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O milionário ‘não político’ para a São Paulo pós-impeachment

Há muito em jogo no Governo Doria . Se bem sucedido, pode aprofundar as mudanças de poder no país

João Doria São Paulo
O prefeito eleito de São Paulo, João Dória.

João Doria Jr. chega de forma triunfal à prefeitura mais importante da América do Sul, num país tão carente de caras novas como é o Brasil pós-impeachment. Novato em eleições, tornou-se uma mistura de promessa, esperança e dúvidas. Seus eleitores o veem como uma alternativa de mudança dentro do trágico panorama político da maior potência sul-americana. Seus adversários o criticam por sua falta de experiência em gestão pública e por sua ênfase no papel da iniciativa privada para assumir serviços municipais.

A pouco menos de três meses de assumir oficialmente o cargo, só se sabe que Doria é um workaholic empedernido, desses que dormem quatro horas por dia, e que pretende manter na vida pública o mesmo ritmo da vida privada. “Quero transformar 4 anos em 8 de eficiência”, promete. E é então que entra seu mantra, o toque de Midas de sua campanha eleitoral, que lhe deu as chaves da cidade: “Não sou político, sou um gestor.”

Ainda que seja novato em um cargo eletivo, transita entre poderosos há muito. As paredes de sua sala de reunião estão forradas de fotos em que ele aparece ao lado de personalidades mundiais, que já estiveram com ele ao longo das últimas décadas. Posa com Bill Clinton, com o magnata Carlos Slim, com o recém-nomeado Nobel da Paz, Juan Manuel Santos. Em outras surge mais jovem, ao lado de nomes que já partiram, como Ray Charles e Marcello Mastroianni.

Uma das fotos é com Donald Trump, quando este era tão somente famoso por ser um empresário bilionário, e não um candidato à presidência dos EUA. Trump foi entrevistado por Dória em 1988 para a TV Bandeirantes. Poucos anos depois, criou programas de entrevistas, como o Show Business, com poderosos do mundo econômico e político. Em 2003 fundou o grupo Lide, que promove fóruns e debates com os principais representantes do PIB do Brasil. Foi em vários de seus encontros que se escancarou o apoio ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Mas sua narrativa de homem distante do sistema político é o que o país quer neste momento, em que até o antes intocável ex-presidente Lula é acusado diariamente de ser o chefe da corrupção no caso Petrobras e em que a presidenta Dilma Rousseff foi obrigada a deixar o governo em meio à pior recessão econômica que o país conheceu em décadas.

Doria, de aparência ainda imaculada, e a estampa típica de quem vem da elite, conseguiu se conectar aos eleitores menos favorecidos relembrando as verdades do seu passado que o aproximaram do eleitor. Que era um self-made man, que começou a trabalhar com 13 anos (a narrativa favorita no Brasil), que seu pai, deputado, foi exilado durante a ditadura militar e foi obrigado a viver em Paris.

Funcionou. Um passeio pelas ruas de São Paulo mostra até que ponto. “Era o melhor candidato, porque não é político, é um gestor”, repete a manicure Camila, que votou nele. “Já é rico, não precisa roubar”, diz outro, referindo-se ao patrimônio de Doria, estimado em R$ 180 milhões. “Quando soube que ia doar seu salário [uma de suas promessas eleitorais foi que doar seu salário à caridade] me convenci de que era meu candidato”, comenta outra mulher.

Essa imagem lhe rendeu comparações com Michael Bloomberg, o multimilionário prefeito de Nova York entre 2002 e 2013. “Gosto dessa comparação”, admite. Seus inimigos, no entanto, fazem outro paralelo: com o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que nos anos1990 chegou ao poder exatamente por sua falta de experiência política. Outros o provocam com as semelhanças a Donald Trump. “Votaria em Hillary se estivesse nos Estados Unidos”, esclareceu numa entrevista.

Doria sabe que entra a partir de agora no reality show da política. Sempre viveu rodeado de luxo, e a imprensa vem destacando suas colocações que reforçam seu estereótipo de milionário. “Quem sabe um dia todo brasileiro poderá usar Ralph Lauren”, disse ele neste sábado, entrevistado durante o festival de jornalismo da revista Piauí e GloboNews. Usou a frase quando foi questionado se havia visto o meme que circula na Internet sobre o novo uniforme da rede pública de ensino municipal, com roupas da marca.

Uma camiseta da grife pode custar entre 500 e 700 reais, algo que poucos brasileiros, de fato, podem pagar. O que pode ter sido só força de expressão foi lido como gafe e virou munição para adversário. “Isso [a frase de Doria] é muito sério”, afirmou Ciro Gomes, pré-candidato à presidência pelo PDT, neste domingo.

Há muita torcida contra e a favor do novo prefeito, por tudo que há em jogo quando assumir o Governo da cidade. Se for bem-sucedido, Doria pode aprofundar a mudança do poder no Brasil, e dentro do seu próprio partido, o PSDB. Para tal, sabe que precisa manter a simpatia dos mais pobres, que deixaram a fidelidade ao PT para dar-lhe um voto de confiança. “Não é possível que haja 500.000 pessoas esperando na fila para fazer exames nos hospitais municipais”, diz. Só que as soluções que ele propõe geram dúvidas e preocupações. Quase todas as suas promessas passam pela privatização de serviços (como o autódromo da cidade e um de seus estádios de futebol) ou pela concessão a empresas (para manutenção de parques e ciclovias, por exemplo).

Seu sócio no Lide, Luiz Fernando Furlan, aposta que Doria vai entregar o que promete. “Ele é muito disciplinado, metódico, detalhista”, comenta Furlan, que recebeu uma mensagem via WhatsApp do novo prefeito às 5h06 da manhã de segunda-feira. “Tinham se passado poucas horas da festa da vitória do dia anterior”, acrescenta.

A questão é saber se seu ritmo acelerado será capaz de dizimar a burocracia que vive em cada metro quadrado das instituições públicas do país. A partir de primeiro de janeiro de 2017 os paulistanos saberão se as boas intenções do novo prefeito serão capazes de modificar a realidade.

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