crise econômica internacional

Bancos internacionais atingem valor mais baixo desde a crise da dívida europeia

Temor quanto à saúde das instituições financeiras causa queda nas bolsas internacionais A preocupação de que ocorra uma reprodução da crise financeira preocupa a Europa

As dúvidas cada vez maiores sobre a saúde dos bancos europeus levaram a cotação do setor financeiro, nesta quinta-feira, a seu nível mais baixo desde agosto de 2012, em plena crise da dívida pública da zona do euro, e logo depois de o presidente do Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Dragui, ter prometido que não deixaria o euro cair. A palavra que mais definia o clima dos mercados globais na quinta era pânico. E a tensão continuava nesta sexta-feira, quando as bolsas asiáticas caíram pela sexta sessão seguida, motivada pelas preocupações sobre a saúde dos bancos europeus —mais um ingrediente que ameaça a economia global, já pressionada pela baixa dos preços do petróleo e pela desaceleração da China e de outros mercados emergentes, informou a Reuters.

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Apesar do temor causado pelo setor bancário no mercado, o euro se mantinha estável até o início da tarde desta sexta (horário local), e as variáveis macroeconômicas ainda não faziam soar os tambores da recessão. Porém, as dúvidas referentes ao Deutsche Bank, que apresenta as cotações mais baixas de sua história, sobre os bancos italianos e, a partir desta quinta-feira, sobre o Societé Générale, são suficientes para que a sombra da desconfiança tenha se estendido para todo o setor e tenha afetado de forma muito ampla as bolsas europeias —o índice Ibex, da bolsa espanhola, caiu 4,88% na quinta. Comparando com os picos do ano passado, as organizações internacionais tiveram sua capitalização diminuída em um valor equivalente ao PIB da zona do euro.

A lembrança do mês de setembro de 2008 voltou às mentes dos investidores nesta quinta-feira diante da queda nas Bolsas, particularmente do setor financeiro: “Não está tão distante assim, as pessoas ainda se lembram bem, e o medo está presente”, admitiam, quase em uníssono, vários relatórios de consultorias. Não se chegou ainda ao fundo do poço –seria obviamente prematuro comparar o abalo nas ações e os temores atuais quanto à situação real dos balanços dos bancos com a maior crise desde a Grande Depressão--, mas o susto já foi suficiente para estender a sombra da dúvida para todo o setor e desencadeou uma verdadeira crise nos bancos do Velho Continente, cotados em seu nível mais baixo em dois anos e meio.

O temor de uma reprodução da crise financeira preocupa a Europa, embora os ministros da zona do euro se esforcem para manter a aura de tranquilidade que costuma preceder a tempestade. O chefe do Eurogrupo (que reúne os ministros de Economia dos países da zona do euro), Jeroen Dijsselbloem, afirmou nesta quinta-feira que o setor financeiro europeu é sólido como uma rocha: “Há volatilidades e incertezas, mas o euro hoje está mais forte, e isso é o que acontece também com os bancos”. Pierre Moscovici, membro da Comissão Europeia, também defendeu “a solidez da recuperação europeia e do sistema financeiro”.

A lembrança do mês de setembro de 2008 voltou às mentes dos investidores

Diante dos ventos agitados que tomaram conta dos mercados por causa das dúvidas sobre os bancos, da desaceleração econômica, das tensões geopolíticas, dos problemas da China e de uma porção de outros perigos à vista, a zona do euro tenta se proteger com um discurso único. “Há um pouco de exagero nos mercados”, disse o ministro alemão, Wolfgang Schäube. “Isso está relacionado a algumas expectativas mais baixas de crescimento global”, complementa seu colega italiano Pier Carlo Padoan. Tudo isso é verdade. Como também é verdade que os mercados mantêm os olhos voltados para a periferia –Grécia, Portugal, Espanha--, mas, desta vez, não estão deixando de olhar também para o centro: o primeiro banco da Alemanha, o Deutsche Bank, está com problemas, enquanto o setor bancário italiano gera dúvidas enormes e sérias. “Deveríamos manter a calma em momentos como este”, concluiu o ministro finlandês Alexander Stubb, apostando na perspectiva de que a união do setor afaste o perigo.

Informações em espanhol.
Informações em espanhol.

Mas os analistas questionam a solidez de um projeto que ainda em construção, ainda incompleto. E alertam, pela enésima vez, para o fato de que, quase 10 anos depois do início da Grande Crise de 2008 e depois de ter gasto bilhões de euros para ajudar o setor financeiro, a Europa não sabe exatamente qual é a situação de seus bancos. Até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstrou nesta quinta-feira a sua “preocupação” diante da deterioração das perspectivas do setor financeiro do Velho Continente.

“Os bancos europeus continuam subcapitalizados, mas o problema é que isso desague em uma crise de confiança”, afirma Juan Ignacio Crespo. “Suas margens de manobra são cada vez mais estreitas, e este é o setor mais exposto ao ciclo”, conclui Ángel Berges, sócio da AFI. Se o pior cenário –o de uma recessão global, como a que se desencadeou a partir de setembro de 2008—realmente se formar, o setor financeiro será o que sofrerá primeiro e em maior grau. A julgar pelos números registrados, esse raciocínio já bateu nas Bolsas.

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