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Só resta uma pessoa viva que nasceu no século 19

Quando a italiana Emma Morano nasceu, em 1899, não havia aviões no céu, nem rádios nas casas

Antonio Calanni /AP

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Quando a italiana Emma Morano nasceu, em 31 de março de 1899, não havia aviões no céu, já que os irmãos Wright voaram pela primeira vez quatro anos depois. Ela é a pessoa mais longeva do mundo, considerada a única que nasceu no século 19, depois da morte na semana passada da norte-americana Susannah Mushatt Jones. Tinham quase cinco meses de diferença. Até agora, era conhecida como a “avó da Europa”, mas já é a de todo o planeta.

Ela vive sozinha em Verbania, no norte da Itália, mas não está sozinha. Familiares e enfermeiros a visitam diariamente e também seu médico o faz com frequência. Reside em um apartamento situado no segundo andar, sem elevador, que a mantém um tanto afastada do mundo, inclusive do imponente e próximo Laggo Maggiore, que ela diz não visitar há mais de duas décadas.

Até o ano passado, ela era a quinta pessoa mais longeva do mundo, segundo o Grupo de Pesquisas de Gerontologia dos Estados Unidos, organismo que garante seu recorde. As quatro pessoas à sua frente na classificação foram falecendo nos últimos meses.

Sua dieta e sua genética são as chaves dessa longevidade. É o que ela explicou nas numerosas entrevistas que concedeu nos últimos tempos, apesar de sua surdez cada vez mais pronunciada. Come três ovos duros por dia, dieta com a qual combateu a anemia na adolescência, e no café da manhã só toma leite com biscoitos. Sua irmã faleceu com 107 anos e sua mãe viveu até os 91. Seu DNA está sendo estudado na Universidade de Harvard.

Tem consciência de que o mundo ao qual chegou já não existe, mas foi pioneira em algumas coisas. Trabalhou até os 75 anos, depois de se separar de seu marido em 1938. Fez isso para acabar com os maus tratos que sofria, apesar de não poder formalizar sua independência até décadas mais tarde. O divórcio ainda não era permitido na mesma Itália que hoje ainda está em processo de aprovar as uniões do mesmo sexo.

Eis aqui algumas das coisas que praticamente só a nonna Morano viu:

- Em sua infância não ouviu as melodias do rádio, porque os transístores ainda não tinham chegado às casas. Nos anos 1950, a tecnologia radiofônica passou por uma série de melhorias que se traduziram na generalização do uso do transistor.

- Viveu os últimos dia do reinado de Humberto I, que morreu vítima de um ataque anarquista em 1900. Seu assassinato foi um símbolo da luta social que se desenvolveu na Itália em seguida. O país passou da monarquia para a República e viveu uma ditadura nos anos seguintes.

- Seus primeiros dias também foram os últimos da rainha Vitória, da Inglaterra. Seu reinado, de mais de 63 anos, só foi superado pelo da atual rainha, Elizabeth II. Faleceu em janeiro de 1901.

- Ao completar 116 anos, em novembro passado, recebeu a felicitação pessoal do papa Francisco. Antes do argentino, passaram outros dez pontífices na vida de Emma Morano, que nasceu enquanto Leão XIII liderava a Igreja Católica.

Em sua infância não ouviu as melodias do rádio, porque os transístores ainda não tinham chegado às casas

- Friedrich Nietzsche não vivia só nos livros de filosofia. O alemão, considerado um dos construtores do pensamento contemporâneo, morreu em agosto de 1900.

- É mais longeva que a própria Madame Butterfly. Pelo menos do que a versão em carne e osso da conhecida ópera de Puccini de 1904. O conto de John Luther Long no qual se inspirou é que veio à luz alguns meses antes de Emma Morano. O compositor italiano ainda não tinha estreado outras de suas grandes obras, como Tosca (1900) e Turandot (póstuma).

- Só Atenas havia presenciado uma Olimpíada. Os primeiros jogos modernos aconteceram ali em 1896. A segunda edição, considerada secundária, transcendeu as fronteiras gregas e chegou em 1900 a Paris, coincidindo com a Exposição Universal daquele ano. A italiana viveu 29 edições dos jogos, contando até Londres 2012.

- Quase ninguém tinha admirado a Torre Eiffel. É um dos monumentos mais visitados do mundo, mas não na época, já que foi inaugurada apenas alguns anos antes do nascimento de Morano, na Exposição Universal de 1889.