Trump pode não ter pagado impostos durante 18 anos

'The New York Times' obteve sua declaração de renda de 1995, que revela importantes isenções fiscais

As suspeitas de que Donald Trump se nega a publicar sua declaração de renda porque tem algo que esconder encontraram um forte respaldo. O jornal The New York Times garantiu, na noite deste sábado, ter tido acesso a uma parte do documento referente ao ano de 1995 que indica que o magnata imobiliário, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos nas eleições de novembro, pode ter se beneficiado de enormes isenções fiscais durante 18 anos (de 1995 a 2013).

Donald Trump, durante um ato de campanha. Reuters-Quality

Os documentos, com autenticidade comprovada – e que foram obtidos pelo jornal de forma anônima –, revelam que, em 1995, Trump declarou prejuízos de 916 milhões de dólares (2,98 bilhões de reais) devido ao fracasso de seus cassinos em Atlantic City e outros negócios que faliram. Por isso, teria obtido uma dedução nos impostos bastante substancial, de até 50 milhões de dólares (163 milhões de reais) anuais, “o que poderia ter permitido evitar, legalmente, o pagamento de qualquer imposto de renda federal durante os seguintes 18 anos”.

O fato de que Trump se nega a apresentar suas declarações de impostos – sob o argumento de que não pode fazer isso porque está sendo auditado – é um dos maiores pontos fracos do republicano. Todos os candidatos, dos dois partidos, há quatro décadas, tornam públicos esses documentos. E até mesmo dentro do partido Republicano há vozes que clamam por que Trump siga o exemplo de todos os aspirantes à presidência desde a década de 1970. Sua rival democrata, Hillary Clinton, usou esse argumento como arma contra ele em repetidas ocasiões, inclusive durante o primeiro debate presidencial, na segunda-feira. “Possivelmente, (Trump) não quer que os norte-americanos, todos os que estão nos assistindo esta noite, saibam que ele não pagou nenhum imposto federal”, disse Clinton. Trump respondeu diante das câmeras: "Isso faz de mim uma pessoa esperta". Depois, ele esclareceu que não estava admitindo que a afirmação de Clinton era verdadeira.

O candidato republicano se negou a falar com o The New York Times a respeito dos documentos fiscais. Mas, na manhã do domingo, recorreu à sua habitual ferramenta, a rede social Twitter, para responder, indiretamente, ao jornal.

“Conheço nossas complexas leis de impostos melhor do que qualquer outra pessoa que já tenha concorrido à presidência, e sou o único que pode consertá-las #falha @nytimes”, escreveu Trump em seu perfil na rede social, utilizando uma resposta que já havia dado anteriormente durante sua campanha.

"Eu criei dezenas de milhares de empregos e trarei de volta uma grande prosperidade norte-americana. A Hillary só abriu vagas no FBI e no Departamento de Justiça", agregou Trump em outra publicação no Twitter.

Segundo o The New York Times, um advogado do magnata ameaçou processar o jornal se ele publicasse o documento ao que teve acesso. No entanto, os organizadores da campanha de Trump se limitaram a responder às perguntas do meio de comunicação através de um comunicado que “não confirma nem desmente” a cifra de 916 milhões de dólares (2,98 bilhões de reais) em perdas.

“Trump é um homem de negócios altamente qualificado, cuja responsabilidade fiduciária com seus negócios, sua família e seus empregados requer que não pague mais impostos do que os legalmente requeridos”, afirma o comunicado, enviado, posteriormente, à toda a imprensa.

“Dito isso, Trump pagou centenas de milhões de dólares em impostos sobre propriedade, sobre vendas e indiretos, assim como bens de raiz, urbanos, estatais, de empregados e federais”, agrega o texto, que também acusa o jornal nova-iorquino de ser "uma extensão da campanha de Clinton", assim "como os meios tradicionais em geral".

Clinton retuiteou, rapidamente, o artigo do The New York Times e emitiu um comunicado sobre a "gigantesca natureza dos anteriores fracassos empresariais de Donald Trump", e o desafiou, de novo, a tornar públicas suas declarações de impostos de renda.

"Em um ano, Donald Trump perdeu quase um bilhão de dólares (quase 3 bilhões de reais). Um bilhão. Trump extorquiu pequenos negócios, demitiu funcionários e abandonou essas comunidades trabalhadoras. E para que serviu isso? Aparentemente, ele pôde deixar de pagar impostos por quase duas décadas, enquanto dezenas de milhões de famílias pagavam os seus", disse o diretor de campanha de Clinton, Robby Mook. "E ele disse que isso é 'ser esperto", ironizou Mook em referência à resposta de Trump durante o debate.

"Agora que os jogos acabaram, por que ele não publica sua declaração de impostos e mostra a todos o quão 'esperto' ele realmente é?”, desafiou Mook.

O The New York Times destacou que os especialistas em impostos consultados pelo jornal explicaram que nada indica que Trump tenha feito algo ilegal. O que não significa que ele tenha sido absolutamente ético, sobretudo, ao se tratar de um homem que, agora, quer ser o presidente dos Estados Unidos, e que se apresenta como defensor das classes trabalhadoras diante do establishment e de um Wall Street que se veem refletidos, segundo ele, em sua rival, Hillary Clinton.

Os documentos ao que o jornal teve acesso seriam, comprovadamente, três páginas da declaração de impostos de Trump de 1995, que foram recebidas por uma repórter que estava escrevendo sobre o tema. O carimbo no envelope anônimo indica que o envio veio da própria cidade de Nova York. O remetente é a Torre Trump, do magnata transformado em político.

MAIS INFORMAÇÕES