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Opinião
El acento
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O valor das pedras de Palmira

A questão não é o estado em que ficou a cidade, mas as vidas com as quais o EI acaba todos os dias

Jorge Marirrodriga
Imagem das ruínas de Palmira ocupada em novembro de 2015.
Imagem das ruínas de Palmira ocupada em novembro de 2015.Youssef Badawi (EFE)
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Embora Palmira tenha sido retomada das mãos do Estado Islâmico pelo Exército sírio e todos nos preocupemos com o estado em que se encontram as suas ruínas, trata-se agora, para sempre, de um lugar maldito. E isso, porque o EI profanou um dos lugares históricos mais admirados pela humanidade com um refinamento e uma crueldade difíceis de serem igualados. Não se trata das estátuas decapitadas nem dos arcos derrubados ou das colunas destruídas. No fim das contas, se trata de pedras destinadas a durar muito mais do que uma vida, mas igualmente condenadas a perecer.

A questão é o assassinato ritual – retransmitido para o mundo inteiro já há quase um ano — de 25 pessoas no teatro romano, o mesmo palco onde há vinte séculos foram apresentadas algumas das obras mais elevadas da criação humana. Tripudia-se grotescamente com uma das cerimônias sociais que diferenciam uma sociedade civilizada: o teatro. Um sacrilégio onde as vítimas mostravam o rosto sereno dos homens que sabem que estão prestes a cruzar o Umbral, com letra maiúscula, de sua existência e onde os carrascos eram crianças. Os vídeos do EI são repugnantes. Todos eles. Mas este vai muito além da repetitiva exibição de um assassinato porque procura encenar a morte de uma civilização. Da civilização.

Para a maioria de nós, Palmira é como esses objetos que temos em casa mas aos quais não damos muita atenção até a hora em que eles se extraviam. Mas na guerra contra o Estado Islâmico isso pode ser muito importante, porque os invencíveis guerreiros que se vangloriam de matar pessoas indefesas –estejam elas em uma jaula ou em uma fila de aeroporto—fugiram de soldados que os enfrentaram. Perderam uma cidade que, há quase 1.800 anos, testemunhou como uma mulher, Zenobia, enfrentou os impérios da época em que lhe coube viver: o romano e o sassânida. O EI debandou, e isso merece muito mais divulgação do que o dano material que seus integrantes possam ter causado, por maior que ele seja.

Porque, embora Palmira tenha sido libertada, para as suas pedras, de pé ou espalhadas pelo chão, isso não é nada novo. Elas já viram passar tantos conquistadores e libertadores ao longo de tantos séculos, que tudo isso representa apenas uma onda a mais na praia, que se extingue com a chegada da onda seguinte. Talvez agora elas se encontrem a salvo daqueles que odeiam tudo aquilo que representa um modo de vida, inclusive a criação artística, mas isso não tem como torna-las mais valiosas do que já são. O Arco do Triunfo de Palmira, dinamitado, não vale a vida de uma criança cristã assassinada por um suicida em um parque infantil em Lahore neste último domingo. Nenhuma estátua milenar desfigurada vale as feridas de um passageiro do metrô de Bruxelas. É preciso lembrar o óbvio, para estarmos conscientes do que realmente não pode se repetir. São os seres humanos que criam a arte. Mas a matéria não pode criar seres humanos. Isso sim, um funcionário agradece todos os dias pela existência do Museu Britânico.

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