Presidente da Ford: “Ter carro será algo secundário nas grandes cidades”

Mark Fields diz que o primeiro carro totalmente autônomo circulará pelas estradas antes de 2020

LAIA VENTAYOL.

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Ele revolucionou o pensamento de uma empresa muito tradicional que, até sua chegada, desconfiava da tecnologia alheia à fabricação de carros. Agora, o presidente e diretor executivo da Ford, Mark Fields (Brooklyn, Nova York, 1961) mantém um olho na capital do automóvel, Detroit, e o outro no Vale do Silício. Sua companhia lança novas ideias a conta-gotas voltadas à condução tradicional, enquanto guarda em segredo o seu próprio protótipo de carro autônomo. No momento, aterrissa pelo quinto ano consecutivo na grande feira de tecnologia para apresentar seu modelo SUV Kuga em território europeu. O carro incorpora o Sync 3, um sistema de navegação por voz totalmente interativo que procura distrair o mínimo possível um motorista cada vez mais conectado.

Pergunta. Que novidades a Ford apresenta em outro grande encontro tecnológico, depois de lançar produtos há apenas um mês no CES de Las Vegas?

Resposta. Viemos pela quinta vez ao MWC para mostrar como estamos deixando de ser uma empresa de carros para nos tornamos uma empresa que, embora continue sendo de carros, também se dedica à mobilidade. Trazemos novidades sobre o que será sempre o coração do nosso negócio: fabricar carros e caminhões. De fato, apresentamos na Europa nosso modelo Kuga. Mas também estamos aqui para oferecer novidades em matéria de mobilidade inteligente. Queremos ser líderes em conectividade, mobilidade, carros autônomos e uso de big data na experiência do usuário.

P. Como vê um futuro próximo, em que ser dono de um carro será algo fora de moda?

R. Acredito que avançamos rumo a um cenário de muitos anos ainda em que haverá pessoas querendo ser donas de um carro, um carro conduzido por elas, e considero que no mercado global esse perfil de cliente continuará sendo majoritário. Mas ter um carro será algo secundário nas grandes cidades, como aqui em Barcelona, não só pelo trânsito congestionado, mas pela consciência ecológica e, em alguns casos, por questões legais. Por isso, estamos pensando em crescer de maneira importante na área das novas oportunidades de mobilidade que estão surgindo.

P. Mas quase ninguém se atreve a estimar datas para isso. Qual é a sua?

R. Ocorrerá com o tempo. Pensemos, por exemplo, nos carros autônomos. Há diferentes níveis de autonomia. No nosso caso, a Ford é líder em carros que oferecem semiautonomia, ou seja, que ajudam o condutor humano a permanecer na faixa, a ajustar a velocidade de cruzeiro numa estrada, esse tipo de coisa... Ao mesmo tempo, porém, estamos preparando um carro que será completamente autônomo, que dispensará um condutor [humano] desde que circule numa zona pré-definida. É o chamado nível quatro de autonomia. Minha opinião é que alguém na indústria terá esse tipo de veículo circulando na estrada até o final desta década. Mas, claro, com a devida autorização legal.

"Precisamos estar atentos às mudanças sociais, especialmente às dos millenials. Eles querem mais acesso que propriedade".

P. Já pensa numa faixa de preços para esses veículos?

R. Ainda é muito cedo para dizer, do mesmo jeito que é cedo para estimar uma data para o lançamento de nossa proposta. Mas quando o fizermos, teremos certeza de que será acessível para milhões de pessoas. Esse é um dos lemas da Ford: não só atender a quem compra veículos luxuosos.

P. Não teme que o salto seja dado antes por uma grande empresa nativa digital, em vez de uma montadora tradicional?

R. Não. Essa é uma grande oportunidade para nós. É óbvio que temos uma longa história de fabricação de carros, mas ao mesmo tempo assumimos as mudanças. Para isso, precisamos estar atentos às mudanças sociais, especialmente às dos millenials. Eles querem mais acesso que propriedade, e a pergunta que nós temos de fazer é: que tecnologia já existente podemos usar para lhes oferecer isso? Em alguns casos trabalhamos sozinhos, mas também colaboramos com outras empresas externas na busca de soluções. Trabalhamos com a Ideo, mas também abrimos nosso próprio centro de inovação em Palo Alto (Califórnia).

P. Trabalham com o Google?

R. Trabalhamos com muitos para coisas específicas, e também temos conversas com outras grandes empresas, mas não revelamos quais.

P. E que mudanças vê na maneira como as pessoas se deslocam até o trabalho, diariamente, nos próximos cinco anos?

R. Já podemos prever um futuro em que ir até o trabalho numa cidade signifique uma combinação de vários meios de transporte: os tradicionais trem e carro, mas também uma bicicleta elétrica. Acreditamos que dar soluções de mobilidade em zonas urbanas será algo muito importante, pois em muitos casos as Prefeituras já aplicam impostos à entrada de veículos em determinadas áreas e, em outros, existe restrições legais ao uso do carro particular em determinadas horas. Refletimos não só sobre como fabricar carros, mas sobre como fazer para que circulem pela cidade de maneira cômoda aos que os utilizam para ir ao trabalho.

P. Poderia descrever uma cena cotidiana desse futuro próximo?

R. Imagine alguém que mora fora da cidade e que deseja ir ao centro: conduzirá até uma zona exterior da cidade, onde estacionará e pegará uma bicicleta elétrica para os últimos dois quilômetros até o destino.

P. De fato, na edição de 2015 do MWC vocês apresentaram dois protótipos de bicicleta inteligente. Têm data de lançamento?

R. Continuamos fazendo apenas projetos pilotos porque precisamos aprender mais sobre o que os futuros consumidores querem a respeito desses meios de transporte multimodais.

“2016 será um novo ano difícil na América do Sul”

2015 foi um bom ano para a Ford, com uma margem de lucro de 10,2% nos Estados Unidos. Os baixos preços do petróleo deram novo impulso às vendas de suas grandes picapes de gasolina. A empresa também teve bons lucros na Ásia e especialmente na Europa, onde obteve superávit durante todo o ano, algo que não conseguia desde 2011. Somente no último trimestre de 2015, a Ford obteve 131 milhões de dólares (520 milhões de reais) de lucro na Europa, em comparação com os 295 milhões de dólares (1,19 bilhão de reais) de prejuízo na América Latina.

“A América Latina, e em particular o Brasil, está passando por momentos difíceis. Vimos como a economia se contraía em 2015, e tudo indica que continuará assim este ano”, diz Mike Fields. Mas o CEO da Ford não pensa jogar a toalha na região. “Para nós, é um mercado importante e procuramos controlar cada aspecto do negócio. Falamos de um mercado centrado nos produtos básicos. Enfrentaremos problemas com a queda de preços, sem falar das questões políticas de alguns países. Mas nossa perspectiva é de longo prazo. Ainda assim, pensamos que 2016 um novo ano difícil na América do Sul.”