E eles caíram de pé: brasileiros fazem história com pódio duplo no solo

Arthur Nory leva bronze em dobradinha histórica com Diego Hypolito, que enterra fantasmas e ganha prata

A tarde deste domingo olímpico já entrou para a história do esporte brasileiro. Pela primeira vez, dois atletas da ginástica do Brasil subiram no pódio ao mesmo tempo: Diego Hypolito, para receber a prata, e Arthur Mariano Nory, para levar o bronze na ginástica de solo masculina. As medalhas coroam histórias distintas: a de superação e autocontrole de Hypolito e a de insistência e performance surpreendente de de Nory.

Ginástica Artística
Diego Hypolito e Arthur Nory comemoram. AP

Diego Hypolito, de 30 anos, não superou apenas os adversários, ele quitou uma grande dívida não com a torcida brasileira, mas com ele mesmo. "Eu me propus a vir aqui depois de cair de bunda, de cara e me sentir humilhado. Aqui, caí de pé", resumiu ele seu calvário até a consagração. Durante a apresentação, o nítido nervosismo no rosto do veterano Hypolito deixava transparecer que a lembrança amarga das duas últimas olimpíadas ainda pairava. Em Londres 2012 e Pequim 2008, Diego caiu - sentado e com o rosto contra o chão. Foram falhas graves num esporte onde acrobacia só é finalizada com perfeição quando o atleta cai, firmemente, com os dois pés cravados no chão.

Mas neste ano, em casa, Diego Hypolito fez uma apresentação sem faltas graves ou média. Sem tombos. Sem quedas. Foi o segundo a se apresentar na série, obteve 15,533 pontos e, na TV, parecia frustrado com o resultado. Daí em diante foi segurar a ansiedade até o final para ter certeza de que, enfim, o ginasta mais conhecido do Brasil chegaria a um novo patamar. Foram minutos de agonia, depois de passar por anos angustiantes, enfrentando quatro cirurgias e uma depressão, que o levou a uma internação e quase encerrou sua carreira. Mas em 2014, Diego Hypolito prometeu que cairia de pé e agora cumpriu a promessa que fizera, acima de tudo, para ele mesmo.

Ao final feliz de Hypolito se somou a surpresa de Arthur Mariano Nory para engordar as conquistas da ginástica brasileira, que conseguiu sua primeira medalha, de ouro, com Arthur Zanetti nas argolas em Londres. Quando terminou a exibição, Nory, parecia satisfeito e foi para torcida, levantando de vez o estádio. Sua performance conseguiu o bronze com 15,433 pontos, frente aos 15,633 do britânico Max Whitlock, que ficou com o ouro. Como vários dos atletas brasileiros e todos que ganharam medalha à exceção de Hypolito, Nory virou militar. Ele foi incorporado já neste ano como sargento do Programa de Atletas de Alto Rendimento. No pódio, ele fez a continência que nem todos os medalhistas fizeram.

Foi a vitória também da insistência do próprio Nory, o caçula da equipe de 22 anos, contra a vontade do pai atleta, que preferia ver o filho como faixa-preta de judô, como ele. "Meu negócio não era cair no tatame, era estar no ar, dando mortal", contou ele anos depois ao Estado de S. Paulo, dizendo ter se inspirado no seu companheiro de pódio, Hypolito, e na ginasta Daiane dos Santos.

Se o estreante não tinha um histórico de olimpíadas para superar, o dia o faria confrontar seus seus erros e fantasmas fora do ginásio. No ano passado, Nory fez um vídeo na rede social Snapchat ao lado dos outros ginastas Fellipe Arakawa e Henrique Flores, menosprezando Ângelo Assumpção, também da seleção brasileira de ginástica artística. As piadas racistas, comparavam, por exemplo, a cor de Ângelo à cor de um saco de lixo.

Na época, a Confederação Brasileira de Ginástica chegou a suspender os três ginastas e encaminhou o caso ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Nory e os demais atletas divulgaram um vídeo se desculpando e dizendo que tudo não passava de uma "brincadeira". O julgamento só foi ocorrer no último dia 4 de junho, e o caso foi arquivado depois de os atletas se desculparem no tribunal. Assumpção, a princípio não desculpou os colegas, mas neste domingo, em entrevista ao UOL Esporte, parabenizou o medalhista olímpico e cobrou melhor comportamento no futuro. "Tenho muito orgulho do Nory. Agora eu espero que ele seja um medalhista também fora do tablado. Admiro muito quem conquista um pódio na Olimpíada, mas gosto mais ainda de quem consegue brilhar também fora das competições. Somos atletas e temos que aproveitar o espaço que temos para dar recados e exemplos".

Nory, ao site do Globo Esporte, falou sobre erros, mas não citou o caso especificamente: "Sempre aprendemos com os erros, sempre (...) Não é querer ser o melhor só ali dentro, no treino, é querer ser melhor como pessoa também". Seu técnico, porém, deve incendiar ainda mais a polêmica, que enevoou a conquista olímpica de Nory especialmente nas redes sociais. Cristiano Albino minimizou o crime de ofensa racista, tipificado penalmente no Brasil: "É um assunto esquecido. Não temos que voltar em coisa ruim. Vamos falar de medalha. Foi comprovado judicialmente que foi uma brincadeira entre amigos. Se fosse assim, eu deveria entrar na Justiça porque me chamavam de narigudo na escola", disse na mesma reportagem.

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