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Mauricio Macri enfrenta resistências pelo aumento do gás

Aumentos que podem chegar a até 1.000% estão paralisados pela Justiça e reativam o protesto social

Uma mulher bate panela durante protesto contra aumentos de preços em 14 de julho, em Buenos Aires.
Uma mulher bate panela durante protesto contra aumentos de preços em 14 de julho, em Buenos Aires. Telam

O aumento das tarifas dos serviços públicos na Argentina colocou o presidente Mauricio Macri em sua primeira grande crise de Governo. Os aumentos de até 1.000% em contas de gás atingiram as classes média e baixa, quando a Argentina enfrenta o início do inverno mais duro da última década. Os aumentos reativaram os panelaços, um dos símbolos da crise de 2001, e dispararam uma avalanche de liminares judiciais. Macri está na defensiva e espera que o Supremo Tribunal habilite os aumentos. Enquanto isso, testa medidas contra a queda de popularidade.

O chefe de Gabinete, Marcos Peña, falou aos usuários na última segunda-feira que as contas de gás não devem ser pagas enquanto o Tribunal não “tomar uma decisão”. A verdade é que quase três meses depois de ter decretado o novo quadro de tarifas, apresentado como uma medida necessária para acabar com 12 anos de subsídios kirchneristas à energia, os usuários não sabem quanto deverão pagar pelo gás que usam. A reação social ao tarifaço pegou o Executivo desprevenido, que hoje se pergunta como não conseguiu prever as consequências. Teve que recuar duas vezes com os aumentos, depois colocou um limite de 400% e agora aguarda uma decisão judicial.

Algumas declarações de Macri não ajudaram sua imagem: em um discurso para um grupo de trabalhadores advertiu que se alguém anda em casa “de manga curta e descalço” é porque desperdiça energia. A disputa ficou mais forte na semana passada, quando milhares de pessoas cortaram 20 pontos da cidade de Buenos Aires a golpes de panelas. O grupo Barrios de Pie organizou 100 pontos de “sopão popular” nas ruas da capital e arredores. O protesto social terminou atingindo a própria Casa Rosada.

As empresas de gás não registram ingressos desde junho. Ao custo de precisar emitir duas vezes todas as contas, tiveram que adicionar a anulação judicial dos aumentos. Os aliados de Macri tomaram posições. Sergio Massa, um peronista dissidente que acompanha de forma ambivalente a coalizão governista, disse que o aumento das tarifas foi como “entrar em uma sala de operações com uma motosserra”. Ninguém duvida da necessidade de adequar as tarifas, mas poucos defendem a forma como foi feita. O radical Ernesto Sanz, integrante do núcleo duro de Macri, disse que “era necessário reajustar o esquema tarifário” e pediu que as pessoas compreendam que “os avanços e retrocessos do Governo acontecem em um cenário muito complexo”.

Ressaca de subsídios

O cenário tem a ver com a “herança recebida”, como o macrismo gosta de chamar o estado em que a ex-presidenta Cristina Kirchner deixou a economia. O kirchnerismo destinou, entre 2006 e 2015, quase 139 bilhões de dólares em subsídios para energia e transportes. No caso do gás isso gerou um círculo vicioso: enquanto o consumo aumentou, a produção caiu 18%, de acordo com o Instituto Argentino de Petróleo e Gás. O governo teve que importar até 310 navios com gás liquefeito entre 2013 e 2015 para compensar o déficit. Em abril, Macri decidiu reduzir os subsídios e aumentar as tarifas, mas fez isso de uma única vez, com um alto custo político.

Toda a ira popular se concentrou no ministro de Energia, Juan José Aranguren, ex-presidente da petroleira Shell. Aranguren tem o apoio de Macri, que assumiu pessoalmente a trama de erros e retificações da nova tabela de tarifas e o evidente mau humor social. Não foi tão ruim assim para ele. Uma pesquisa da Giacobbe & Asociados mostrou que 61,8% dos entrevistados viam como “um sinal de inteligência” que o Governo retifique suas políticas. Já 71% disseram que as tarifas de gás, luz e água deveriam aumentar cedo ou tarde, mas 81,3% disseram que os aumentos deveria ter sido feito de forma gradual. Esse é o dado que mais preocupa o macrismo.

Consumo em queda livre

A crise econômica golpeou os grandes supermercados em junho. A consultora Scentia determinou que o consumo caiu 6,4% em junho em comparação com o mês anterior. O primeiro semestre, no entanto, fechou com uma baixa de 3,6%.

O gasto médio por compra realizada caiu 26,3%, prova de que os argentinos decidiram procurar marcas mais baratas e promoções para enfrentar o que preveem como tempos difíceis.

A expectativa é que haja uma melhora no segundo semestre, quando espera-se menos inflação e sejam sentidos os efeitos da metade do 13º que é cobrado na metade do ano.

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