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Francesca Woodman: o risco de ser artista

Ela se autorretratou obsessivamente antes de cometer suicídio e, após 35 anos, ainda fascina

'Self deceit 1', Roma, 1978 © George and Betty Woodman.
'Self deceit 1', Roma, 1978 © George and Betty Woodman.

Morreu no inverno, dia 19 de janeiro de 1981, depois de saltar para o vazio do telhado de um edifício do East Side de Nova York, vítima de depressão. Naquela época, ninguém foi capaz de identificar aquele corpo, que jazia com o rosto desfigurado, o mesmo que ela havia retratado, muitas vezes, procurando dar voz à sua arte e que parece tão familiar em seu trabalho. Aquele dia morria Francesca Woodman, a desconhecida jovem fotógrafa de 22 anos. Nascia seu culto.

Francesca Woodman (Denver, 1958) deixou para trás uma obra de grande força poética que fala por si mesma. Mais de 800 fotos impressas, nas quais aparece normalmente fantasiada ou nua, como uma figura semioculta, ou como uma presença fantasmagórica em silenciosos quartos abandonados onde a arquitetura e os objetos ao redor parecem ter uma presença física mais tangível que a sua própria. Estes cenários foram interpretados por alguns como uma prévia de sua morte truculenta, e dotou sua lenda de uma aura romântica e maldita que alimenta o mistério que paira sobre sua figura.

Imagem da série “Eel”, Veneza, 1978.
Imagem da série “Eel”, Veneza, 1978.

Quando se completam 35 anos de sua morte, sua obra está exposta no Foam Museum de Amsterdã, sob o título de Francesca Woodman, On Being an Angel (algo como sendo um anjo), em uma exposição que reúne 120 fotografias e seis vídeos feitos durante sua curta carreira. Seu talento precoce foi reconhecido e acolhido como uma avis rara dentro do panorama da fotografia, onde até agora não existiam, como ocorre na música e na literatura, reconhecimentos tão prematuros, e serviu de inspiração para as gerações seguintes, assim como estímulo a seus pares, Cindy Sherman, entre outros.

“É muito interessante a maneira em que explora a relação do seu corpo com o espaço”, diz Kim Knopper, curadora da exposição, “seu trabalho desperta muito fascínio. Tinha um estilo próprio sendo muito jovem o que é bastante notável”. Ainda assim, alguns acham que a obra está superdimensionada e sublimada por uma desgraça, e que é o fruto de uma jovem mulher obcecada por sua imagem.

A caminho do internato, aos treze anos, seu pai, George Woodman, pintor e fotógrafo, deu de presente sua primeira câmera, uma Yashica. A mesma que usou quase sempre ao longo de sua prodigiosa trajetória. Sua mãe, Betty Woodman, também é artista: ceramista e escultora. Foi nesse ambiente familiar muito criativo no qual a arte era vista como uma prioridade, algo sério na vida, valorizada como uma religião.

Sem título, Nova York, 1979-1980.
Sem título, Nova York, 1979-1980.

“Não saberia fazer outras coisas além de ser artista. Era uma artista sem remédio, embora às vezes duvidasse”, comenta Betsy Berne, sua amiga e companheira no Rhode Island School Design, de Providence e de seus últimos anos em Nova York. Francesca passou vários anos em Roma, daí as ressonâncias clássicas de sua obra e sua influência do surrealismo, que absorveu em suas frequentes visitas à Librería Maldoror, especializada nesse movimento, e do qual também herdou o gosto pela literatura gótica, de onde provém essa atmosfera fantasmagórica que envolve sua fotografia. Também é possível notar influências da fotógrafa de moda Deborah Turbeville e do francês Duane Michals. Em qualquer caso, mesmo bebendo de fontes diferentes, o trabalho escapa de qualquer rótulo e mantém uma singularidade estranha.

Paradoxalmente, nos mostrando tanto de si, ela conseguiu manter o mistério; revelando sua alma, não sua presença nem sua vida

“É questão de conveniência, estou sempre disponível”, Woodman costumava responder quando perguntavam pela sua vontade de se autorretratar. “Embora às vezes usasse modelos, para ela era mais fácil trabalhar sozinha”, afirma sua amiga Betsy, que coincide com Knopper ao não ver mais rastros autobiográficos em suas imagens do que o inerente em toda obra artística. Por outro lado é possível observar uma busca formal em suas intenções. “Francesca era muito excêntrica, o tipo de pessoa que não deixa indiferente, muito brilhante, carismática e muito teatral. Ela gostava muito de dramatizar e tudo a afetava profundamente. Era muito forte, embora brincasse de ser frágil. Agora quando vejo a interpretação que está sendo dada a algumas das suas fotografias, dá vontade de rir. Estava brincando e tinha um sentido muito particular de humor. Não era tão séria como a consideram. Era jovem!”, diz Berne. No entanto, seu público muitas vezes costuma sentir verdadeira intriga pelos detalhes autobiográficos que acreditam que sua obra revela.

Quando terminou sua formação acadêmica mudou-se para Nova York, onde tentou abrir caminho como fotógrafa, mas o reconhecimento demorou a chegar. “Era muito ambiciosa, tinha a urgência característica da juventude. Acho que estabelecia uma competitividade com seus pais, que já tinham um certo reconhecimento no mundo da arte”, acrescenta a amiga. “Tinha o reconhecimento próprio de alguém jovem recém-saído da universidade, começava a expor, mas sua morte prematura interrompeu tudo”, conta Kim Knopper. A ruptura de um relacionamento foi outro revés em seu caminho, que desembocou em uma primeira tentativa de suicídio: diagnosticada com depressão, voltaria a tentar novamente cinco meses depois. Desta vez, não errou.

Imagem da série Space 2, Providence, Rhode Island, 1976 .
Imagem da série Space 2, Providence, Rhode Island, 1976 .

Assim como o peso do suicídio condicionou e limitou a valorização da sua obra, ela tem sido frequentemente associada ao movimento feminista. “Sabia das reivindicações do movimento, mas não havia nenhum propósito de se manifestar como uma delas em sua arte. Depois de sua morte, algumas críticas de arte feministas usaram a obra dela em seu discurso”, diz a curadora da exposição. “O que eu acho importante é situar sua obra no meio do caminho entre a performance e a fotografia. Suas obras funcionam, às vezes, como fotografias e outras como documentos de uma performance”.

No documentário de C. Scott Willis, Os Woodmans, George Woodman enfatiza que foi talvez a excessiva vulnerabilidade de sua filha o preço a pagar pela beleza de suas imagens, sublinhando que existe um risco psicológico na arte. A tragédia de sua filha é para ele a melhor prova disso. Mas durante sua vida Francesca Woodman soube ser a atriz de um drama que ela mesma dirigiu e mostrava com ambivalência através de uma série de imagens nas quais brincava de aparecer e desaparecer. Era sempre um sim, mas não, a sua nudez explícita, seu rosto estava escondido. Estava presente ao mesmo tempo em que se escondia. Knopper sugere que seu trabalho poderia ser considerado um pré-selfie, com um significado mais profundo. Mas talvez, em uma época na qual abunda o exibicionismo abunda sem pudor nas redes sociais, seja mais adequado classificá-la como o anti-selfie, já que paradoxalmente nos mostrando tanto de si, ela conseguiu manter o mistério; revelando sua alma, não sua presença nem sua vida.

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