Editoriais
i

Podemos retrocede

Resultados eleitorais questionam a liderança de Iglesias

Garzón (esquerda) e Pablo Iglesias, em ato organizado por Unidos Podemos.
Garzón (esquerda) e Pablo Iglesias, em ato organizado por Unidos Podemos.Luca Piergiovanni (EFE)

Mais informações

O inesperado retrocesso do Podemos nas urnas, quando todas as pesquisas davam como certo que ultrapassaria o PSOE, abriu uma crise interna no partido. Foi questionada a decisão de fazer aliança com a Esquerda Unida (IU), depois de constatar que a coalizão retrocedeu justamente nas províncias onde a IU conseguiu melhores resultados em 20 de dezembro. Longe de aumentar os seus números de assentos e de votos, a dupla conseguiu um milhão de votos a menos.

Um número significativo de eleitores da IU, inspirados pelo ceticismo de algumas lideranças históricas como Cayo Lara ou Gaspar Llamazares, parecem ter dado as costas para uma coalizão que aparentava estar longe demais de suas siglas e linhas políticas. O “casamento de conveniência”, como alguns dirigentes do Podemos classificaram a coalizão, deixou muitos eleitores indiferentes.

Outro fator de retrocesso teve a ver com a confusão e a falta de credibilidade causadas pelas mudanças de direção e inconsistências ideológicas que dominaram a campanha do Podemos. Ao mesmo tempo em que apoiava figuras com inequívocas credenciais esquerdistas, como Julio Anguita, Diego Cañamero e Manuel Monereo, Iglesias apresentava-se como um socialdemocrata disposto a fazer um pacto com o PSOE, tentando cobrir todo o espectro da esquerda. E enquanto mantinha a estratégia populista que marcou a origem do Podemos, apelando à pátria e ao povo, reivindicava o plurinacionalismo e o direito de escolha, para conseguir manter sua posição sobre a Catalunha e o País Basco. A dificílima tentativa de satisfazer diversos pontos de vista, somada à decepção da decisão de nem sequer se abster para facilitar a candidatura de Pedro Sánchez, explica a deserção de eleitores socialistas muito antigos.

O retrocesso do Podemos deixa seu líder, Pablo Iglesias, em uma posição complicada. Cinco milhões de votos e 71 assentos são resultados magníficos para uma força política recém-criada. No entanto, a decisão de Iglesias de forçar a repetição das eleições e concorrer em coalizão com a IU revelou-se um grande erro. A hiper-liderança de Iglesias sustentou-se na sua áurea de invencibilidade. Agora que o Podemos e seu líder não apenas bateram com a cabeça no teto, como também retrocederam, generalizam-se as cobranças por uma mudança profunda, que abra o partido ao debate interno e represente melhor a pluralidade de seus eleitores, simpatizantes e dirigentes.

No entanto, essa abertura pode abrir a porta para a fragmentação do Podemos: longe de ser um partido coeso, existem várias facções ideológicas e territoriais que convivem entre si, muitas vezes com posições impossíveis de serem conciliadas. A perspectiva de chegar ao poder era o principal fator de coesão do Podemos. Ao fim do círculo eleitoral iniciado em 2014, que teve eleições europeias, autônomas, municipais e dois pleitos gerais, o Podemos ficou como um grande partido de oposição, mas sem muita capacidade de condicionar a agenda política. Uma estratégia, o maximalismo, que produziu poucos resultados e que deveria ser revista.