POKÉMON GO

Pokémon Go: o valioso caçador de Pokémons

As informações fornecidas pelos jogadores são uma mina de ouro e um perigo potencial

PABLO MEDIAVILLA COSTA

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Sentados à sombra, ao lado da lagoa do parque do Retiro, em Madri, há cerca de 100 “caçadores” de Pokémon Go, o jogo para aparelhos móveis que revolucionou meio mundo. A maioria deles são menores de idade, mas também há casais de trintões, turistas que interrompem o passeio para testar a sorte e pais que acompanham seus filhos. O lugar é um dos melhores da capital espanhola pela alta concentração de personagens da bem-sucedida saga da Nintendo. “Viemos de Fuenlabrada para caçar Pokémons”, diz Ester, ao lado de seu filho Mario, de 9 anos, que não tira o olho da tela. “Vamos de lugar em lugar para que ele possa jogar.”

No Brasil e em outros 31 países da América Latina, o jogo chegou oficialmente nesta quarta-feira, 3 de agosto, causando o mesmo tipo de efeito de viciante e de aglomeração. Em várias cidades do país, brasileiros caminham com seus celulares na mão e já se veem os chamados PokeStops, ao redor dos quais as pessoas aproveitam o tempo livre ou a falta de compromissos para jogar.

O fato de que o usuário forneça dados pessoais e seja localizado o tempo todo pelo GPS faz com que o aplicativo seja uma fonte de informação muito valiosa e sensível. É possível saber quais os caminhos seguidos pelos jogadores, que lojas visitam, quando e com quem. “A capacidade de mobilização que o jogo tem lhe dá um poder que nunca tínhamos visto. Pode fazer com que uma grande quantidade de pessoas compareça a determinado lugar, num momento determinado, simplesmente colocando um Pokémon ali”, diz Damià Poquet, especialista em segurança informática do S2 Grupo.

Com apenas semanas de vida, o Pokémon Go tem sido festejado porque obriga as pessoas a sair de casa, fomenta a relação entre os jogadores e inclusive exige um certo exercício físico para encontrar os 145 exemplares de Pokémon e outros pontos de interesse superpostos pelos aparelhos móveis no mundo real e necessários para completar a aventura virtual. Já existem casos famosos, como a aglomeração de centenas de pessoas no Central Park de Nova York, com celular em mãos e o carro no meio da rua, em busca de um Vaporeon, uma espécie rara e muito apreciada no jogo.

Damià Poquet e seu colega José González estudaram esse fenômeno na cidade de Valência, com a extração e a análise de dados do próprio aplicativo. O maior número de jogadores se concentra no porto, na Cidade das Artes e Ciências e no centro. “A Niantic, uma startup nascida no Google, foi escolhida pela Nintendo para desenvolver o jogo porque já contava com a infraestrutura e as bases de dados de geolocalização e posicionamento de pessoas de seu produto anterior, outro jogo de realidade aumentada chamado Ingress”, diz José González. Os pontos de maior afluência de Pokémons e onde se concentram mais jogadores coincidem com os do Ingress, segundo o estudo que realizaram.

O monumento a Alfonso XII no Retiro é um dos melhores locais de Madri para caçar Pokémons.
O monumento a Alfonso XII no Retiro é um dos melhores locais de Madri para caçar Pokémons.Pablo Mediavilla Costa

A diferença é que a amostra de dados gerenciada agora pela Niantic multiplicou-se exponencialmente com os milhões de jogadores no mundo todo. O mapa de sua posição e seus costumes, além da capacidade de mobilizá-los, é uma mina de ouro para setores como a publicidade, deixando também muitas incertezas sobre a proteção e o controle das massas. O Exército de Israel proibiu o jogo aos seus soldados por motivos de segurança, e o Estado de Nova York quer fazer a mesma coisa com os condenados por crimes sexuais. A federação de consumidores da Alemanha ameaçou abrir uma ação judicial contra a Niantic se a empresa não mudar certas cláusulas do aplicativo, que infringem a legislação alemã sobre privacidade e proteção do consumidor.

“No caso da medida de Nova York, acredito que não é tanto pelo fato de que você possa saber a localização de um jogador em si, o que não é possível, mas sim porque o jogo facilita esse primeiro passo para se relacionar com outras pessoas”, diz González. Ainda em fase de teste (beta), o Pokémon Go carece de funções já previstas, como a comunicação e a localização entre jogadores “Com essas ferramentas agregadas, será mais uma rede social. Hoje é difícil não estar localizado. A Apple, o Google, as redes sociais e os serviços de internet sabem onde estamos, o que comemos, quem são nossos amigos”, afirma.

Na Espanha, Polícia Nacional publicou um manual de conselhos para os jogadores. Mas os “caçadores” do parque do Retiro não parecem se preocupar com o conhecimento que o aplicativo possui sobre eles, nem com o uso que essa informação possa ter. José Arcicollar, de 23 anos, jogou Pokémon pela primeira vez aos oito e não tem dúvida: “Estava esperando algo assim, poder viver a aventura do protagonista dessa maneira.”

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