate público que estamos vivendo neste país.

A liberdade de expressão não é apenas um direito fundamental, mas central no âmbito universitário, um lugar em que de forma alguma tem cabimento a violência física usada na terça-feira por alguns encapuzados, tão corajosos que nem sequer se atreveram a mostrar o rosto. Lembramo-nos recentemente como, há 80 anos, Miguel de Unamuno foi interrompido, precisamente numa Universidade, pelos fascistas que queriam silenciá-lo.

É muito doloroso que essa arbitrariedade tenha lugar na mesma Faculdade de Direito em que foi assassinado Francisco Tomás y Valiente, cujo exemplo como homem de diálogo e defensor dos direitos humanos é reconhecido por unanimidade. Seus assassinos foram precisamente membros da ETA, uma organização invocada em alguns cartazes vistos na terça-feira.

Tudo isso não aconteceu por acaso: é a tradução em fatos do contínuo assédio que este jornal e seus trabalhadores vêm sofrendo. No acosso sofrido na terça-feira por um ex-presidente do Governo democrático da Espanha e pelo presidente do Grupo PRISA foram reproduzidas milimetricamente as palavras de ordem e as acusações que o líder do Podemos, Pablo Iglesias, vem lançando nas redes sociais e em seus discursos públicos, um caminho iniciado por Iglesias na legislatura anterior com a sua infame referência à “cal viva”.

Causa estranheza que os líderes do Podemos, a maioria deles cientistas políticos e não poucos professores, continuem sem entender quais são as regras básicas da democracia e o papel dos meios de comunicação nela. Que Iglesias chame seus seguidores para “libertar-se de um poder não eleito” (referindo-se a este jornal) ou que seu cofundador, Juan Carlos Monedero, afirme que “o franquismo está se alongando muito” demonstra que alguns líderes da terceira força política deste país navegam nos limites da democracia. À esquerda ou à direita, sejam os mentores venezuelanos dessa esquerda tão radical quanto antiquada ou os populistas xenófobos, todos procuram se servir da democracia para chegar ao poder e em seguida passar dos limites e esvaziá-la de conteúdo.

Como exemplo é suficiente: em vez de condenar os fatos categoricamente e se desvincular deles, Pablo Iglesias e os seus acusam os perseguidos de terem procurado o confronto com suas provocações. Culpar as vítimas está em todos os manuais dos destruidores da liberdade. A Pasionaria, a histórica líder comunista, soube combinar a resistência ao fascismo com a presidência da primeira sessão das Cortes democráticas deste regime que esses líderes tanto desprezam. Seu “não passarão” é patrimônio de todos os democratas. Os tricórnios [referência aos chapéus de três pontas usados pela Guarda Civil] não puderam fazê-lo e não o farão os capuzes.

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