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Contra a intolerância

Polarização e intransigência política vazam para toda a sociedade

Um vento de intolerância assola a vida pública espanhola. Deteriora a qualidade dos valores compartilhados, a coesão social e a capacidade deste país de contribuir para a melhora do ambiente europeu e global.

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A desqualificação dos de fora, o desprezo pelo rival e a culpabilização do outro não são exclusivos de uma classe política afeita a centrifugar as responsabilidades que são compartilhadas. Mas encontram nesse meio —que deveria se destacar por sua exemplaridade— um caldo de cultura de efeitos contaminantes. Predomina o veto sobre a sinergia; o estabelecimento de linhas vermelhas no lugar da demarcação de campos de encontro; a proclamação de incompatibilidades no lugar da busca da transversalidade, imprescindível na ausência de maiorias evidentes.

A intolerância deriva em parte de uma legislatura em que se abusou da maioria absoluta, do decreto-lei e da imposição. Mas essas inclinações têm mais pais e, em todo caso, acabaram afetando, em diferentes graus, todos os dirigentes. E, em cascata, todos os rincões do espaço público.

No âmbito territorial se valorizam como nunca o desapego, a autossuficiência e o suprematismo. O que às vezes se traduz em soberanias e antissoberanias antiquadas que se ligam com o menos nobre de outras intransigentes experiências europeias, eventualmente de orientação autocrática. Na Justiça se intensifica uma certa assimetria entre o tratamento dado aos poderosos —sejam ex-ministros, banqueiros ou famosos— e um quase automatismo sancionador sobre os mais fracos.

Os meios de comunicação não aparam essas arestas. Tendem a aumentá-las. Os ruidosos enfrentamentos e os ásperos insultos são marca degradante de algumas tertúlias nas quais o espetáculo e a polarização são os critérios quase únicos. Ao incentivar a super atuação, a debilitação da qualidade acaba debilitando os meios que defendem antes o direito de seus leitores que as posições próprias.

Fenômenos similares de irresponsabilidade e radicalização percorrem o mundo econômico, acadêmico, cultural e religioso. Teremos recaído no paradigma abandonado das duas Espanhas incompatíveis e exaltadas uma contra a outra?

Há outras explicações menos calcadas no atavismo. A crise econômica —e sua desigual gestão— desajustou a classe média, colchão amortecedor das tensões nas sociedades modernas. E se esgotaram alguns dos pilares da cultura política assentada desde a Transição, abrindo caminho para novos vácuos, novas camadas sociais e novas disputas pela hegemonia política e cultural.

Mas neste cenário desconcertante e confuso também se destacam algumas das melhores fibras da cidadania espanhola: profissionais —também da política— comprometidos e com energia; empresários e trabalhadores que se internacionalizam; moradores de bairros de imigração recente que rejeitam a barbárie da xenofobia; gente da cultura capaz de apresentar propostas mais includentes; marginalizados e despossuídos que conseguem manter a civilidade e a esperança. Isso também é a Espanha, o melhor dela. É preciso ouvir tudo isso, e sobre isso plantar o futuro.