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COLUNA

Sinto falta

Percebi de repente quão longe me encontrava de tudo e de todos e o quanto isso me pesava os ombros

O meu último aniversário passei sozinho no pequeno aeroporto de Ljubliana, na Eslovênia, aguardando um voo para Skopje, na Macedônia. Sentado numa desconfortável cadeira, mirando as montanhas que compõem o maciço dos pré-Alpes, percebi de repente quão longe me encontrava de tudo e de todos e o quanto isso me pesava os ombros. Num vislumbre, vi meu rosto refletido no vidro da ampla janela, espectro estilhaçado pela luz do começo de tarde. E nele reconheci a passagem do tempo, essa terrível abstração concreta — a areia já se acumula, inexorável, no porão da minha ampulheta.

Vasculhei um lado e outro procurando enxergar minha mãe e por um momento senti seus dedos afagando meus cabelos — senti até mesmo o cheiro de sabão em pó, anil e água sanitária que usava para lavar trouxas e mais trouxas de roupa para fora. Ali estavam novamente seus castanhos olhos tristes — olhos que perderam o viço quando meu irmão morreu, aos 26 anos, em um estúpido acidente. Tenho certeza que ela morreu junto com ele — apenas permaneceu entre nós arrastando os dias como alguém condenado à prisão perpétua conta as horas: sem esperança.

De meu irmão guardo recordações esparsas, em particular um longo diálogo havido em cima da laje da nossa casa recém-construída, em Cataguases, na Zona da Mata mineira. Ele chegara do trabalho, e após trocar de roupa me chamou para ajudar a lavar a caixa-d’água. Enquanto a esvaziávamos, conversávamos. Ele, 25 anos, casado de pouco, encarregado-geral da fiação de uma fábrica de tecidos; eu, 16 anos, erupção de espinhas no rosto, estudante de tornearia-mecânica no Senai... Sem que déssemos conta o sábado se pôs e, mergulhados na escuridão, nossas palavras se dissipavam rumo às estrelas que pulsavam penduradas no firmamento...

Azuis eram os olhos do meu pai... Sempre se quis independente... Faltava paciência à sua voz baixa e rouca para discutir questões políticas (votava na oposição) e religiosas (convertera-se ao pentecostalismo mais por teimosia que por convicção, acredito). Quando desagradado, pegava o chapéu, peça inseparável de sua indumentária, e saía assoviando, um ligeiro esgar no canto da boca. Atravessava a cidade a pé, ponta a ponta, oferecendo seus serviços — biscates que pouco contribuíam para o orçamento doméstico... Eu o acompanhava encantado, como todos, por seus vívidos olhos azuis...

Então, a um canto daquele saguão silencioso, fincado no meio do nada, adivinhei o vulto do meu avô, alto, espigado e louro, enfiado num terno preto, o rosto severo mas simpático, tal qual estampado numa rara fotografia que adorna a estante do meu escritório. Não cheguei a estar com ele: seis meses antes do meu nascimento, um câncer no estômago o arrebatou. Minha avó, sim, a conheci: tristíssima, sempre enfiada num vestido preto, os longos cabelos presos em coque, definhou calada por não ter com quem falar: vivendo isolada na roça, nunca aprendeu português, e os filhos, netos e vizinhos, ninguém compreendia o dialeto italiano com que se expressava... Ali estavam ambos, incomunicáveis, inacessíveis, inalcançáveis...

E os amigos? Onde os amigos de outrora? Foram sumindo, à direita e à esquerda do caminho, foram sumindo. Fio, Rose, Marcelo, Mariene, Ivair, Ivan, jovens católicos do grupo Apel (sigla que, por mais que me esforce, não lembro mais o significado), com quem compartilhava os sufocantes domingos cataguasenses, missa pela manhã, trabalho comunitário à tarde, permanecem adolescentes em minha memória... E aqueles com quem dividi sonhos e decepções e descobertas em intermináveis discussões noite adentro em bares sórdidos de Juiz de Fora? Onde se acharão? E todos os que, um dia, inomináveis, cruzaram por mim momentaneamente, modificando minha trajetória, e em seguida desapareceram sem deixar vestígios?

A solidão daquela tarde outras tardes evocava. Tardes para sempre perdidas, que só em minhas lembranças persistem e que comigo vão se extinguir. Pouco a pouco subsistem apenas rostos sem nomes e nomes sem rosto, e logo nem isso... De repente, surgiram várias pessoas não sei de onde e enfileiraram-se em frente ao portão de embarque. Peguei minha mochila e meus pés arrastaram-me, sem forças. Quando o avião sobrevoou as montanhas pré-alpinas que cercam o aeroporto, fui tomado de profunda nostalgia. Senti imensa saudade de um menino que fui um dia e agora, tão longe se encontra, que nem me reconhece mais...