Coluna
i

Fim de festa

O que nos aguarda é uma agenda política sobrecarregada que definirá e será definida pelos rumos econômicos

Mulher grávida em uma favela de Recife.
Mulher grávida em uma favela de Recife.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

A inflação oficial no ano passado fechou em 10,67%, o mais alto índice desde 2002, impulsionada pelo alta dos preços de alimentos e bebidas, moradia, transportes, energia e combustível. O PIB (Produto Interno Bruto), soma de toda a riqueza produzida no país, deve fechar 2015 com um recuo de 3,71%, segundo o Banco Central. E para 2016, as previsões são de continuidade de inflação alta (em torno de 7%) e PIB em queda (1,9%). Se juntarmos a isso a taxa de desemprego, que deve ultrapassar os 10% este ano, temos aí um cenário de recessão, que segundo estudos do banco Credit Suisse, deverá ser a pior da história do Brasil. Só conhecemos antes dois anos consecutivos de encolhimento do PIB em 1930-1931.

O panorama se agrava ao adicionarmos às dificuldades econômicas a instabilidade política. A presidente Dilma Rousseff enfrenta uma rebelião na base do Congresso, que poderá traí-la se o processo de impeachment for levado à frente. A saída de Dilma não interessa apenas ao PMDB do vice-presidente Michel Temer, que assumiria o cargo, mas também e principalmente ao PSDB. Sem candidato forte – contra Aécio Neves existem inúmeras denúncias e Geraldo Alckmin não consegue tornar-se nome nacional – os tucanos apostam no desgaste de seus adversários. Resta também o julgamento pelo TSE do pedido de impugnação da chapa que elegeu Dilma e Temer. Independentemente do resultado destas ações, será difícil administrar a economia num ambiente contaminado por mesquinhos interesses partidários.

No meio disso tudo, acompanharemos as eleições municipais, marcadas para outubro (dias 2 e 30, esta última data reservada para o segundo turno em municípios com mais de 200.000 eleitores). Interessa sobretudo atentar para o comportamento do eleitor nas grandes cidades, não só porque poderemos aferir o desempenho dos partidos (principalmente o embate entre o PT e o PSDB, os principais adversários de 2018), como também teremos a oportunidade de observar se surgirão ou não novos nomes capazes de comover o público visando as eleições majoritárias.

Para agravar as nossas dores de cabeça, temos em progresso o alastramento de casos de microcefalia causada pelo zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que provoca a dengue e a febre chicungunha. No dia 1° de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou situação de “emergência internacional” diante da gravidade do problema. A estimativa é de que chegue a 4 milhões o número de infectados neste ano, 1,5 milhão apenas no Brasil. Em janeiro, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos já havia recomendado às mulheres grávidas que adiassem viagens aos países que possuem casos de zika vírus, particularmente ao Brasil.

A expectativa agora é com a realização dos Jogos Olímpicos, entre os dias 5 e 21 de agosto, no Rio de Janeiro. Calcula-se que cerca de um milhão de turistas circularão pela cidade. O Comitê Olímpico Brasileiro já anunciou que irá redobrar os cuidados com relação à saúde dos atletas e dos visitantes, garantindo que nenhum país cancelará a participação no evento. A previsão de gastos com os Jogos Olímpicos do Rio alcança 38 bilhões de reais, 25% maior que o orçamento original. E nada deste dinheiro refere-se ao combate ao mosquito... Parece não haver dúvida de que o zika vírus aportou por aqui trazido por torcedores que vieram participar da Copa do Mundo de Futebol. A pergunta que se faz agora é: e os Jogos Olímpicos? O que nos deixará como legado?

Arquivado Em: