Oscar 2016

A nova aposta de Michael Burry

Ele enriqueceu ao prever o ‘crash’ do ‘subprime’ e inspirou o filme 'A Grande Aposta', indicado ao Oscar

O investidor Michael Burry, em 2010.Tony Avelar

Em seu perfil na Match.com, rede social de namoro, Michael Burry se apresentava como “estudante de medicina com um olho só, desajeitado nas relações sociais e com uma dívida de 145.000 dólares [quase 600.000 reais] em empréstimos universitários”. Funcionou. O sujeito pareceu atraente, e ele conheceu ali sua segunda esposa. Burry se saía bem nas apostas de risco e era persistente, e não seria só daquela vez que ele teria êxito. Aquele sujeito com seus 30 anos, sem formação financeira, viu com seu único olho o que ninguém mais viu, fez história no último grande crash, criou os derivativos de crédito (espécie de seguro de inadimplência) das hipotecas podres e ficou rico graças a isso. É o personagem principal do livro A Jogada do Século, sobre a crise, que virou filme (em cartaz desde 14 de janeiro no Brasil) com o título A Grande Aposta, um dos favoritos a levar o Oscar de melhor filme.

“Minha condição natural de outsider sempre me leva a analisar qualquer grupo a partir de fora”, disse Burry à Bloomberg TV anos atrás. O olho perdido devido a um câncer quando tinha dois anos de idade o tornou um tanto retraído. E era constante ao extremo. Começou sua carreira nos mercados como blogueiro sobre investimento à noite, cada vez mais influente, enquanto estudava Medicina. Abandonou a carreira de neurologista para criar seu primeiro fundo, o Scion Capital, com o qual faria sua grande jogada. No filme, é interpretado por Christian Bale: o papel rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvamente.

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“É evidente que conseguiu isso porque era muito obsessivo, eram produtos muito complicados, e o problema que houve é que ninguém mais viu isso, o mercado demorou demais para fazê-lo, e por isso seu investimento demorou para subir de preço, e precisou suportar muita pressão”, explica Jeff Madrick, autor de Age of Greed: The Triumph of Finance and the Decline of America (idade da ganância: o triunfo das finanças e o declínio da América). Burry digeriu dezenas de prospectos de 130 páginas sobre cada bônus ligado a hipotecas. Percebeu que tinham sido concedidos créditos de alto risco, que muitas famílias começavam a sofrer para pagar os empréstimos e que aquilo era uma bomba-relógio.

Antes, em 1998, tinham diagnosticado nele transtorno bipolar. Não era bipolar. Com o tempo se deu conta de ter síndrome de Asperger. Foi isso provavelmente que lhe permitiu dedicar todas aquelas horas a uma análise tão pormenorizada. Foi então que convenceu o Deutsche Bank e o Goldman Sachs a vender toneladas de derivativos de crédito (credit default swaps, ou CDS) para esses valores tóxicos e esperou.

O problema é que a bolha demorou para estourar, e muitos investidores pularam fora. Willam D. Cohan, analista e autor de vários livros sobre Wall Street, ressalta que “alguns de seus investidores pediram de volta seu dinheiro, e ele acabou sendo bloqueado; isso ajudou até certo ponto, mas ele estava certo sobre o que aconteceria no mercado. Se não tivesse acertado, esse bloqueio não teria sido útil”.

Sua criação

Outras pessoas intuíram o que aconteceria com as hipotecas podres, mas Michael Burry criou a forma de apostar contra elas, o que no jargão financeiro é chamado de “ficar vendido”: tomar emprestado um ativo que se julga supervalorizado, vendê-lo na alta, recomprar na baixa e devolver o ativo, embolsando o lucro.

O problema é que na época não havia como "ficar vendido" com as subprime porque os bônus lastreados por esse tipo de crédito tóxico representavam partes muito pequenas, difíceis de encontrar e portanto de pegar emprestado. Ele pensou nos derivativos de crédito (CDS), mas ligados exclusivamente a esses créditos subprime, algo que não existia. O fundador do Scion convenceu dois bancos de investimento a emiti-los e vendê-los. Em março de 2005 fez seus primeiros 60 milhões de dólares.

Quando a crise estourou, o investimento se multiplicou, e o Scion ganhou cerca de um bilhão de dólares. Depois fechou o fundo e passou a se dedicar a suas finanças pessoais. Ficou farto dos investidores. “Investir sozinho é libertador, posso ficar fora do mercado, e ninguém liga. É genial”, declarou.

Em 2010 mudou sua aposta para o ouro, as pequenas empresas de tecnologia e as terras agrícolas. A água estava por trás desse último investimento. “Vi claramente que a comida é a maneira de investir em água, cultivar alimentos em terra rica em água e transportá-la para terra pobre em água”, explicou em dezembro à revista New York. Alertou sobre o acúmulo de dívida pelos países: “A ideia de que o crescimento remediará nossas dívidas é viciante para os políticos, mas as pessoas acabam pagando o preço”. Também contra os juros baixos: “Os juros reais negativos são tóxicos”. Ficou surpreso por nenhum dos altos executivos ter sido punido pelas hipotecas podres.

Em 2013 voltou a abrir um fundo, novamente chamado Scion Management e com sede em Cupertino (Califórnia), curiosamente a meca dessas empresas tecnológicas ameaçadas pela tempestade. Mas seus clientes sabem agora que o sujeito com quem deixaram seu dinheiro é, como ele mesmo diz, um outsider.

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