Verne

Onze coisas que gostaria de ter sabido aos 20 anos

Se dividirem minha idade – 82 anos – por 11, eu aprendi alguma coisa séria a cada 7,45 anos

Quando se publica um livro chamado Yo de mayor quiero ser joven (Eu, quando crescer, quero ser jovem), sempre corremos o perigo de que alguém pergunte: “Quando você era jovem, o que você queria ser quando crescesse?”

Muitos anos se passaram e, realmente, não me lembro o que queria ser quando crescesse. Acho que, como sempre aconteceu comigo, pensei algo como “vou deixar a coisa andar e vamos ver o que vai dar”.

Nunca pensei que o resultado seria esse turbilhão de livros, TVs, rádios, conferências. Nunca.

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Agora paro. Custa um pouco parar, mas eu paro. Olho para trás, 62 anos e meio atrás, e penso o que gostaria de saber quando tinha 20 anos. Gosto de responder: “e eu sei lá!” E problema resolvido. Mas quero escrever um artigo e com essa exclamação, não sai nenhum artigo ou outra coisa. Coloco a exclamação e tudo está acabado.

Parto da base de que aos 20 anos teria sido bom saber algumas coisas. Penso e escrevo, como as coisas saem e não em ordem de importância. Claro que esqueço algumas coisas.

Aí vão.

Eu teria gostado de:

1. Conhecer o que prefiro chamar de “o mundo do show business”. Coisa que, naquele tempo, era difícil, porque embora vocês não acreditem, praticamente não existia. Há 62 anos e meio atrás, não havia televisão. Havia rádio.

Havia radialistas e jornalistas. E eu achava que todas aquelas pessoas eram “de segunda categoria”, pessoas que escreviam ou falavam pelo rádio porque tinham que fazer algo para viver.

2. Saber ler os jornais. Por sua vez, isso precisa ser dividido em duas partes: a) escolher os jornais – poucos – que se quer ler, e b) saber como se deve ler.

Conheço muitos – digo muitos mesmo – jovens que não leem nem um único jornal. Com a desculpa – disse desculpa – dos jornais digitais, não leem porque não têm tempo – nem vontade – de ler e desprezam os de papel porque sujam as mãos.

Isso faz com que pensem que a União Europeia foi criada junto com a criação do mundo, e que aqueles que sabem quem foi o primeiro embaixador da Espanha na então “Comunidade Europeia” somos uns dinossauros ilustrados (há alguma verdade nisso de “dinossauros”).

3. Sempre soube que era preciso ser otimista. Mas soube com a antiga definição de otimismo: “propensão a ver e julgar as coisas em seu aspecto mais favorável”. E como ainda não tinha inventado a nova definição (“lutar com unhas e dentes para avançar em uma situação concreta”), às vezes a velha falhava. Demoram muitos anos para que eu aprendesse a lidar com a nova.

4. Também sempre soube que devia ser decente. Mas, outra vez, atualizei uma definição: a de decência.

Ouço falar da globalização da indecência. Quando tinha 20 anos existiam indecentes, claro que sim. O que acontece é que agora a revolução nas comunicações nos pegou desprevenidos. As redes sociais nos envolveram e, além disso, sem remédio. E o que é um formidável instrumento de comunicação entre pessoas e de transmissão de notícias, de conhecimento e de coisas boas, também pode ser usado para o mal.

5. Isto implica que o anormal pode ser considerado como “normal” porque é feito muitas vezes e me preocupa porque estou convencido de que o anormal, quando é feito muitas vezes, não se transforma em algo normal. Torna-se algo anormal frequente, o que é muito diferente. Eu não sabia e não teria sido ruim saber.

6. Aos 20 anos não sabia que devemos perdoar as desfeitas – grandes ou pequenas –que alguém fizer para você. Eu não sabia, porque nessa idade você foi vítima de poucas desfeitas – a suspensão de um professor porque não gostava de você ou o cara do seu grupo que foi a uma festa com a menina que você gostava na época. Não é necessário perdoar pequenas desfeitas, porque no minuto seguinte você já esqueceu. Você passou (colando) em outra matéria e foi a uma festa com uma garota muito mais bonita que a anterior.

7. Isso eu aprendi depois, quando as desfeitas foram muito piores, e quando vi pessoas que decidiram não perdoar nunca e, pior ainda, fazer campanha e estabelecer organizações dedicadas a manter o ódio em uma nação, custe o que custar (que geralmente termina sendo muito).

8. Gostaria, aos 20 anos, de ter critério na política. Naquela época, não tive – agora, pelo menos, tento ter – porque meu pai me deu alguns conselhos que publiquei em algum livro: “Filho, nunca se meta na política”.

E como sempre obedeci meu pai e isso sempre funcionou, aqui também obedeci. Isso trouxe como consequência que, ao ler o jornal, eu pulava a seção de “Política” e ia diretamente para a de “Esportes”. Então, hoje eu me lembro que Inchausti, Uriarte, Deva, eram o goleiro e os defensores do Zaragoza quando tinha 20 anos, e não me lembro quem eram os ministros do governo da Espanha.

9. Aos 20 anos já sabia que era preciso trabalhar duro. Meus pais nunca me disseram que o trabalho era um castigo, porque não é, e me disseram que o castigo era o cansaço. Mas, como aos 20 anos eu não me cansava, trabalhava e me divertia. Então vieram os 30, 40, 50, 60, 70 e 80 anos, que, escritos assim, parecem uma barbaridade, e continuei trabalhando e me divertindo, ficando cada dia mais cansado. Por isso, quando ficamos mais velhos, temos que compensar o maior cansaço com mais diversão no trabalho, o que, cá entre nós, não é nada fácil.

10. Aos 20 anos, não sabia a importância da família em nossa vida. Era filho único, e tenho que agradecer aos meus pais que, aos 17 anos, me mandaram a Barcelona para estudar, o que foi algo excelente, mas eu era bem menos mimado que em casa.

Então, quando me casei e vieram os filhos, e vieram e vieram, até chegar a 12, eu percebi, mais uma vez, que não há lugar como sua casa.

11. Em teoria, também sabia aos 20 anos que os amigos eram muito importantes. Agora eu sei melhor porque, graças a Deus, tenho mais. Contar com a família e, quando saímos nas ruas, com os amigos, dá uma sensação de grande segurança.

E quando, como é o meu caso, você marcou com dois amigos de toda a vida para se reunir pela primeira vez em muitos, mas muitos anos mesmo, sendo que um deles viaja 300 quilômetros para que vocês almocem juntos, você acha que valeu a pena esperar tanto tempo. E sabe que, no momento em que se sentar na mesa do restaurante, um – ou os três – começará – começaremos – a falar e, algumas horas mais tarde, o que vem de longe terá que correr para não perder o trem.

Releio o artigo. Esperava mais de mim. Acreditava que, ao longo da vida, teria aprendido muitas coisas muito importantes e só consegui aprender 11, importantes, sim, mas que já sabia. Ou intuía. Ou sabia e agora completei.

Como disse ao princípio, é muito possível que tenha esquecido alguma. Mas acho que se não lembro uma coisa é porque ela não é essencial.

Aqui deixo essas 11. Se você dividir 82 por 11, mostra que a cada 7,45 anos eu aprendi uma coisa séria. Não é muito. Mas “é tudo que há”.