Dia das Mães: pouca reivindicação e muito consumismo

A data perdeu sua origem reivindicativa para se tornar um negócio com grande carga sentimental

Diana Perazzini, babá, lê uma história para Nina e Lucas antes de dormirem.
Diana Perazzini, babá, lê uma história para Nina e Lucas antes de dormirem.

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Um colar feito com macarrões coloridos, uma moldura enfeitada com pregadores de roupa ou um cinzeiro com migalhas de pão. Quando éramos pequenos fazer o presente do Dia das Mães era todo um acontecimento. O importante não era o valor material, mas o amor e o entusiasmo com que fazíamos na escola. Depois, quando crescemos, puxamos o cartão de crédito, enviamos flores, ligamos com um “amo você” ou – se a distância permite – um almoço com um aperto de mão.

Ao contrário do Dia dos Pais ou do Dia dos Namorados, datas um pouco controvertidas, todo mundo comemora o Dia das Mães. O que poucos sabem é por que ele é comemorado, já que sobre essa data existem algumas falsas crenças.

O primeiro erro que as pessoas cometem é pensar que o planeta inteiro comemora no mesmo dia. Países tão diversos quanto Brasil, Espanha, Romênia, Lituânia, África do Sul e Hungria comemoram no primeiro domingo de maio. Mas outros, como Estados Unidos, China, Cuba e Nova Zelândia, no segundo. Do outro lado estão a Argentina e a Bielorrússia, que só homenageiam as mães em outubro.

O segundo mito é a crença de que se trata de uma celebração religiosa. A Igreja comemora em 8 de dezembro, coincidindo com a festa da Imaculada Conceição. E na Espanha, por exemplo, foi assim até que em 1965 houve uma mudança, o que é surpreendente quando consideramos que, nesse momento, era Franco que governava.

Os primeiros sinais desta festa são encontrados na Antiguidade. No Egito todos os anos era celebrada a deusa Ísis, mãe de todos os faraós, e na Grécia clássica o mesmo era feito com Rea, mãe dos deuses Júpiter, Netuno e Plutão. Os romanos herdaram essa tradição e na primavera reverenciavam por três dias a deusa Cibele em um festival chamado Hilária.

Mas para encontrar sua verdadeira origem, devemos voltar ao século XVII na Inglaterra, onde um evento chamado Domingo das Mães que começou sendo a oferta de flores das crianças para suas mães na saída da Missa, e acabou como um dia de folga no trabalho.

Mãe e filha desfrutam do Festival Internacional de Balões em Albuquerque, EUA
Mãe e filha desfrutam do Festival Internacional de Balões em Albuquerque, EUALucas Jackson (reuters)

Em 1870, nos EUA, a poeta e ativista Julia Ward Howe escreveu a Proclamação do Dia das Mães. “Levantem-se, mulheres de hoje!”, exclamou. Embora a verdadeira mãe dessa festa, como a conhecemos hoje, foi Anna Reeves Jarvis, uma dona de casa que em 12 de maio de 1907 organizou um Dia das Mães para comemorar a morte da sua, ocorrida dois anos antes, e reconhecer seu inestimável trabalho. Mas não só isso: começou uma campanha para que o resto do país também comemorasse. E funcionou, pois, em 1914, o presidente Woodrow Wilson definiu a data no segundo domingo de maio. A ideia se espalhou para o resto do mundo. Até hoje.

Com esta origem tão difusa e dispersa não é de estranhar que seu caráter reivindicativo tenha se perdido ao longo do caminho para se tornar uma (outra) desculpa para que os comércios vendam. Vivemos em uma sociedade que prefere os slogans comerciais aos políticos. Basta olhar a confusão provocada quando a deputada de Podemos, Carolina Bescansa decidiu levar seu bebê de seis meses para o Congresso. A opinião pública se revoltou. Frente aos problemas das mães de hoje, como a conciliação entre vida familiar e trabalho, é sempre melhor olhar para o outro lado. E passar pelo caixa, é claro.