Análise
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A cabeceira surrealista de Tunga

As palavras brotavam da sua boca, sem titubeios, com uma lucidez quase assustadora. Tudo era perfeitamente articulado e lógico dentro da sua não lógica.

Tunga e a obra 'Phanografos'.
Tunga e a obra 'Phanografos'.Reprodução / site oficial

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Entendo o porquê. O escritor cubano, dono da frase “a imagem é a realidade do mundo invisível”, é lirismo puro na sua poesia, injetada de metáforas e alusões ao ser. O que interessava ao Tunga não era uma narrativa linear. Nem realismo, nem dilemas literários. Do que ele gostava era de fumar seus cigarros e fazer sobrevôos intuitivos, passeando o olhar sobre as coisas. Era onde morava, mas precisava reconhecer ou revisitar cada detalhe daquele seu salão, todos os dias, o qual se assemelhava a um loft de trabalho, onde também desenhava e observava as peças quase prontas, que saíam do seu estúdio ali perto, na mesma estrada do Joá, zona sul do Rio.

As palavras brotavam da sua boca, sem titubeios, com uma lucidez quase assustadora. Tudo era perfeitamente articulado e lógico dentro da sua não lógica cheia de interferências que desafiava seu interlocutor. E me parece que o fio do seu pensamento era estimulado pelo encantamento de rearranjar as coisas no espaço, de juntar dois em um, de buscar clipes empoeirados que habitam o fundo das gavetas para depositar uma pérola perdida sobre eles. O que brotava dessa união era algo belo como um poema de Lezama Lima. Nas mãos de Tunga, as coisas ganhavam uma conexão magnética. Penso na sua instalação Lézart, obra monumental de 1989, unida só pela força de ímãs.

Um dia cheguei à sua casa com um livro do mineiro Walter Campos de Carvalho (1916-1998), nosso Macedónio Fernández brasileiro. No seu entusiasmo, Tunga não parava quieto, era o próprio Mercúrio, como se suas havaianas brancas tivessem asinhas. Contou a fascinação que foi descobrir o autor Campos de Carvalho aos quinze anos. “Mudou a minha vida. Eu chamava meus amigos e a gente ia, eu e meus amigos, bater na porta dele pra conversar.”

Carvalho trouxe para ele a liberdade, o absurdo com os rasgos surrealistas em uma narrativa desconcertante de um mundo que já não volta, mas com uma relação solta com tudo o que é palpável, onde os jogos não têm hora para terminar. Não posso imaginar um escapismo mais sedutor aos olhos de um garoto. As havaianas brancas queriam voar. Para que voltasse a sentir o cheiro dessas lembranças entreguei-lhe meu exemplar de A Lua vem da Ásia. E mais um jornal velho que trazia embaixo do braço.

Em troca, ele me deu Paraíso. Senti o peso da iniciação no seu mundo nas minhas mãos. Não só de Lezama Lima, mas de Tunga também. Química, linguística, matemática e antropologia são parte do seu fascínio pelo fantástico, pelo surrealismo que leva aos sonhos, ao subconsciente e aos mistérios do universo. Tunga não fazia jogos mentais. Fazia jogos de intuição.

E Mercúrio era mercurial. Não me refiro somente ao temperamento corrosivo do artista que já começava no seu olhar, com um brilho estranho de metal líquido, mas à sua busca alquímica incondicional, cada vez mais atraído ao centro da terra e a um primitivismo xamânico. O curioso é que para os alquimistas, junto com o sal e o enxofre, o mercúrio era considerado uma das três substâncias fundamentais à vida. Relacionava-se ao sêmen e ao poder da criação da vida.

Vejo justamente essa força mercurial na carga erótica em seu trabalho – os desenhos mais lindos, que parecem não hesitar na força da linha contínua de uma dança universal, mutável, caleidoscópica e sensual, em linhas circulares que não têm fim. Com os anos o invisível foi se fazendo mais visível na sua obra, mas soube conservar a beleza desse magma petrificado. O magma que esconde a luz não lapidada de um diamante.

E aqui tem uma linha do Lima, do seu Paraíso, a qual deixo em espanhol, não tão distante do português. “Pero lo que aquella tarde vi rebasó todas mis suposiciones, todas mis posibilidades imaginativas, sobre la línea donde lo irreal pesa más que lo real y le da como pies para andar.” É o momento em que passamos a ver o mundo de um jeito diferente e, curiosamente, ele faz ainda mais sentido.

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