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COLUNA

Fim de festa

O que nos aguarda é uma agenda política sobrecarregada que definirá e será definida pelos rumos econômicos

Mulher grávida em uma favela de Recife.
Mulher grávida em uma favela de Recife. REUTERS

Acabou o carnaval! E agora, terminada a festa, temos de encarar a realidade tal qual ela se nos apresenta, sem fantasia. O que nos aguarda é uma agenda política sobrecarregada que definirá e será definida pelos rumos econômicos que o Governo e a conjuntura internacional impuserem. Recessão e desemprego devem pautar os debates nas eleições municipais, que antecipam possíveis cenários do pleito majoritário de 2018. Este 2016, na verdade, pode acabar paralisado, atolado no brejo do impeachment. Além disso, temos que lidar com uma epidemia de zika vírus em plena realização dos Jogos Olímpicos. Um ano bastante complexo, como têm sido, aliás, todos os do nosso infausto país.

A inflação oficial no ano passado fechou em 10,67%, o mais alto índice desde 2002, impulsionada pelo alta dos preços de alimentos e bebidas, moradia, transportes, energia e combustível. O PIB (Produto Interno Bruto), soma de toda a riqueza produzida no país, deve fechar 2015 com um recuo de 3,71%, segundo o Banco Central. E para 2016, as previsões são de continuidade de inflação alta (em torno de 7%) e PIB em queda (1,9%). Se juntarmos a isso a taxa de desemprego, que deve ultrapassar os 10% este ano, temos aí um cenário de recessão, que segundo estudos do banco Credit Suisse, deverá ser a pior da história do Brasil. Só conhecemos antes dois anos consecutivos de encolhimento do PIB em 1930-1931.

O panorama se agrava ao adicionarmos às dificuldades econômicas a instabilidade política. A presidente Dilma Rousseff enfrenta uma rebelião na base do Congresso, que poderá traí-la se o processo de impeachment for levado à frente. A saída de Dilma não interessa apenas ao PMDB do vice-presidente Michel Temer, que assumiria o cargo, mas também e principalmente ao PSDB. Sem candidato forte – contra Aécio Neves existem inúmeras denúncias e Geraldo Alckmin não consegue tornar-se nome nacional – os tucanos apostam no desgaste de seus adversários. Resta também o julgamento pelo TSE do pedido de impugnação da chapa que elegeu Dilma e Temer. Independentemente do resultado destas ações, será difícil administrar a economia num ambiente contaminado por mesquinhos interesses partidários.

No meio disso tudo, acompanharemos as eleições municipais, marcadas para outubro (dias 2 e 30, esta última data reservada para o segundo turno em municípios com mais de 200.000 eleitores). Interessa sobretudo atentar para o comportamento do eleitor nas grandes cidades, não só porque poderemos aferir o desempenho dos partidos (principalmente o embate entre o PT e o PSDB, os principais adversários de 2018), como também teremos a oportunidade de observar se surgirão ou não novos nomes capazes de comover o público visando as eleições majoritárias.

Para agravar as nossas dores de cabeça, temos em progresso o alastramento de casos de microcefalia causada pelo zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que provoca a dengue e a febre chicungunha. No dia 1° de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou situação de “emergência internacional” diante da gravidade do problema. A estimativa é de que chegue a 4 milhões o número de infectados neste ano, 1,5 milhão apenas no Brasil. Em janeiro, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos já havia recomendado às mulheres grávidas que adiassem viagens aos países que possuem casos de zika vírus, particularmente ao Brasil.

A expectativa agora é com a realização dos Jogos Olímpicos, entre os dias 5 e 21 de agosto, no Rio de Janeiro. Calcula-se que cerca de um milhão de turistas circularão pela cidade. O Comitê Olímpico Brasileiro já anunciou que irá redobrar os cuidados com relação à saúde dos atletas e dos visitantes, garantindo que nenhum país cancelará a participação no evento. A previsão de gastos com os Jogos Olímpicos do Rio alcança 38 bilhões de reais, 25% maior que o orçamento original. E nada deste dinheiro refere-se ao combate ao mosquito... Parece não haver dúvida de que o zika vírus aportou por aqui trazido por torcedores que vieram participar da Copa do Mundo de Futebol. A pergunta que se faz agora é: e os Jogos Olímpicos? O que nos deixará como legado?