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Por que é tão difícil encontrar a letra T no meio do desenho?

Um estudo explica como a nossa atenção filtra os estímulos

Tudo começou com um urso panda escondido entre bonecos de neve. A partir daí, apareceram mais versões desse passatempo – que, por sua vez, lembra o clássico Onde está Wally –, como outro panda em meio a stormtroopers do Star Wars e músicos de black metal, além de uma ilustração em que a missão é encontrar a estatueta do Oscar entre C3-POs.

Essa nova proposta apresentada pelo blog de divulgação IFL Science é, aparentemente, mais simples. A tarefa é encontrar a letra T. E, ainda, dão uma dica: ela não é vermelha.

A graça desse teste é que ele forma parte de um estudo da Universidade John Hopkins (Baltimore, Estados Unidos), cujos resultados foram publicados no dia 25 de fevereiro de 2016. Os participantes tinham que procurar uma letra B ou T. À metade deles foi dito que a letra não era de uma cor específica, e os demais não receberam nenhuma dica. É possível fazer o teste completo nesse vídeo.

Como era de se esperar, os que não tinham recebido nenhuma pista, demoravam mais para encontrar a letra. Além disso, quanto mais praticavam, mais rapidamente concluíam a tarefa.

Os resultados parecem óbvios, mas o que se queria mostrar com esse estudo é como o cérebro pode suprimir certos estímulos de forma voluntária. Ou seja, quando se dizia que a letra T não é vermelha, os participantes podiam eliminar de sua atenção todos os objetos dessa cor. A pesquisa poderia servir também para apontar um método de treinamento para pessoas cujo trabalho implique fazer buscas visuais, como radiologistas ou inspetores de bagagens em aeroportos.

Na verdade, já se sabia que podemos centrar nossa atenção no que é relevante para nós, ignorando o que não corresponde ao que estamos procurando. Um exemplo clássico, e bem conhecido, é o desse experimento elaborado por Daniel Simons e Christopher Chabris, em 1999. Veja este vídeo e conte quantos passes o time de branco realizou. E cuidado com o seguinte parágrafo, porque é onde colocamos a resposta.

Quantas vezes os meninos e meninas de branco passaram a bola de basquete? Você disse 15? Incrível. Contou muito bem. Mas, outra pergunta: você viu o gorila? Uma mulher disfarçada de gorila passeia entre os jogadores durante nove segundos com toda a calma do mundo, parando, inclusive, para bater em seu próprio peito, imitando o animal selvagem. Cerca de 50% das pessoas que viram o vídeo durante o experimento original não se deram conta da presença do gorila. (E sei que é uma mulher fantasiada porque a Time publicou a informação).

Se você já conhecia o vídeo, prove esta nova versão. A tarefa também é contar os passes da equipe de branco.

Quantos passes eles deram? Você viu o gorila? Percebeu que a cortina muda de cor? Viu que um dos membros da equipe de preto se retira na metade do vídeo? Quer dizer, se você contar passes, perde o gorila. Mas se está esperando por sua aparição, não vai prestar atenção nas cortinas.

Como explica Michael Shermer no livro Cérebro e Crença, o experimento foi repetido com aparelhos que permitem detectar onde fixamos o olhar, e, os participantes que não viram o gorila, tinham a visão fixada nele. O que ocorria era que “muito do que se passa diante de nossos olhos pode ser invisível para um cérebro concentrado em outra coisa”.

No caso do gorila, esse filtro traz consequências negativas. Conforme recorda Kathryn Schulz no livro Por Que Erramos – O Lado Positivo de Assumir o Erro, a cegueira por falta de atenção poderia causar muitos acidentes de carro, por exemplo. Os batedores de carteira que agem em duplas também se aproveitam disso: um deles nos distrai e não nos damos conta de que o outro roubou o celular que tínhamos deixado em cima da mesa.

Mas, de forma geral, esses testes são uma boa maneira de treinar nossa atenção, o que é bastante útil: se nos disserem que a letra T não é vermelha, filtramos os estímulos dessa cor e a encontramos antes. Se procurarmos um panda entre bonecos de neve, nos concentraremos em uma ou duas características que diferenciam o animal dos bonecos. Também usamos esse filtro quando procuramos um cachecol ou uma carteira que não sabemos onde tínhamos deixado ou para prestar atenção se ouvirmos um determinado som, como quando um diretor de orquestra se concentra em apenas um dos instrumentos.

Sim, não vemos o gorila. Mas, na verdade, isso acontece porque não queríamos vê-lo. Estávamos contando passes. E desempenhamos essa função muito bem.

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