O fim simbólico dos Kirchner

Decisão de retirar retratos da Casa Rosada é parte de um processo de ‘deskirchnerização’

Galeria na Casa Rosada com Néstor Kirchner, Chávez, Che Guevara e Allende.
Galeria na Casa Rosada com Néstor Kirchner, Chávez, Che Guevara e Allende.R. Ceppi
Mais informações

Ao seu redor estava a Galeria dos Patriotas Latino-Americanos, com 40 retratos de personalidades como Che Guevara, Hugo Chávez, Juan Domingo e Evita Perón, Salvador Allende, Augusto Sandino, Tupac Amaru e, em lugar destacado, Néstor Kirchner, falecido marido da ex-presidenta. Tudo era pensado para dar a ideia de que o povo kirchnerista havia tomado o poder. Os militantes se foram, mas os quadros ficaram. E agora o Governo do liberal Mauricio Macri precisa encará-los todos os dias.

A decisão de retirá-los já foi tomada, segundo fontes do Executivo, num processo de deskirchnerização dos símbolos que incluirá também o dinheiro. Os Kirchner haviam colocado na nota de 100 pesos, a mais usada, a efígie de Evita Perón, que Macri substituirá por uma taruca, um cervo andino ameaçado de extinção. Em outras notas, de 200, 500 e 1.000 pesos, haverá baleias, uma onça e um joão-de-barro, pássaro nativo.

Macri ainda não anunciou quando vai retirar os retratos de Kirchner e Chávez da Casa Rosada. A informação oficial é de que o Governo está fazendo um inventário de todas as obras que há no edifício. A realidade é que o Executivo busca a hora e a maneira adequadas para não causar muito ruído. Mas a convivência do Che e de Chávez com Macri não durará muito.

Néstor Kirchner ficará com um busto no salão dedicado aos ex-presidentes, onde também aparecerá em algum momento a figura de Cristina, mas outros quadros sairão.

A convivência do Che e de Chávez com Macri não durará muito

Há outras imagens chamativas. Macri dá suas entrevistas coletivas ao lado de um desenho em homenagem a Rodolfo Walsh, jornalista e militante do grupo esquerdista Montoneros assassinado pela ditadura em 1977 – outro personagem muito distante de tudo o que o novo presidente representa.

A Casa Rosada não é o único lugar onde isso acontece. Entrar em qualquer ministério argentino significa cruzar com fotos e retratos dedicados a Perón, Evita e os Kirchner. A maioria permanece ali, mas os macristas dão como certo que sairão.

A Argentina é o país dos símbolos. Apaixonados por sua própria história, seus cidadãos vivem com entusiasmo cada polêmica sobre o passado. Macri rompeu esquemas ao inaugurar uma estátua de Perón em plena campanha. Procurava o voto peronista e a superação de preconceitos.

Outra cena marcou o mandato do Néstor Kirchner: a retirada do quadro do ex-ditador Jorge Rafael Videla do Colégio Militar, numa cerimônia comandada pelo então presidente em 2004. Ficou na memória nacional a sua voz firme ao ordenar com um “proceda” ao chefe do Exército que retirasse a imagem.

Mas a Argentina também é um lugar de confronto para quase tudo. Quando os Kirchner lançaram a nota de 100 pesos dedicada a Evita, em 2012, ano do 60º. aniversário da sua morte, muitos comerciantes antiperonistas não quiseram aceitá-la. O Banco Central ameaçou multá-los.

A guinada política atual não altera essa paixão dos argentinos por se dividirem. Nesta semana, o próprio Macri precisou pedir no Twitter aos seus seguidores que não boicotassem a estreia da nova série televisiva La Leona. Os antikirchneristas se mobilizaram contra ela porque é protagonizada por Pablo Echarri e Nancy Duplaa, dois dos atores que mais apoiaram a ex-presidenta.

A mais recente guerra diz respeito ao gabinete que será ocupado no Congresso pelo deputado Máximo Kirchner, filho de Néstor e Cristina. Na Argentina se briga por cada metro, cada símbolo, numa espécie de empate eterno que só as eleições alteram ligeiramente.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: